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03/07/2026

Casa lugada

 

A vida é casa alugada
 
entramos devagar
como quem recebe uma chave
sem conhecer o tempo do contrato
 
abrimos janelas
arrumamos afectos nas prateleiras
penduramos memórias nas paredes
 
chamamos nossa
à mesa onde partilhamos o pão
ao quarto onde guardamos os sonhos
ao silêncio que aprende o nosso nome
 
mas a casa sabe mais do que nós
 
sabe que nenhuma porta fica para sempre aberta
que nenhuma luz permanece acesa eternamente
que nenhuma presença escapa ao calendário invisível
 
e ainda assim
 
plantamos flores no quintal dos dias
consertamos telhas depois das tempestades
rimos nos corredores
choramos junto às paredes
 
como bons inquilinos
 
porque viver talvez seja isso
 
cuidar com ternura do que não nos pertence
amar profundamente o que não podemos possuir
e agradecer a cada amanhecer
 
por mais uma noite passada
 
nesta casa alugada que é a vida

 

 

***

2026-07-03 – Casa alugada
nn(in)metamorphosis 


26/06/2026

Entre o Princípio e o Fim


Todos vamos morrer, então que todos possamos viver 


Todos vamos morrer
isso é certo e verdadeiro
mas antes há muitos dias
e caminhos por inteiro
 
Se o fim chega para todos
que a vida tenha valor
que haja risos, abraços
amizade e amor
 
Que cada manhã nos traga
vontade de continuar
de aprender com os erros
e nunca deixar de sonhar
 
Que os olhos vejam beleza
num gesto ou num olhar
porque o tempo passa depressa
e não se pode guardar
 
Todos vamos morrer
mas hoje estamos aqui
então que todos possamos viver
antes do tempo partir

  

***
2026-06-26 - Entre o Princípio e o Fim
nn(in)metamorphosis


22/06/2026

Somos uma única vez na vida

 


Somos manhã que passa ligeira

vento leve numa janela aberta

um riso perdido na rua

um abraço que fica na memória

 

Somos passos curtos no mundo

dias cheios de pressa e silêncio

corações a aprender devagar

o peso e a beleza de existir

 

Nada volta exactamente igual

nem a chuva

nem o verão

nem os olhos de quem amamos

 

Por isso vive

com verdade no peito

com calma nas mãos

e luz nas palavras

 

Porque somos uma única vez na vida

e cada instante

mesmo pequeno

é infinito enquanto acontece

 

 

Frase base da web - Somos uma única vez na vida

 

***
2026-06-22 - Somos uma única vez na vida
nn(in)metamoephosis


19/06/2026

O Poder do Silêncio sobre as Palavras


Há verdades que não precisam de muitas explicações, pois fazem parte da experiência pessoal de cada um de nós que já se arrependeu de ter falado demais.

O silêncio, muitas vezes conectado com aceitação, cobardia, falta de voz, mas ele é bem mais do que isso, é presença de prudência, reflexão e consciência. Nele, guardamos o que nosso coração ainda não sabe expressar sem se comprometer, é protecção da nossa personalidade contra a precipitação que muitas vezes nos leva ao arrependimento.

Quando somos donos do nosso próprio silêncio, exercemos controle sobre nós mesmos, e temos a liberdade de escolher o momento certo para cada palavra.

Por outro lado, quando nos tornamos escravos das palavras, deixamos que a impulsividade nos domine, permitindo que o momento governe a razão, sem considerar as consequências que podem surgir.

Quantos problemas surgem de uma frase dita sem reflexão, de um desabafo que não passou por análise cuidadosa?

Portanto, o silêncio revela-se não como uma fraqueza, mas como uma forma de sabedoria. É nele que amadurecemos os nossos pensamentos, clarificamos as nossas intenções e fortalecemos a nossa dignidade pessoal.



***
2026-06-19 - O Poder do Silêncio sobre as Palavras
nn(in)metamorphosis 


17/06/2026

Quando a Humanidade Deixa de Sentir

Vivemos num tempo marcado pela pressa, pelo já, pela exposição constante e pela necessidade quase compulsiva de opinar sobre tudo. Todavia, enquanto a tecnologia avança e torna as pessoas cada vez mais interligadas, algo essencial parece enfraquecer silenciosamente, a capacidade de sentir a dor do outro como algo que também nos pertence.

 A empatia, que sempre sustentou os laços humanos, começa a ser substituída pela indiferença, pelo julgamento imediato e pela banalização do sofrimento.

Quando uma sociedade perde a sensibilidade perante a fome, a violência, a desigualdade ou a solidão alheia, inicia-se um perigoso processo de desumanização.

A barbárie não surge apenas em guerras ou regimes violentos. Nasce, demasiadas vezes, nos pequenos gestos de desprezo, no silêncio perante a injustiça e na incapacidade de reconhecer humanidade a quem pensa, vive ou sofre de forma diferente.

Uma cultura sem empatia transforma pessoas em números, dores em estatísticas e vidas em objectos descartáveis.

A ausência de empatia mina as relações humanas. As pessoas passam a escutar menos, a compreender menos e a atacar mais. O diálogo desaparece, dando lugar à intolerância. Em vez de pontes, erguemos muros emocionais e sociais. Pouco a pouco, uma frieza colectiva torna normal o egoísmo, fragiliza valores basilares como a solidariedade, a compaixão e o respeito.


Talvez o verdadeiro progresso não esteja só nas conquistas materiais ou tecnológicas, mas na capacidade de permanecermos humanos no meio do caos. Uma civilização não se deveria medir apenas pelo que constrói, mas sobretudo pela forma como trata aqueles que mais necessitam de cuidado, escuta e dignidade.


***
 2026-06-17 - Quando a Humanidade Deixa de Sentir 
nn(in)metamorposis

29/05/2026

O mal avança no silêncio dos bons

 




O que sei dos homens
é o peso que deixam no ar
é o grito dos passos duros
e das mãos que aprendem cedo
a fechar-se
 
Dizem-me
que há bons
 
Como quem fala de ilhas
nunca descobertas
como quem aponta estrelas
num céu que não cessa de arder
 
Se os há
onde respiram?
 
Em que ruas andam
que não levantam o pó da dor?
 
Que palavras usam
que não se fazem ouvir?
 
Procuro-os no silêncio
nos gestos pequenos
da fraternidade
num “já chega”
num olhar que não fere
 
Mas o mundo…
qual mundo?
 
Uns quantos
que insistem em gritar
em quebrar
em dominar
 
e outros
que tentam
e são calados
 
e outros
que veem
e recuam
 
e outros ainda
que se habituam
 
porque o peso é maior
porque o dinheiro fala
porque o medo fica
 
E assim
os que fazem a guerra
seguem
 
sem tropeço
 
não porque sejam mais
mas porque o resto
adormece

 
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2026-05-29 - O mal avança no silêncio dos bons 
nn(in)metamorphosis


22/05/2026

À Espera de Não Esperar

 



Há sempre qualquer coisa à nossa espera
mesmo quando juramos estar em paz total
 
Porque o cérebro, esse funcionário curioso
nunca assinou contrato para ficar ocioso
 
Se não esperas o metro
esperas a inspiração
 
se não esperas o fim
esperas a explicação
 
se não esperas nada
esperas perceber
quando se consegue não esperar nada a valer
 
E assim segues
 
esperas o café arrefecer
o café aquecer
o café decidir o que quer ser
 
e no meio disso tudo
quase sem dar por isso
 
ficas à espera
de não estar à espera
 
(que é, talvez,
a espera mais demorada de todas)
 
***
2026-05-22 - À Espera de Não Esperar
nn(in)metamorphosis 


09/05/2026

Estações em discussão


Alguém me diz quando o calor chega de vez.
Quando é que deixamos finalmente de sair de casa com um casaco “só para o caso de”. Quando é que as manhãs deixam de enganar e as noites começam a pedir ruas cheias, pele descoberta e janelas abertas até tarde.
 
Quando é que os casacos voltam ao roupeiro para descansar, como soldados cansados depois de uma longa batalha contra o vento e a chuva. Encostados, silenciosos, como quem ainda não acredita que a guerra acabou.
 
Porque hoje o céu chorou como se lhe tivesse morrido a família toda de uma vez.
As nuvens vestiram-se de cinzento fechado, quase luto, e a temperatura desceu como se o calendário estivesse a brincar connosco.
 
A primavera aparece e desaparece, sem estabilidade. Toca ao verão, mas ainda não entra.
 
Os vestidos de algodão continuam à espera. As sandálias também. E até nós vamos ficando atentos a qualquer brecha de luz, a qualquer promessa de calor que ainda não se cumpre.
 
Não nos bastava o mundo ao estalo, faltava-nos também estações em discussão.
 
Só espero que um dia, sem aviso, o verão ganhe.

 

 
***
2026-06-09 - Estações em discussão 
nn(in)metamorphosis

08/05/2026

Pessoas vêm e vão

 




Umas chegam enquanto outras partem
algumas ficam mais tempo, outras quase nada
algumas reaparecem depois de sumirem
e nós próprios estamos sempre a alternar entre ser quem chega e quem vai na vida dos outros
  
Pessoas vão e vêm
umas por algum tempo
outras por muito
outras quase um sopro
 
Chegam sem anúncio
partem sem aviso
mas deixam sempre algo
no que somos
 
E nós, distraídos
fazemos o mesmo
somos passagem breve
na vida de alguém
 
Ficamos no detalhe
no gesto que perdura
no que muda sem nome
 
Porque no fim
em vão

ninguém passa
ninguém vem

 
***
2026-05-08 – Pessoas vêm e vão 
nn(in)metamorphosis


01/05/2026

Alegria comum não grita... sussurra

 

Pouco se escreve sobre a alegria quer pelo escrevinhador comum, quer pelos autores de nome gravado a ouro.
 
Procurei e encontrei uns pouquinhos como:
 
Alberto Caeiro: aceitação tranquila da vida como ela é.
Sophia de Mello Breyner Andresen: luz, mar, ordem simples do mundo.
 
e uns completamente desconhecidos para mim
 
Walt Whitman: entusiasmo vital, corpo, natureza
Mary Oliver: beleza nas pequenas coisas
  
“A alegria simples é, paradoxalmente, uma das coisas mais difíceis de escrever bem.”
 
Conclusão:
Eu não me importo nada de não escrever bem, porque dou muito mais valor ao que me faz sentir bem.
 
Alegria comum não grita… sussurra
 
e é por isso que poucos a ouvem
passa leve
como o vapor do café numa manhã qualquer
como o som de roupa estendida ao vento
 
chega sem fanfarra
não pede atenção
não bate à porta
 
encosta-se
devagarinho
no instante
 
é um corpo cansado
que ainda assim se estende ao sol
é o pão partido sem pressa
entre mãos que já sabem o caminho
 
ninguém escreve grandes epopeias sobre isto
ninguém ergue estátuas ao dia banal
e no entanto
é aqui que a vida persiste
 
não no auge
não no grito
mas nesta espécie de respiração tranquila
 
quase nada
quase tudo
 
a alegria comum não grita… sussurra
e só fica
com quem aprende
a baixar o ruído do mundo
o suficiente
para a deixar entrar

 

***
2026-05-01 - Alegria comum não grita… sussurra 
nn(in)metamorphosis


24/04/2026

Palavras não ditas

 

Gosto de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e, ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade tolhe-as e faz com que definhem lentamente.

 Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.

 Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.

 Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.

 Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.



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2026-04-24 – Palavras não ditas
nn(in)metamorphosis 

01/04/2026

Memória, essa ferramenta extraordinária

 

Imagem gerada por IA


A memória, essa ferramenta extraordinária, acompanha-nos de forma silenciosa, mas decisiva, ao longo da vida. É nela que se inscrevem as experiências, os afectos e os acontecimentos que, pouco a pouco, vão dando forma àquilo que somos. Sem memória, faltar-nos-ia essa continuidade que liga o passado ao presente e que sustenta a nossa identidade.
 
Ainda assim, a memória está longe de ser um registo rigoroso. Mais do que guardar, ela reconstrói. As lembranças são frequentemente moldadas pelo tempo, pelas emoções e pelas circunstâncias em que são evocadas. Recordar não é apenas recuperar o que foi vivido, mas também reinterpretá-lo à luz do que somos hoje.
 
Apesar dessa imperfeição, a memória mantém um papel essencial. É através dela que aprendemos, que reconhecemos padrões, que estabelecemos relações e que atribuímos significado ao que vivemos. Sem ela, a experiência perderia profundidade e tornar-se-ia fragmentada.
 
Talvez seja precisamente nessa dualidade (entre fidelidade e reconstrução) que reside o seu carácter extraordinário. A memória não é apenas um arquivo do passado; é uma força ativa que participa, de forma contínua, na construção de quem somos.

  

***

2026-04-01 – Memória, essa ferramenta extraordinária 
nn(in)metamorphosis


14/03/2026

Entre instantes

 


O tempo passa devagar nas coisas simples
na chávena morna esquecida na mesa
na luz da manhã que entra pela janela
como quem pede licença para ficar

 

Há dias que cabem num suspiro
outros que pesam como tardes de inverno
e, no entanto, a vida acontece
nos gestos pequenos que quase não vemos
 
perde se tanto pelo caminho
nomes rostos promessas ditas ao vento
mas fica sempre qualquer coisa
um riso guardado na memória
um perfume antigo numa rua qualquer
 
sonhar é isto talvez
acreditar que cada instante breve
é uma espécie de eternidade escondida
 
e assim seguimos
entre o que foi e o que ainda não chegou
aprendendo devagar
a alegria simples de estar vivo


***

2026-03-14 - Entre Instantes
nn(in)metamorphosis 


22/02/2026

Kristin a Louca


 
Kristin a louca
 
 
E a Cristin passou.
Passou e levou quase tudo na mala, incluindo a nossa paz.
Aqui estamos, nós e as lonas improvisadas, a tentar convence-las que as telhas querem voltar para os braços do telhado, mas as lonas (cabras) abanam a cabeça e enfunam, ameaçando ir d'asa, só para nos provocar.
Enquanto as  paredes murmuram segredos em forma de goteiras, e a tinta, toda vaidosa, desfila em tons de mofo como se fosse desfile de Carnaval.
Os pavimentos de madeira decidiram tornar-se pranchas nos lagos em que se tornaram as placas que os suportavam.
O mobiliário? Pobrezinho, grita por socorro, roda os olhos e prepara-se para uma revolta silenciosa, como se fosse um exército secreto de cadeiras e mesas.
Na guerra dos orçamentos, onde cada telefonema é uma oração - que atenda, desta vez, um que atenda: e se tivermos sorte. Pagámos metade do orçamento, e temos que esticar a paciência, é que depois do pagamento a espera pode superar as quatro semanas, para chegar o material. Depois... Subir em placas molhadas tornou-se desporto radical. Ou seja, lá para Abril, talvez, e só talvez, volte a dormir no meu quarto. Consiga sentar-me no sofá da sala, ouvir música, ler, até passar pelas brasas.
Entretanto faço fintas entre os móveis arrastados para fora das divisões e separados das paredes.
Os seguros? Ah, esses fazem ginástica para não pagar muito, a saltitar de um lado para o outro como se fossem acrobatas de circo.
 E eu? Ah, eu já chego a cheirar a mofo até no cabelo.
Cada vez que um ventinho sopra,  a casa murmura e o que resta do telhado abanica em desaprovação, eu só quero boiar sem me afogar.
 
Mas olhem: apesar de tudo, cá estou, com a capa de super-heroína rasgada, as galochas furadas, a rir do absurdo e a esperar que, um dia, a casa também decida recompor-se…


***

2026-02-22 - Kristin a louca
nn(in)metamorphosis


06/01/2026

Sol e Frio

 
O sol até aparece, todo convencido, mas não aquece nada. É um sol de enfeite, próprio para fotografias e enganos. A gente sai de casa cheia de esperança, bem agasalhada, e leva logo com um vento gélido que trespassa a roupa como se fosse renda fina. Cachecol, casaco, camisola interior? Tudo inútil. O frio encontra sempre um caminho, sobretudo pelo pescoço e pela alma. E depois vêm as gripes, fiéis como más companhias: olhos chorosos ,e não é de emoção, narizes vermelhos que dispensam palhaço no circo, e vozes fanhosas que transformam um simples “bom dia” num solo de trompete desafinado. Ainda assim, lá vamos nós, a fungar com dignidade, a queixar-nos do tempo com convicção científica e a garantir que “isto não é frio nenhum” … enquanto batemos o dente como castanholas.



 ***

2025-01-06 – Sol e Frio - Reflexões 
nn-metamorphosis

21/10/2025

Essência

Vivo a minha vida sem pressas nem mapas. Deixo que os dias me levem, sem grandes planos nem promessas. Não persigo o que foge, mas também não ignoro o que me chama. Gosto das pequenas coisas: um olhar distraído, um som de fundo, um instante que parece nada e acaba por ser tudo.


Aprendi que o sentido das coisas aparece quando deixo de o forçar. Que as quedas ensinam, mesmo quando doem. E que o tempo tem um jeito curioso de pôr tudo no lugar, mesmo o que parecia perdido.
Não procuro perfeição; procuro presença. Vivo entre o caos e a calma, a tentar ser inteira, mesmo quando não percebo bem o porquê de tudo.

 

 

***

2025-10-21 - Essência 
nn(in)metamorphosis


06/10/2025

Amor é... mas não é



ele diz que a ama
ela acredita
por um instante
 
o amor sente-se
sim
mas sentir não chega
não basta para durar
 
o amor é o que se faz
quando o dia pesa
quando o corpo cansa
e ainda assim
há cuidado
 
é ela preparar o café
não por hábito
mas porque hoje
ele precisa
 
é ele pôr a mesa
porque hoje
é ela
que chega mais tarde
 
o amor é escolha
repetida
no silêncio
e no gesto
 
amor é prática
amor é cuidado
amor é insistir em ficar
 
amor é…
mas não é só o que se sente

o que se sente precisa
do que se faz


 ***

2025-10-06  - Amor é… Mas não é
nn-metamorphosis

21/09/2025

À porta do Outono

 

Domingo, fim de tarde.
 
O Verão despediu-se hoje com a sua luz dourada e preguiçosa. Senti-o claramente: o ar já não traz a vibração dos dias quentes, mas uma doçura calma, quase rendida. Passei a tarde a observar como as sombras se alongam mais cedo, como o céu parece querer descansar, e dei por mim a sorrir com essa melancolia leve que nunca sei bem se é saudade ou alívio.
 
Amanhã chega o Outono.
 
Sinto-me pronta para o receber. Há qualquer coisa de reconfortante nesta mudança: o cheiro prometido da terra molhada, as folhas que hão-de cair em tons de cobre e ferrugem, o convite ao recolhimento e à serenidade. É como se a natureza me desse permissão para abrandar, para me voltar mais para dentro, para escutar o que em mim também pede silêncio e pausa.
 
Dou as boas-vindas ao Outono como quem recebe uma visita esperada. Não com euforia, mas com a ternura de quem reconhece no tempo que passa uma sabedoria maior. Que ele me traga serenidade, tardes longas de chá quente, e a lembrança de que cada fim é também um início disfarçado.
 
 
***
2025-09-22 - À Pota do Outono 
nn(in)metamorphosis

19/09/2025

Essencial

 
A felicidade para mim
é ter o corpo leve
sem dores que pesem nos passos
 
É deitar a cabeça na almofada
sem fantasmas à porta
sem sombras na janela
 
É abrir os olhos de manhã
e sentir que o peito respira
sem pressa
sem medo
sem angústia
 
O resto
os sonhos os desejos
as conquistas
vêm depois
 
***
2025-09-19 – Essencial 
nn(in)metamorphosis

17/09/2025

Difíceis de lidar, mas com impacto

 
Estava sentada numa mesa de café, a meio da tarde, num espaço quase vazio. Fui convidada pela própria organizadora a participar numa reunião para juntar dinheiro e bens de primeira necessidade para uma família monoparental que após um divórcio, se reinventa e segue em frente..
 
Enquanto a organizadora esteve presente, o pequeno grupo, que me pareceu já se conhecer entre si, ao contrário de mim,  rodeava-a de sorrisos e elogios exagerados. Cada pedido ou ideia era imediatamente elogiado, gerando mais uma enxurrada de elogios vazios que soavam forçados e artificiais, destoando do objetivo da reunião.
 
Mas, quando a organizadora saiu e eu esperava para pagar o café, o ambiente mudou imediatamente. Surgiram comentários como: “É difícil de lidar”, “Raramente está de acordo”, “Dificilmente lhe ouves um elogio.” O contraste era evidente: enquanto estava presente, recebia elogios falsos; fora do seu alcance, era julgada e rotulada.
 
A experiência mostrou-me como a bajulação distorce a percepção das pessoas. Quem não se presta a esse jogo de elogios vazios acaba rapidamente rotulado de “difícil”, mesmo agindo com honestidade.
 
Só um aparte; Elas não sabem, mas, tal como a organizadora, eu sou das “difíceis de lidar”; elogios e bajulações ocas não fazem parte dos pratos que engulo, nem a custo.
 
Apesar de tudo, conseguimos reunir um bonito valor e alguns cabazes de compras não perecíveis, higiene e limpeza para alguns meses.
 
No fim, é isso que realmente importa: a ajuda que chega de forma concreta e útil. O resto é isso mesmo, resto.
 
 
***
2025-09-17 - Difíceis de lidar, mas com impacto 
nn(in)metamorphosis