Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998.
2012-12-29 – Ano Novo
nn(in)metamorphosis
Olha… não me olhes desse modo
como se me soubesses de cor
não tentes ler
o que escondo
és oxigénio em descontrolo
eu faísca no fundo
há em ti coisa
de quimera
como se viesses de outra estação
e isso
encosta-se à espera
e mexe-me com a razão
não me olhes
assim… se te olho
fica tudo por acontecer
entre o que
recua e o arrojo
sem saber como dizer
num silêncio
que não tem nome
nem diz aquilo que consome
fica o resto por nascer
Pela
tarde, um solinho envergonhado iluminou a minha varanda. Sentei-me no chão,
esquecendo que era Outono, mas lembrando que não havia vento. Recostei-me na
parede, cerrei o olhar e não sei se adormeci, ou se sonhei acordada.
Nessa semi-inconsciência, dei conta da importância dos afectos, não como excesso, mas como coisa simples que nos sustenta sem fazer barulho. Alguém que nos dê um abraço apertado, alguém que nos segure a mão e nos deixe ficar, alguém que nos diga silêncios doces ao ouvido, alguém que nos lembre que o mundo pode ser mais leve por instantes.
Alguém que nos salve, nem que seja por momentos, da melancolia, das velhas canções, da nostalgia. Alguém que guarde o que não dizemos, e que nos devolva um sorriso sem pedir nada em troca.
Estremeci. O vento tinha levantado e acordei desse lugar em que não sei se dormia, ou se sonhava acordada.