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29/04/2026

Do lado de lá do silêncio

 




Ganhei coragem
e fui à procura dos vazios
do lado de lá do silêncio
 
não havia mistério
nem portas fechadas
apenas o ar
leve
sem o peso das vozes
sem o bulício do mundo
 
um espaço aberto
onde o pensamento repousa
 
com o mundo calado
o silêncio não resistiu
desfez-se em fundo
como mar depois da onda
 
não respondeu
nem mentiu
 
ficou
como luz sem ruído
como um lugar
onde, por instantes
eu cabia
 
e soube
 
não me falta vida
falta-me espaço dentro dela
 
falta-me não ser só passagem
entre o que sou
e o que esperam de mim
 

 ***

2026-04-29 - Do lado de lá do silêncio 
nn(in)metamorphosis


27/04/2026

O que não se pode tocar

 



Há coisas que se erguem na mente
paredes de ar
tectos de silêncio pousados no peito
 
constroem-se com gestos suspensos
com palavras que nunca chegam a ser ditas
com promessas que existem apenas na intenção
 
e tudo parece firme
como se o invisível tivesse peso
como se o intangível soubesse permanecer
 
mas basta um sopro de lucidez
um desvio no olhar
um instante de verdade a atravessar o corpo
 
e aquilo que nunca teve matéria
cede
 
não faz ruído ao cair
não deixa ruínas
 
apenas um vazio mais nítido
onde antes havia a ilusão de forma

  

***

2026-04-27 – O que não se pode tocar – Llunar
nn(in)metamorphosis

24/04/2026

Palavras não ditas

 
Gosto de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e, ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade tolhe-as e faz com que definhem lentamente.
 
Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.
 
Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.
 
Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.
 
Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.


***
2026-04-24 – Palavras não ditas
nn(in)metamorphosis 


22/04/2026

Entre o Fomos e o Somos

 


Volta! gritou a saudade
pelos campos leves da mocidade
onde o tempo corria sem peso
 
Lembra! disse a memória
trazendo tardes sem fim
e risos soltos ao vento
 
Esquece! aconselhou a razão
já com passos mais lentos
e olhos cansados de distância
 
Mas a mocidade não ouve
nem volta quando chamada
nem se deixa prender em lembrança
 
fica apenas como um sopro
entre o que fomos e o que somos
um clarão breve que insiste em arder
 

***
2026-04-22 - Entre o Fomos e o Somos 
nn(in)metamorphosis



17/04/2026

Metamorphose das Estações

 



Aguardo, paciente, o tempo certo
como a terra fria espera a semente
em silêncio guardo o sonho desperto
num coração que abriga o ausente
 
No Outono recolho-me em mim
folha caída, pensamento lento
e no Inverno sou quase jardim
adormecido no frio do tempo
 
Hiberno na sombra dos dias curtos
onde a luz é memória distante
e os sonhos, embora ocultos
respiram num ritmo constante
 
Mas quando o calor regressa enfim
e o sol me chama pelo nome
rasgo o casulo que fiz de mim
e renasço do que em mim se consome
 
Abro asas, leve, inteira
num voo que já não teme o ar
sou borboleta de Primavera
pronta, de novo, para sonhar
 
 
***
2026-04-17 – Metamorphose das Estações 
nn(in)metamorphosis



15/04/2026

Ainda há terra boa

 


Vamos conversar
e deixar raízes profundas
mesmo quando o mundo se perde
mesmo quando se mata por ganância
 
mesmo assim
ainda há terra boa entre nós
ainda há espaço para cuidar
 
olha as árvores
não lutam pelo céu
e mesmo assim crescem
 
Há qualquer coisa em nós
que não quer desistir
que ainda sabe ser luz
 
podemos ficar
escolher diferente
ser mais simples
 
talvez seja isso que importa
 
a vontade quieta
de ficar
de cuidar
de não ferir
 
e se ficarmos
se cuidarmos
mesmo quando tudo parece perdido
 
então
ainda há esperança
ainda há raízes profundas

 

***

2026-04-15 – Ainda há terra boa 
nn(in)metamorphosis



13/04/2026

Viver entre o que explode e o que permanece




O corpo não aprende a ficar
é feito de nuvens quentes
de trovões que não avisam
de chuvas que chegam sem licença
 
Há dias em que transborda
em que tudo nele é excesso
vento, febre, impulso
um verão que não sabe ser brisa
 
Mas a cabeça…
 
a cabeça é outra estação
clara como um céu que nunca cede
reta, metódica
conta os passos da tempestade
como quem observa por uma janela fechada
 
Ela entende tudo
nomeia, organiza, explica
enquanto o corpo desmancha
em água e relâmpago
 
E debate-se entre os dois
metade caos que sente
metade lucidez que assiste
 
Talvez viver seja isso
 
Não escolher um lado
mas respirar
no intervalo
entre o que explode
e o que permanece

 

 ***

2026-04-13 - Viver entre o que explode e o que permanece 
nn(in)metamorphosis


10/04/2026

Em viés

 



Hoje acordei
com curiosidade nos olhos
e travessura no coração
 
Hoje
Não confiem em mim

posso seguir um riso
acreditar no acaso
abrir portas
que estavam quietas

 Há dias assim
desobedientes

 Hoje
sou um perigo leve
na ordem das coisas
um desvio pequeno
no rumo do mundo

 

***

2026-04-10 – Em viés - Fragmentos
nn(in)metamorphosis 


08/04/2026

O que trago nos passos

 


Onde anda esse espelho
que tanto te transporta
para os meus sonhos?

Procuro-o no pó vermelho
que ainda trago nos passos
no calor antigo do vento
que me chama pelo nome

Talvez esteja perdido
entre ruas que já não piso
ou guardado no abraço largo
de uma terra que não esqueço

Há noites em que te encontro
no cheiro da chuva quente
no silêncio cheio de vida
que só eu sei traduzir

E então percebo

o espelho não se partiu
nem ficou para trás

Trago-o comigo

É nele que te revejo
terra distante e inteira
quando a saudade me deita
dentro dos teus braços

 

***

2026-94-08 – O que trago nos passos - Mulembas
nn(in) metamorphosis 



06/04/2026

Depois de nós

Imagem gerada por IA


Fomos construídos
com tempo
e pelo tempo
 
como paredes lentas
erguidas em silêncio
 
Vê-me
A mim
pelos teus olhos
como quem reaprende
o contorno de uma casa
que já habitou
 
e procura-me
se eu falhar no presente
no cerne da tua memória
onde ainda respiro
sem que o saibas
 
porque há coisas
que o tempo não leva
 
e nomes
que ficam
mesmo depois de nós

 

***

2026-04-05 – Depois de nós 
nn(in)metamorphosis


03/04/2026

No subsolo da palavra

 



Arde em silêncio, oculto e persistente
como brasa que a noite não consome

nasce do que não se diz
do que pesa mais do que o próprio som

 É chama contida na raiz da voz
eco profundo de um sentir antigo
que sobe lento, quase secreto
até tocar a superfície do dizer

e quando enfim se revela
não vem como luz, mas como rasto
um sopro quente que fere e apaga
deixando apenas cinza e memória

 Talvez seja dor ou desejo
ou o nome esquecido de algo perdido

mas arde, arde sempre
no subsolo de cada palavra

 

***

2026-04-03 – No subsolo da palavra
nn(in)metamorphosis 



02/04/2026

Que o céu me ofereça a madrugada




Na quietude de um instante
há um eco silencioso
onde o pensamento faz casa
e a presença se demora

onde as sombras tocam a pele
e a palavra está ausente
como se tudo se guardasse
num suspiro sem som

O ar hesita entre luz e sombra
a penumbra toca a alma
e sem medo
deixo-me ser

Que o céu me ofereça a madrugada
a certeza de um novo dia
e a inquietude de existir


***
2026-04-02 - Que o céu me ofereça a madrugada
nn(in)metamorphosis 


01/04/2026

Memória, essa ferramenta extraordinária

 

Imagem gerada por IA


A memória, essa ferramenta extraordinária, acompanha-nos de forma silenciosa, mas decisiva, ao longo da vida. É nela que se inscrevem as experiências, os afectos e os acontecimentos que, pouco a pouco, vão dando forma àquilo que somos. Sem memória, faltar-nos-ia essa continuidade que liga o passado ao presente e que sustenta a nossa identidade.

Ainda assim, a memória está longe de ser um registo rigoroso. Mais do que guardar, ela reconstrói. As lembranças são frequentemente moldadas pelo tempo, pelas emoções e pelas circunstâncias em que são evocadas. Recordar não é apenas recuperar o que foi vivido, mas também reinterpretá-lo à luz do que somos hoje.

 Apesar dessa imperfeição, a memória mantém um papel essencial. É através dela que aprendemos, que reconhecemos padrões, que estabelecemos relações e que atribuímos significado ao que vivemos. Sem ela, a experiência perderia profundidade e tornar-se-ia fragmentada.

 Talvez seja precisamente nessa dualidade (entre fidelidade e reconstrução) que reside o seu carácter extraordinário. A memória não é apenas um arquivo do passado; é uma força ativa que participa, de forma contínua, na construção de quem somos.

  

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2026-04-01 – Memória, essa ferramenta extraordinária 
nn(in)metamorphosis