Canto do meio
Poeta cantor de rua
Sabes ler e escrever
Rimas em canto o teu gozo
Eu canto o meu padecer
nn(in)metamorphosis
Há momentos em que tudo
desaba. As convicções que nos ergueram um dia perdem o brilho, esmorecem sem
razão que as sustente. Viver nunca foi fácil.
Mas pouco importa. A dor
também expande a alma, torna-a mais cheia de mundo. O sentido das coisas nasce
sempre dentro de nós, entre o que vivemos e o que nos atravessa, e há instantes
raros em que tudo parece alinhar-se, como se pudéssemos tocar a lua entre
nenúfares de silêncio.
São esses momentos que
quebram o ciclo da dor e inauguram outro movimento. Devolvem-nos a esperança,
não como permanência, mas como passagem. O acreditar em nós e nos outros. A
ilusão necessária de que somos, ainda, donos do nosso destino.
Depois, o ciclo recomeça.
Tudo volta a cair. Sempre volta. E nesse cair repetido, renascemos, não do
nada, mas do que já fomos, mais atentos à fragilidade e à força que nos habita.
Por isso, mesmo no auge
do sentir, não devemos esquecer a sua natureza cíclica. Nem perder de vista o
sorriso que já nos salvou, nem a paz que um dia foi casa.
A magia nunca morre.
Apenas se recolhe, discreta, no movimento do ciclo.
E se deixares de ser o
meu amor, ou eu o teu, não é grave.
Grave seria não haver
amor algum.
Doía
menos, se mais cedo nos apercebêssemos que
Para
se viver feliz
não temos que saber tudo
não temos que ser os melhores em tudo
não temos que ter tudo
não temos que ter experienciado tudo
Apesar
de todos vivermos à procura de certezas, estou cada dia mais certa que o certo
é saber viver com o essencial
Saber
de quem gostamos
saber a quem amamos
saber a quem realmente vale a pena dedicarmos o nosso tempo
A
vida tem-me vindo a ensinar que, quando eu souber estas três coisas, saberei o
essencial. E nesse momento terei aprendido que
O
facto de se saber de cor milhares de palavras do dicionário
não faz um iluminado
se não se souber usar cada uma delas no local certo
O
facto de se saber muito
pode, mesmo assim, nunca ser suficiente
O
facto de se saber o que se tem
não faz com que se saiba o que fazer com o que se tem
O
facto de se esperar ou nos esperarem
não faz da espera eterna
Um dia acaba
O
facto de se fazer escolhas
não garante que se apresentem boas
O
facto de se ter cometido erros
não faz reféns
se não se estabelecerem compromissos com eles
Viver
é um desenho que cresce a cada dia
Os traços e rabiscos feitos… estão feitos
Nada
pode ser apagado
mas pode ser corrigido
tornando o desenho, a cada dia, mais agradável
Recomeçar
sempre que necessário é obrigatório
O resto é consequência
Quando a tarde cai em silêncio
também eu fico mais quieto por dentro
Há sombras que trazem lembranças antigas
e um cansaço calmo nas mãos
As horas
passam devagar
como pássaros frios tocando a alma
e cada memória aparece ao longe
como uma luz esquecida na beira do mar
Mas existe
algo que continua vivo
nesse fim lento do dia
um brilho pequeno nos olhos
uma ternura leve no vento
Como se o
tempo, mesmo levando tudo
deixasse ficar o mais importante de cada momento
E então entendo
não é a noite que traz tristeza
mas a beleza das coisas
quando começam a ir embora
Desavenças
ou a nova fábula dos 2 burros
Resposta
Será que ela já espreitou?
Não dei conta… talvez não
Por onde anda?
Como hei de fazer
Para que da minha decisão
Fique ela a saber?
Nem um pio, nem um ai
Nem atrás da cortina
Nem na frincha da porta
Onde andas, ó menina?
Mesmo assim, que terá escrito?
Fica de atalaia,
E que todos creiam neste registo
É só curiosidade…
Que lhe caia um raio, um corisco
E sem levantar suspeita
Fiel à sua resistência
Chuta a bola
Como quem nada pretende
Porque, havendo resposta
Sempre poderá dizer
Que foi pura inadvertência…
Bem escondidinho, espreita.
Este é o tempo dos mundos parados...
Parada entre a fronteira do vazio da alma, (se ainda fumasse) rolaria o cigarro
e expiraria o fumo como se quisesse deitar fora a mágoa que me aperta o
peito... Folheio recordações...
***
2012-04-26
- Pranto ou a obliquidade do olhar - Desafios
nn(in)metamorphosis