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30/03/2026

Quando o ontem não chega

 

Gosto de rotinas. Gosto de saber como começa o dia, dos pequenos gestos que se repetem e que, sem dar por isso, me organizam por dentro. Há uma tranquilidade nisso, quase como um chão firme onde posso pousar os dias.

Talvez seja por isso que os imprevistos ganham outra força. Quando algo muda, quando há um desvio, sinto-o com mais intensidade. Nem sempre são bons; às vezes desarrumam, pesam, ficam de um modo que não faz rir. Mas ficam - e isso também diz qualquer coisa sobre o dia.

Gosto de rotinas porque me dão medida. É essa medida que faz com que tudo o que a interrompe, leve ou difícil, não passe despercebido. No fim, são esses dias, aqueles que não sabem a ontem, que mais se guardam.

 

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2026-03-30 – Quando o ontem não chega - Fragmentos
nn(in)metamorphosis



27/03/2026

Apagão






Se dos versos apagar o verbo amar
e palavras como amor, saudade, instante
restam apenas sílabas nuas, despidas de chama
ecos de um dizer que já não se garante
 
Se rasurar o calor das palavras antigas
fica no papel apenas um sopro distante
como se a língua esquecesse o fogo
e falasse apenas por ser constante
 
A escrita é agora um apagão
um quarto fechado, sem luz nem levante
onde as frases tateiam o vazio
e o silêncio impera dominante
 
Resta além do frio de existir na treva
um fio de voz suspenso, hesitante
um corpo de tinta sem pulso nem febre
um gesto de escrever já sem destino

  

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 2026-03-27 – Apagão
nn(in)metamorphosis

 


25/03/2026

Viver o Amor, Sonhar a Vida

 


Se não nos permitirmos sonhar
como se vive o amor?

 

Se calhar aos bocadinhos
sem jeito e sem saber
com medo de dar demais
ou de ficar a perder
 

Amar não tem grande ciência
é sentir sem explicar
é rir sem ter razão
e às vezes até chorar
 

Sem sonho, fica mais frio
mais quieto, mais sozinho
como quem anda na vida
mas nunca sai do caminho
 

Por isso, sonhar é preciso
mesmo quando custa ver
porque só sonha quem ousa
verdadeiramente amar e viver

 

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2026-03-25 - Viver o Amor, Sonhar a Vida
nn(in)metamorphosis 


24/03/2026

O que ficou

 




A distância que criou proximidade
 de um lugar que já não piso
 mas que ainda me pisa por dentro
 
Vive em cada memória quieta
no calor que às vezes sinto
 mesmo quando tudo muda
 
Cheiros que não voltam
ruas que só existem em mim
vozes que ficaram suspensas
num tempo onde já não chego
 
E é nessa ausência
que tudo se aproxima mais
como se perder
fosse outra forma de guardar
 
Longe
mas nunca inteira fora
porque há coisas
que não sabem partir

 

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2026-03-24 – O que ficou - Mulembas
nn(in)metamorphosis




23/03/2026

Um espaço sem nome

 



Busca origem, mesmo tendo um lugar onde voltar
uma casa que a acolhe, mas não lhe dá
um nome para o vazio que não sabe de onde vem

Guarda descanso nos gestos pequenos
no silêncio entre duas palavras
como se ali houvesse algo que lhe escapa

Procura sentido sem saber o que procura
como quem caminha por dentro de si
à espera que alguma coisa responda

E no meio de tudo isto, fica
nem perdida, nem encontrada
a tentar escutar o que em si ainda não tem voz

A aprender a ser, onde está

 

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2026-03-23 – Um espaço sem nome 
nn(in)metamorphosis


20/03/2026

Apenas Somos

 

Já paraste para analisar
a improbabilidade
da nossa existência?

Somos pó que aprendeu a olhar o céu
silêncio que se fez palavra
um breve clarão entre dois infinitos
a que chamamos vida

E, no ntanto, aqui estamos
a tropeçar em dias comuns
a esquecer o milagre discreto
de cada batida do coração

Há universos no gesto simples
de tocar, rir, sentir saudade
Há uma eternidade escondida
no agora que quase deixamos passar

Talvez existir seja isto
um espanto que se repete
um improvável que floresce
mesmo quando não reparamos

E ainda assim
contra todas as probabilidades
somos

 

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2026-03-20 – Apenas Somos
nn(in)metamorphosis 


19/03/2026

Pai

 



Pai, contigo aprendi o que é ser grande
não é ter tudo, nem falar mais alto
é ser abrigo firme e constante
mesmo quando o mundo corre em sobressalto

É dar a mão sem pedir nada em troca
é ensinar pelo gesto e pelo olhar
é ser raiz que nunca se desloca
e força que me ensina a caminhar

Se hoje sigo mais certo o meu caminho
levo em mim o que me soubeste dar
um coração inteiro, puro e mansinho
mas cheio de coragem para amar


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2026-03-19 – Pai
nn(in)metamorphosis 


Entre o sono das palavras e a voz do silêncio

 

As palavras deitam-se no fundo da noite
encostam-se ao cansaço das bocas fechadas
e respiram devagar como quem esquece o mundo

Ficam quietas nos cantos da memória
embrulhadas em sonhos por dizer
à espera de um amanhecer que as acorde

No meio desse sono
cresce um silêncio vivo
um silêncio que se estende como luz sem forma

Fala sem voz
toca sem mãos
insiste sem pressa

Diz o que nunca coube nas sílabas
o que fugiu entre dentes e medos
o que só o sentir consegue guardar

porque há coisas que não querem som
e há verdades que só sabem existir assim
entre o descanso das palavras
e o murmúrio infinito dos silêncios

 

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2026-03-19 - entre o sono das palavras e a voz do silêncio 
nn(in)metamoephosis



18/03/2026

Simulacro


Vives nesse simulacro de vida que cabe inteirinho na exausta cautela de não saíres do mesmo lugar... e levas-me contigo.

 

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2026-03-18 – Simulacro 
nn/in)metamorprosis


17/03/2026

O Peso do Invisível

 

Quanto de mim ficou por terra, para que eu chegasse até aqui.

 

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2026-03-17 - O Peso do Invisível 
nn(in)metamorphosis



16/03/2026

Reflexões e Café quente

 




Parou de pensar, coisa rara diga-se, e foi tirar outro café.
Ainda que injusta, a vida continuava, teimosa como uma segunda-feira.
Olhou para a chávena como quem espera que o universo se explique sozinho. Não explicou. Mas o café estava bom. O mundo ficou igual e ela, pelo menos, ganhou mais cinco minutos de filosofia líquida.


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2026-03-16 – Fragmentos
nn(in)metamorphosis 



15/03/2026

A forma do ausente

 

Há um silêncio dentro de mim que parece ter a forma exata de algo que ainda não encontrei.

 

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2026-03-15 – A forma do ausente - Fragmentos
nn(in)metamorphosis



14/03/2026

Entre instantes

 


O tempo passa devagar nas coisas simples
na chávena morna esquecida na mesa
na luz da manhã que entra pela janela
como quem pede licença para ficar

Há dias que cabem num suspiro
outros que pesam como tardes de inverno
e no entanto a vida acontece
nos gestos pequenos que quase não vemos

perde se tanto pelo caminho
nomes rostos promessas ditas ao vento
mas fica sempre qualquer coisa
um riso guardado na memória
um perfume antigo numa rua qualquer

sonhar é isto talvez
acreditar que cada instante breve
é uma espécie de eternidade escondida

e assim seguimos
entre o que foi e o que ainda não chegou
aprendendo devagar
a alegria simples de estar vivo


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2026-03-14 - Entre Instantes - Fragmentos
nn(in)metamorphosis