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30/09/2026

Minudências da vida

 
A vida vai acontecendo assim, quase sem darmos por isso.
 
Num café que deixamos arrefecer porque nos distraímos. Numa chave que nunca aparece quando precisamos dela. Numa peça de roupa que ficou esquecida na máquina. Numa mensagem que chega na hora certa. Numa música antiga que, de repente, nos leva para outro tempo.
 
São coisas pequenas. Quase nada, diríamos.
 
Mas talvez seja precisamente disso que a vida seja feita: de pequenas coisas que se vão juntando umas às outras, sem fazer grande barulho.
 
O sítio onde deixámos os óculos. A conversa que começou por acaso e durou mais meia hora. O vizinho que diz bom dia, mesmo quando chove. A luz acesa numa divisão vazia. O gato que escolhe precisamente o nosso colo quando estamos com pressa. O silêncio entre duas pessoas que já não precisam de encher todos os espaços com palavras.
 
Passamos tanto tempo à espera das grandes coisas que, às vezes, nem damos conta de que a vida está a acontecer nas pequenas.
 
Está no cheiro da terra depois da chuva. Na primeira dentada de uma comida de que tínhamos saudades. Numa gargalhada que nos apanha desprevenidos. Na surpresa de encontrar uma moeda no bolso de um casaco velho. Naquele momento em que chegamos a casa, fechamos a porta e percebemos que, por hoje, já não temos de ir a lado nenhum.
 
Talvez crescer seja também aprender a gostar destas pequenas coisas.
 
As grandes ocasiões são poucas e fazem barulho. As pequenas, pelo contrário, passam quase sempre em silêncio. Mas são elas que se repetem. E é dessas coisas simples, umas boas, outras aborrecidas, outras apenas normais, que fazemos os nossos dias.
 
No fundo, talvez a vida não seja tanto aquilo que nos acontece de extraordinário, mas aquilo que fazemos com o que é comum.
 
Um café. Uma janela. Uma conversa. Um passeio sem destino. Uma pessoa de quem gostamos. Uma tarde que não tinha nada de especial.
 
E, mesmo assim, era nossa.

 
***
2026-09-30 – Minudências da vida
noname-metamorphosis 

22/09/2026

O equinócio ainda tem lugar?

 
Ainda há calor nas pedras
e luz presa aos beirais
mas já se ouvem folhas secas
a correr pelos quintais
 
A manhã vem sem casaco
o sol sobe devagar
uma andorinha corta o céu
antes do céu se fechar
 
Noutros anos, por Setembro
já a chuva vinha ao chão
e a terra, depois da chuva
abria o seu coração
 
Agora o sol fica mais tempo
nas paredes, nos telhados
e há dias ainda tão quentes
que parecem mal acabados
 
Hoje a noite toca o dia
numa breve igualdade
luz e sombra, lado a lado
partilham a claridade
 
Depois a tarde perde altura
e a luz começa a fugir
uma folha solta-se do ramo
sem pressa de cair
 
A noite vai ganhando espaço
o dia vai mais devagar
e o verão, ainda morno,
fica um pouco no ar


***
2026-09-22 - O equinócio ainda tem lugar?
noname-metamorphosis


18/09/2026

E se o problema não for a inteligência artificial?

 
Não sou entendida em tecnologia. Não sei explicar como funcionam os algoritmos, não sei até onde poderá chegar a inteligência artificial e muito menos tenho conhecimentos que me permitam prever o que acontecerá daqui a dez ou vinte anos.
 
Mas tenho olhos. Tenho memória. E tenho uma coisa que, às vezes, me parece que estamos a perder: a capacidade de sentir quando alguma coisa não está certa.
 
Há dias li uma notícia sobre inteligência artificial que me deixou inquieta. Falava de pessoas ligadas a grandes empresas tecnológicas que começaram a alertar para os perigos do caminho que estamos a seguir. Pessoas que conhecem esta tecnologia por dentro e que parecem ter medo daquilo que estão a ajudar a criar.
 
Não sei quanto há de verdade, quanto há de exagero e quanto há de interesses pelo meio. Sei apenas que a ideia ficou comigo.
 
E comecei a pensar.
 
Talvez o que mais me assuste na IA não seja a possibilidade de um dia as máquinas se tornarem mais inteligentes do que nós.
 
Talvez seja aquilo que nós, seres humanos, faremos com elas.
 
Porque as máquinas não inventaram a ganância. Não inventaram a sede de poder. Não inventaram a obsessão pelo lucro.
 
Fomos nós.
 
E há seres humanos que olham para quase tudo através de uma folha de Excel.
 
- Quantas pessoas podem ser substituídas?
- Quanto se pode poupar?
- Quanto se pode produzir?
- Quanto vale este mercado?
- Quantos dados temos?
- Quantos utilizadores?
 
Quantos milhões?
 
E, no meio de tantos números, às vezes desaparece aquilo que o número representa.
 
Uma pessoa.
 
- Uma pessoa que tem medo de perder o emprego.
- Uma pessoa que trabalha quarenta anos e, de repente, passa a ser considerada "dispensável".
- Uma pessoa que não consegue acompanhar a velocidade da tecnologia.
- Uma pessoa que não percebe porque é que uma máquina decidiu que ela não serve para determinado trabalho, para determinado empréstimo, para determinada oportunidade.
 
Uma pessoa que, simplesmente, passa a ser mais um dado.
 
E aqui há uma ironia que não consigo deixar de pensar.
 
Dizem-nos que a inteligência artificial poderá um dia tornar os seres humanos desnecessários.
 
Mas será que não estamos nós próprios a preparar esse caminho?
 
Há muito tempo que, em tantos aspectos da nossa vida, deixámos de ser pessoas para passar a ser números.
 
- Somos o número do contribuinte
- O número de cliente
 - O número da conta
 -O número do processo
- O número da apólice
- O número das estatísticas
 
O número que aparece numa tabela e determina se somos rentáveis ou não.
 
Eu própria já hoje não passo, muitas vezes, de um número.
 
Por isso, quando ouço falar de uma inteligência artificial que poderá tomar decisões cada vez mais importantes, não consigo deixar de pensar: quem estará por detrás dela?
 
- Quem define aquilo que ela deve fazer?
 - Quem decide os limites?
 - Quem será responsável quando errar?
 
E, sobretudo, quem vai decidir o que vale mais: o lucro ou a pessoa?
 
Não quero parecer alarmista.
 
Também não quero entrar naquela conversa de que "as máquinas vão dominar o mundo", como se estivéssemos dentro de um filme.
 
Não sei se a IA vai acabar com a humanidade daqui a dez anos. Provavelmente ninguém sabe.
 
Mas sei que uma tecnologia capaz de fazer cada vez mais coisas nas mãos de seres humanos irresponsáveis pode ser perigosa.
 
E sei também que uma tecnologia extraordinariamente poderosa nas mãos de pessoas extraordinariamente responsáveis pode ser uma coisa maravilhosa.
 
A inteligência artificial pode ajudar a descobrir doenças, ensinar, investigar, facilitar a vida de pessoas com limitações e resolver problemas que hoje parecem impossíveis.
 
Não sou contra a tecnologia.
 
Sou contra a ideia de que, porque uma coisa pode ser feita, tem necessariamente de ser feita.
 
E talvez seja esta a pergunta que devêssemos fazer mais vezes.
 
Não "até onde conseguimos levar a inteligência artificial?"
 
Mas:
 
"Até onde devemos levá-la?"
 
Porque há uma diferença enorme entre poder fazer alguma coisa e dever fazê-la.
 
E talvez precisemos de discutir isto enquanto ainda estamos a tempo.
 
- Não apenas os especialistas.
- Não apenas os donos das grandes empresas tecnológicas.
- Não apenas os governos.
 
Nós.
 
- As pessoas comuns.
- As que vão trabalhar amanhã.
- As que têm filhos.
- As que têm pais idosos.
- As que têm medo de perder o emprego.
- As que já sentem que o mundo corre demasiado depressa.
 
As que, como eu, não sabem explicar tecnicamente o que é uma inteligência artificial, mas sabem reconhecer o valor de uma vida humana.
 
Talvez eu não tenha conhecimentos suficientes para dizer até onde a inteligência artificial pode chegar.
 
Mas tenho conhecimento suficiente para saber onde não gostaria que chegássemos nós.
 
- Um mundo onde uma pessoa valha apenas aquilo que produz.
- Um mundo onde uma pessoa seja apenas um número.
 
Porque, se chegarmos aí, talvez o problema não seja a inteligência das máquinas.
 
Talvez seja termos esquecido o que significa ser humano.

 

 ***

2026-09-18 - E se o problema não for a inteligência artificial?
noname-metamorphosis 

29/07/2026

Antes que seja saudade

 
Para quê tanta pressa
se o tempo não foge de ninguém
 
Corremos atrás dos dias
como se a felicidade estivesse sempre mais à frente
e sem dar por isso
deixamos para trás os momentos
que um dia vamos querer voltar a viver
 
O futuro chega sempre
é certo, é inevitável
e quando finalmente o alcançamos
descobrimos que o que mais nos falta
não é o amanhã
é o ontem.
 
A voz de quem já partiu
o riso que enchia a casa
os abraços dados sem pensar
as pequenas coisas
que pareciam tão normais
e afinal eram tudo
 
Por isso, caminha
sonha. cresce
mas não tenhas tanta pressa
 
Porque, muitas vezes
no futuro
o que vais encontrar
é a saudade do passado

 

***

2026-07-29 – Antes que seja saudade
nn(in)metamorphosis 

27/07/2026

Social, mas pouco sociável

 
Vivo bem com a solitude. Gosto da minha própria companhia e não tenho medo de estar sozinha. Tenho pessoas à minha volta e nunca me faltou afecto. Ainda assim, muitas vezes sinto que estou num lugar diferente da maioria das pessoas.
 
Sou uma alma esquisita: social e pouco, ou mesmo muito pouco, sociável. Claro que gosto de pessoas, de conversar, de partilhar momentos e de estar com quem me diz alguma coisa. O que me deixa piursa são as formalidades, as conversas de circunstância e os encontros em que parece que toda a gente está a cumprir um papel.
Essas situações cansam-me. Muitas vezes vou só para evitar as dezenas de telefonemas e mensagens a perguntarem se estou bem, porque estou renitente em ir, que posso falar à vontade, que estão lá para mim. Uma canseira.
 
Acabo por ir, voluntária à força. Pouco depois de chegar, após os beijos e abraços, dos "estás gorda", "estás magra", "que é feito de ti?", desligo.

E o tempo vai passando, com as mesmas conversas do último encontro, que acabam por seguir caminhos que não me interessam. Não raras vezes, alguém sai e, sem grande esforço, a conversa muda de rumo e passa a ser sobre essa pessoa. Quase nunca para a elogiar.
Nesses momentos percebo que sou social, mas não muito sociável. Gosto de pessoas, mas gosto delas de forma genuína. Prefiro uma conversa sincera a horas de conversa vazia. Prefiro a autenticidade às aparências. Não tenho jeito para fingimentos nem paciência para jogos sociais. Talvez por isso me sinta tantas vezes deslocada em ambientes onde toda a gente parece saber exactamente o que dizer e como agir.
 
Talvez seja por isso que aprecie tanto a solitude. Não a vejo como isolamento nem como tristeza. Vejo-a como um lugar de conforto, onde não preciso de fingir, concordar por educação ou encaixar em expectativas que não são minhas. Gosto de estar com pessoas, mas também gosto de regressar a mim.
 
E a verdade é que não me sinto sozinha quando estou sozinha. Sinto-me tranquila. Porque, no fim de contas, a minha companhia chega-me mais vezes do que muita gente imagina.
 
A minha mãe sempre disse que: Família e amigos são óptimos de visita, e nessas alturas é uma alegria recebê-los, mas devem viver a pelo menos cinco ruas abaixo ou cinco ruas acima.

  

***

2026-07-27 – Social, mas pouco sociável 
nn(in)metamorphosis


15/07/2026

Génese


Tudo é sobre o Agora, inclusivé o Depois…

Porque o Depois
não nasce longe
nem vem d’outro lugar
 
O Depois medra aqui

neste instante discreto
entre uma escolha e outra
entre uma palavra dita
e uma palavra guardada
 
Chamamos-lhe futuro
como se fosse um mundo distante
mas ele já está a acontecer
nas mãos com que tocamos o presente
 
O que seremos amanhã
começa no modo como olhamos hoje

o que perdemos
o que salvamos
o que construímos

Tudo passa por esse breve segundo
que tantas vezes deixamos escapar
 
O Agora não faz promessas
pede apenas presença
 
E talvez seja por isso
que o Depois lhe pertence
 
Porque quando chegar
já não será Depois
 
Será Agora
 

***

2026-07-15 – Génese 
nn(in)metamorphosis


08/07/2026

A Beleza da Decepção

 
Só quando a ilusão cai
os olhos aprendem a ver
 
Há afectos que aquecem
e há afectos que prendem
amizades que ficam
outras que se perdem
laços de família
que nos amparam
e outros que apenas pesam
 
Guardamos pessoas
palavras
promessas
lembranças
 
Tememos o vazio
sem perceber
que é esse medo
que nos impede de seguir
 
A decepção dói
mas limpa o coração
leva o que nunca foi nosso
e deixa espaço
para o que merece ficar
 
Então caminhamos mais leves
sem pedir que ninguém mude
sem prender quem quer partir
sem correr atrás do que acabou
 
Porque a verdadeira liberdade
começa quando deixamos de segurar
o que já não nos segura
 
 
 
Frase base:
Como é bela a decepção que nos liberta dos apegos - Alejandro Jodorowsky

 
***
2026-07-08 - A Beleza da Decepção
nn(in)metamorphosis 


06/07/2026

A Vida ensina devagar

 

A vida é curta, vive. O amor é raro, aproveita. O medo é terrível, enfrenta. As lembranças são doces, aprecia.
 
 
A vida é curta
e ensina devagar
 
O amor é raro
e nunca bate duas vezes da mesma maneira
 
O medo é terrível
até ao dia em que deixa de mandar
 
As lembranças são doces
mesmo quando nasceram salgadas
 
E a sabedoria
essa não chega com os anos
 
Chega no dia em que damos por nós
a repetir as palavras da nossa mãe
 
E em vez de revirarmos os olhos
sorrimos
 
Porque afinal
ela tinha razão

 

 

***

2026-07-06 - A Vida ensina devagar
nn(in)metamorphosis 


03/07/2026

Casa lugada

 

A vida é casa alugada
 
entramos devagar
como quem recebe uma chave
sem conhecer o tempo do contrato
 
abrimos janelas
arrumamos afectos nas prateleiras
penduramos memórias nas paredes
 
chamamos nossa
à mesa onde partilhamos o pão
ao quarto onde guardamos os sonhos
ao silêncio que aprende o nosso nome
 
mas a casa sabe mais do que nós
 
sabe que nenhuma porta fica para sempre aberta
que nenhuma luz permanece acesa eternamente
que nenhuma presença escapa ao calendário invisível
 
e ainda assim
 
plantamos flores no quintal dos dias
consertamos telhas depois das tempestades
rimos nos corredores
choramos junto às paredes
 
como bons inquilinos
 
porque viver talvez seja isso
 
cuidar com ternura do que não nos pertence
amar profundamente o que não podemos possuir
e agradecer a cada amanhecer
 
por mais uma noite passada
 
nesta casa alugada que é a vida

 

 

***

2026-07-03 – Casa alugada
nn(in)metamorphosis 


26/06/2026

Entre o Princípio e o Fim


Todos vamos morrer, então que todos possamos viver 


Todos vamos morrer
isso é certo e verdadeiro
mas antes há muitos dias
e caminhos por inteiro
 
Se o fim chega para todos
que a vida tenha valor
que haja risos, abraços
amizade e amor
 
Que cada manhã nos traga
vontade de continuar
de aprender com os erros
e nunca deixar de sonhar
 
Que os olhos vejam beleza
num gesto ou num olhar
porque o tempo passa depressa
e não se pode guardar
 
Todos vamos morrer
mas hoje estamos aqui
então que todos possamos viver
antes do tempo partir

  

***
2026-06-26 - Entre o Princípio e o Fim
nn(in)metamorphosis


22/06/2026

Somos uma única vez na vida

 


Somos manhã que passa ligeira

vento leve numa janela aberta

um riso perdido na rua

um abraço que fica na memória

 

Somos passos curtos no mundo

dias cheios de pressa e silêncio

corações a aprender devagar

o peso e a beleza de existir

 

Nada volta exactamente igual

nem a chuva

nem o verão

nem os olhos de quem amamos

 

Por isso vive

com verdade no peito

com calma nas mãos

e luz nas palavras

 

Porque somos uma única vez na vida

e cada instante

mesmo pequeno

é infinito enquanto acontece

 

 

Frase base da web - Somos uma única vez na vida

 

***
2026-06-22 - Somos uma única vez na vida
nn(in)metamoephosis


19/06/2026

O Poder do Silêncio sobre as Palavras


Há verdades que não precisam de muitas explicações, pois fazem parte da experiência pessoal de cada um de nós que já se arrependeu de ter falado demais.

O silêncio, muitas vezes conectado com aceitação, cobardia, falta de voz, mas ele é bem mais do que isso, é presença de prudência, reflexão e consciência. Nele, guardamos o que nosso coração ainda não sabe expressar sem se comprometer, é protecção da nossa personalidade contra a precipitação que muitas vezes nos leva ao arrependimento.

Quando somos donos do nosso próprio silêncio, exercemos controle sobre nós mesmos, e temos a liberdade de escolher o momento certo para cada palavra.

Por outro lado, quando nos tornamos escravos das palavras, deixamos que a impulsividade nos domine, permitindo que o momento governe a razão, sem considerar as consequências que podem surgir.

Quantos problemas surgem de uma frase dita sem reflexão, de um desabafo que não passou por análise cuidadosa?

Portanto, o silêncio revela-se não como uma fraqueza, mas como uma forma de sabedoria. É nele que amadurecemos os nossos pensamentos, clarificamos as nossas intenções e fortalecemos a nossa dignidade pessoal.



***
2026-06-19 - O Poder do Silêncio sobre as Palavras
nn(in)metamorphosis 


17/06/2026

Quando a Humanidade Deixa de Sentir

Vivemos num tempo marcado pela pressa, pelo já, pela exposição constante e pela necessidade quase compulsiva de opinar sobre tudo. Todavia, enquanto a tecnologia avança e torna as pessoas cada vez mais interligadas, algo essencial parece enfraquecer silenciosamente, a capacidade de sentir a dor do outro como algo que também nos pertence.

 A empatia, que sempre sustentou os laços humanos, começa a ser substituída pela indiferença, pelo julgamento imediato e pela banalização do sofrimento.

Quando uma sociedade perde a sensibilidade perante a fome, a violência, a desigualdade ou a solidão alheia, inicia-se um perigoso processo de desumanização.

A barbárie não surge apenas em guerras ou regimes violentos. Nasce, demasiadas vezes, nos pequenos gestos de desprezo, no silêncio perante a injustiça e na incapacidade de reconhecer humanidade a quem pensa, vive ou sofre de forma diferente.

Uma cultura sem empatia transforma pessoas em números, dores em estatísticas e vidas em objectos descartáveis.

A ausência de empatia mina as relações humanas. As pessoas passam a escutar menos, a compreender menos e a atacar mais. O diálogo desaparece, dando lugar à intolerância. Em vez de pontes, erguemos muros emocionais e sociais. Pouco a pouco, uma frieza colectiva torna normal o egoísmo, fragiliza valores basilares como a solidariedade, a compaixão e o respeito.


Talvez o verdadeiro progresso não esteja só nas conquistas materiais ou tecnológicas, mas na capacidade de permanecermos humanos no meio do caos. Uma civilização não se deveria medir apenas pelo que constrói, mas sobretudo pela forma como trata aqueles que mais necessitam de cuidado, escuta e dignidade.


***
 2026-06-17 - Quando a Humanidade Deixa de Sentir 
nn(in)metamorposis

29/05/2026

O mal avança no silêncio dos bons

 




O que sei dos homens
é o peso que deixam no ar
é o grito dos passos duros
e das mãos que aprendem cedo
a fechar-se
 
Dizem-me
que há bons
 
Como quem fala de ilhas
nunca descobertas
como quem aponta estrelas
num céu que não cessa de arder
 
Se os há
onde respiram?
 
Em que ruas andam
que não levantam o pó da dor?
 
Que palavras usam
que não se fazem ouvir?
 
Procuro-os no silêncio
nos gestos pequenos
da fraternidade
num “já chega”
num olhar que não fere
 
Mas o mundo…
qual mundo?
 
Uns quantos
que insistem em gritar
em quebrar
em dominar
 
e outros
que tentam
e são calados
 
e outros
que veem
e recuam
 
e outros ainda
que se habituam
 
porque o peso é maior
porque o dinheiro fala
porque o medo fica
 
E assim
os que fazem a guerra
seguem
 
sem tropeço
 
não porque sejam mais
mas porque o resto
adormece

 
***

2026-05-29 - O mal avança no silêncio dos bons 
nn(in)metamorphosis


22/05/2026

À Espera de Não Esperar

 



Há sempre qualquer coisa à nossa espera
mesmo quando juramos estar em paz total
 
Porque o cérebro, esse funcionário curioso
nunca assinou contrato para ficar ocioso
 
Se não esperas o metro
esperas a inspiração
 
se não esperas o fim
esperas a explicação
 
se não esperas nada
esperas perceber
quando se consegue não esperar nada a valer
 
E assim segues
 
esperas o café arrefecer
o café aquecer
o café decidir o que quer ser
 
e no meio disso tudo
quase sem dar por isso
 
ficas à espera
de não estar à espera
 
(que é, talvez,
a espera mais demorada de todas)
 
***
2026-05-22 - À Espera de Não Esperar
nn(in)metamorphosis 


09/05/2026

Estações em discussão


Alguém me diz quando o calor chega de vez.
Quando é que deixamos finalmente de sair de casa com um casaco “só para o caso de”. Quando é que as manhãs deixam de enganar e as noites começam a pedir ruas cheias, pele descoberta e janelas abertas até tarde.
 
Quando é que os casacos voltam ao roupeiro para descansar, como soldados cansados depois de uma longa batalha contra o vento e a chuva. Encostados, silenciosos, como quem ainda não acredita que a guerra acabou.
 
Porque hoje o céu chorou como se lhe tivesse morrido a família toda de uma vez.
As nuvens vestiram-se de cinzento fechado, quase luto, e a temperatura desceu como se o calendário estivesse a brincar connosco.
 
A primavera aparece e desaparece, sem estabilidade. Toca ao verão, mas ainda não entra.
 
Os vestidos de algodão continuam à espera. As sandálias também. E até nós vamos ficando atentos a qualquer brecha de luz, a qualquer promessa de calor que ainda não se cumpre.
 
Não nos bastava o mundo ao estalo, faltava-nos também estações em discussão.
 
Só espero que um dia, sem aviso, o verão ganhe.

 

 
***
2026-06-09 - Estações em discussão 
nn(in)metamorphosis

08/05/2026

Pessoas vêm e vão

 




Umas chegam enquanto outras partem
algumas ficam mais tempo, outras quase nada
algumas reaparecem depois de sumirem
e nós próprios estamos sempre a alternar entre ser quem chega e quem vai na vida dos outros
  
Pessoas vão e vêm
umas por algum tempo
outras por muito
outras quase um sopro
 
Chegam sem anúncio
partem sem aviso
mas deixam sempre algo
no que somos
 
E nós, distraídos
fazemos o mesmo
somos passagem breve
na vida de alguém
 
Ficamos no detalhe
no gesto que perdura
no que muda sem nome
 
Porque no fim
em vão

ninguém passa
ninguém vem

 
***
2026-05-08 – Pessoas vêm e vão 
nn(in)metamorphosis


01/05/2026

Alegria comum não grita... sussurra

 

Pouco se escreve sobre a alegria quer pelo escrevinhador comum, quer pelos autores de nome gravado a ouro.
 
Procurei e encontrei uns pouquinhos como:
 
Alberto Caeiro: aceitação tranquila da vida como ela é.
Sophia de Mello Breyner Andresen: luz, mar, ordem simples do mundo.
 
e uns completamente desconhecidos para mim
 
Walt Whitman: entusiasmo vital, corpo, natureza
Mary Oliver: beleza nas pequenas coisas
  
“A alegria simples é, paradoxalmente, uma das coisas mais difíceis de escrever bem.”
 
Conclusão:
Eu não me importo nada de não escrever bem, porque dou muito mais valor ao que me faz sentir bem.
 
Alegria comum não grita… sussurra
 
e é por isso que poucos a ouvem
passa leve
como o vapor do café numa manhã qualquer
como o som de roupa estendida ao vento
 
chega sem fanfarra
não pede atenção
não bate à porta
 
encosta-se
devagarinho
no instante
 
é um corpo cansado
que ainda assim se estende ao sol
é o pão partido sem pressa
entre mãos que já sabem o caminho
 
ninguém escreve grandes epopeias sobre isto
ninguém ergue estátuas ao dia banal
e no entanto
é aqui que a vida persiste
 
não no auge
não no grito
mas nesta espécie de respiração tranquila
 
quase nada
quase tudo
 
a alegria comum não grita… sussurra
e só fica
com quem aprende
a baixar o ruído do mundo
o suficiente
para a deixar entrar

 

***
2026-05-01 - Alegria comum não grita… sussurra 
nn(in)metamorphosis


24/04/2026

Palavras não ditas

 

Gosto de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e, ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade tolhe-as e faz com que definhem lentamente.

 Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.

 Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.

 Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.

 Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.



***
2026-04-24 – Palavras não ditas
nn(in)metamorphosis 

01/04/2026

Memória, essa ferramenta extraordinária

 

Imagem gerada por IA


A memória, essa ferramenta extraordinária, acompanha-nos de forma silenciosa, mas decisiva, ao longo da vida. É nela que se inscrevem as experiências, os afectos e os acontecimentos que, pouco a pouco, vão dando forma àquilo que somos. Sem memória, faltar-nos-ia essa continuidade que liga o passado ao presente e que sustenta a nossa identidade.
 
Ainda assim, a memória está longe de ser um registo rigoroso. Mais do que guardar, ela reconstrói. As lembranças são frequentemente moldadas pelo tempo, pelas emoções e pelas circunstâncias em que são evocadas. Recordar não é apenas recuperar o que foi vivido, mas também reinterpretá-lo à luz do que somos hoje.
 
Apesar dessa imperfeição, a memória mantém um papel essencial. É através dela que aprendemos, que reconhecemos padrões, que estabelecemos relações e que atribuímos significado ao que vivemos. Sem ela, a experiência perderia profundidade e tornar-se-ia fragmentada.
 
Talvez seja precisamente nessa dualidade (entre fidelidade e reconstrução) que reside o seu carácter extraordinário. A memória não é apenas um arquivo do passado; é uma força ativa que participa, de forma contínua, na construção de quem somos.

  

***

2026-04-01 – Memória, essa ferramenta extraordinária 
nn(in)metamorphosis