A vida vai acontecendo assim, quase sem darmos por isso.
30/09/2026
Minudências da vida
A vida vai acontecendo assim, quase sem darmos por isso.
22/09/2026
O equinócio ainda tem lugar?
Ainda há calor nas pedras
e luz presa aos beirais
mas já se ouvem folhas secas
a correr pelos quintais
o sol sobe devagar
uma andorinha corta o céu
antes do céu se fechar
já a chuva vinha ao chão
e a terra, depois da chuva
abria o seu coração
nas paredes, nos telhados
e há dias ainda tão quentes
que parecem mal acabados
numa breve igualdade
luz e sombra, lado a lado
partilham a claridade
e a luz começa a fugir
uma folha solta-se do ramo
sem pressa de cair
o dia vai mais devagar
e o verão, ainda morno,
fica um pouco no ar
noname-metamorphosis
18/09/2026
E se o problema não for a inteligência artificial?
Não sou entendida em tecnologia. Não sei explicar como funcionam os algoritmos, não sei até onde poderá chegar a inteligência artificial e muito menos tenho conhecimentos que me permitam prever o que acontecerá daqui a dez ou vinte anos.
Mas tenho olhos. Tenho memória. E tenho uma coisa que, às vezes, me parece que estamos a perder: a capacidade de sentir quando alguma coisa não está certa.
Há dias li uma notícia sobre inteligência artificial que me deixou inquieta. Falava de pessoas ligadas a grandes empresas tecnológicas que começaram a alertar para os perigos do caminho que estamos a seguir. Pessoas que conhecem esta tecnologia por dentro e que parecem ter medo daquilo que estão a ajudar a criar.
Não sei quanto há de verdade, quanto há de exagero e quanto há de interesses pelo meio. Sei apenas que a ideia ficou comigo.
E comecei a pensar.
Talvez o que mais me assuste na IA não seja a possibilidade de um dia as máquinas se tornarem mais inteligentes do que nós.
Talvez seja aquilo que nós, seres humanos, faremos com elas.
Porque as máquinas não inventaram a ganância. Não inventaram a sede de poder. Não inventaram a obsessão pelo lucro.
Fomos nós.
E há seres humanos que olham para quase tudo através de uma folha de Excel.
- Quantas pessoas podem ser substituídas?
- Quanto se pode poupar?
- Quanto se pode produzir?
- Quanto vale este mercado?
- Quantos dados temos?
- Quantos utilizadores?
Quantos milhões?
E, no meio de tantos números, às vezes desaparece aquilo que o número representa.
Uma pessoa.
- Uma pessoa que tem medo de perder o emprego.
- Uma pessoa que trabalha quarenta anos e, de repente, passa a ser considerada "dispensável".
- Uma pessoa que não consegue acompanhar a velocidade da tecnologia.
- Uma pessoa que não percebe porque é que uma máquina decidiu que ela não serve para determinado trabalho, para determinado empréstimo, para determinada oportunidade.
Uma pessoa que, simplesmente, passa a ser mais um dado.
E aqui há uma ironia que não consigo deixar de pensar.
Dizem-nos que a inteligência artificial poderá um dia tornar os seres humanos desnecessários.
Mas será que não estamos nós próprios a preparar esse caminho?
Há muito tempo que, em tantos aspectos da nossa vida, deixámos de ser pessoas para passar a ser números.
- Somos o número do contribuinte
- O número de cliente
- O número da conta
-O número do processo
- O número da apólice
- O número das estatísticas
O número que aparece numa tabela e determina se somos rentáveis ou não.
Eu própria já hoje não passo, muitas vezes, de um número.
Por isso, quando ouço falar de uma inteligência artificial que poderá tomar decisões cada vez mais importantes, não consigo deixar de pensar: quem estará por detrás dela?
- Quem define aquilo que ela deve fazer?
- Quem decide os limites?
- Quem será responsável quando errar?
E, sobretudo, quem vai decidir o que vale mais: o lucro ou a pessoa?
Não quero parecer alarmista.
Também não quero entrar naquela conversa de que "as máquinas vão dominar o mundo", como se estivéssemos dentro de um filme.
Não sei se a IA vai acabar com a humanidade daqui a dez anos. Provavelmente ninguém sabe.
Mas sei que uma tecnologia capaz de fazer cada vez mais coisas nas mãos de seres humanos irresponsáveis pode ser perigosa.
E sei também que uma tecnologia extraordinariamente poderosa nas mãos de pessoas extraordinariamente responsáveis pode ser uma coisa maravilhosa.
A inteligência artificial pode ajudar a descobrir doenças, ensinar, investigar, facilitar a vida de pessoas com limitações e resolver problemas que hoje parecem impossíveis.
Não sou contra a tecnologia.
Sou contra a ideia de que, porque uma coisa pode ser feita, tem necessariamente de ser feita.
E talvez seja esta a pergunta que devêssemos fazer mais vezes.
Não "até onde conseguimos levar a inteligência artificial?"
Mas:
"Até onde devemos levá-la?"
Porque há uma diferença enorme entre poder fazer alguma coisa e dever fazê-la.
E talvez precisemos de discutir isto enquanto ainda estamos a tempo.
- Não apenas os especialistas.
- Não apenas os donos das grandes empresas tecnológicas.
- Não apenas os governos.
Nós.
- As pessoas comuns.
- As que vão trabalhar amanhã.
- As que têm filhos.
- As que têm pais idosos.
- As que têm medo de perder o emprego.
- As que já sentem que o mundo corre demasiado depressa.
As que, como eu, não sabem explicar tecnicamente o que é uma inteligência artificial, mas sabem reconhecer o valor de uma vida humana.
Talvez eu não tenha conhecimentos suficientes para dizer até onde a inteligência artificial pode chegar.
Mas tenho conhecimento suficiente para saber onde não gostaria que chegássemos nós.
- Um mundo onde uma pessoa valha apenas aquilo que produz.
- Um mundo onde uma pessoa seja apenas um número.
Porque, se chegarmos aí, talvez o problema não seja a inteligência das máquinas.
Talvez seja termos esquecido o que significa ser humano.
***
noname-metamorphosis
29/07/2026
Antes que seja saudade
Corremos atrás dos dias
como se a felicidade estivesse sempre mais à frente
e sem dar por isso
deixamos para trás os momentos
que um dia vamos querer voltar a viver
O futuro chega sempre
é certo, é inevitável
e quando finalmente o alcançamos
descobrimos que o que mais nos falta
não é o amanhã
é o ontem.
A voz de quem já partiu
o riso que enchia a casa
os abraços dados sem pensar
as pequenas coisas
que pareciam tão normais
e afinal eram tudo
Por isso, caminha
sonha. cresce
mas não tenhas tanta pressa
Porque, muitas vezes
no futuro
o que vais encontrar
é a saudade do passado
***
nn(in)metamorphosis
27/07/2026
Social, mas pouco sociável
Vivo bem com a solitude. Gosto da minha própria companhia e não tenho medo de estar sozinha. Tenho pessoas à minha volta e nunca me faltou afecto. Ainda assim, muitas vezes sinto que estou num lugar diferente da maioria das pessoas.
Sou uma alma esquisita: social e pouco, ou mesmo muito pouco, sociável. Claro que gosto de pessoas, de conversar, de partilhar momentos e de estar com quem me diz alguma coisa. O que me deixa piursa são as formalidades, as conversas de circunstância e os encontros em que parece que toda a gente está a cumprir um papel.
Essas situações cansam-me. Muitas vezes vou só para evitar as dezenas de telefonemas e mensagens a perguntarem se estou bem, porque estou renitente em ir, que posso falar à vontade, que estão lá para mim. Uma canseira.
Acabo por ir, voluntária à força. Pouco depois de chegar, após os beijos e abraços, dos "estás gorda", "estás magra", "que é feito de ti?", desligo.
E o tempo vai passando, com as mesmas conversas do último encontro, que acabam por seguir caminhos que não me interessam. Não raras vezes, alguém sai e, sem grande esforço, a conversa muda de rumo e passa a ser sobre essa pessoa. Quase nunca para a elogiar.
Nesses momentos percebo que sou social, mas não muito sociável. Gosto de pessoas, mas gosto delas de forma genuína. Prefiro uma conversa sincera a horas de conversa vazia. Prefiro a autenticidade às aparências. Não tenho jeito para fingimentos nem paciência para jogos sociais. Talvez por isso me sinta tantas vezes deslocada em ambientes onde toda a gente parece saber exactamente o que dizer e como agir.
Talvez seja por isso que aprecie tanto a solitude. Não a vejo como isolamento nem como tristeza. Vejo-a como um lugar de conforto, onde não preciso de fingir, concordar por educação ou encaixar em expectativas que não são minhas. Gosto de estar com pessoas, mas também gosto de regressar a mim.
E a verdade é que não me sinto sozinha quando estou sozinha. Sinto-me tranquila. Porque, no fim de contas, a minha companhia chega-me mais vezes do que muita gente imagina.
A minha mãe sempre disse que: Família e amigos são óptimos de visita, e nessas alturas é uma alegria recebê-los, mas devem viver a pelo menos cinco ruas abaixo ou cinco ruas acima.
***
nn(in)metamorphosis
15/07/2026
Génese
Tudo é sobre o Agora, inclusivé o Depois…
Porque o Depois
não nasce longe
nem vem d’outro lugar
neste instante discreto
entre uma escolha e outra
entre uma palavra dita
e uma palavra guardada
como se fosse um mundo distante
mas ele já está a acontecer
nas mãos com que tocamos o presente
começa no modo como olhamos hoje
o que perdemos
o que salvamos
o que construímos
Tudo passa por esse breve segundo
que tantas vezes deixamos escapar
pede apenas presença
que o Depois lhe pertence
já não será Depois
***
08/07/2026
A Beleza da Decepção
Só quando a ilusão cai
os olhos aprendem a ver
Há afectos que aquecem
e há afectos que prendem
amizades que ficam
outras que se perdem
laços de família
que nos amparam
e outros que apenas pesam
Guardamos pessoas
palavras
promessas
lembranças
Tememos o vazio
sem perceber
que é esse medo
que nos impede de seguir
A decepção dói
mas limpa o coração
leva o que nunca foi nosso
e deixa espaço
para o que merece ficar
Então caminhamos mais leves
sem pedir que ninguém mude
sem prender quem quer partir
sem correr atrás do que acabou
Porque a verdadeira liberdade
começa quando deixamos de segurar
o que já não nos segura
Frase base:
Como é bela a decepção que nos liberta dos apegos - Alejandro Jodorowsky
***
2026-07-08 - A Beleza da Decepção
nn(in)metamorphosis
06/07/2026
A Vida ensina devagar
A vida é curta, vive. O amor é raro, aproveita. O medo é terrível, enfrenta. As lembranças são doces, aprecia.
A vida é curta
e ensina devagar
O amor é raro
e nunca bate duas vezes da mesma maneira
O medo é terrível
até ao dia em que deixa de mandar
As lembranças são doces
mesmo quando nasceram salgadas
E a sabedoria
essa não chega com os anos
Chega no dia em que damos por nós
a repetir as palavras da nossa mãe
E em vez de revirarmos os olhos
sorrimos
Porque afinal
ela tinha razão
***
nn(in)metamorphosis
03/07/2026
Casa lugada
A vida é casa alugada
entramos devagar
como quem recebe uma chave
sem conhecer o tempo do contrato
abrimos janelas
arrumamos afectos nas prateleiras
penduramos memórias nas paredes
chamamos nossa
à mesa onde partilhamos o pão
ao quarto onde guardamos os sonhos
ao silêncio que aprende o nosso nome
mas a casa sabe mais do que nós
sabe que nenhuma porta fica para sempre aberta
que nenhuma luz permanece acesa eternamente
que nenhuma presença escapa ao calendário invisível
e ainda assim
plantamos flores no quintal dos dias
consertamos telhas depois das tempestades
rimos nos corredores
choramos junto às paredes
como bons inquilinos
porque viver talvez seja isso
cuidar com ternura do que não nos pertence
amar profundamente o que não podemos possuir
e agradecer a cada amanhecer
por mais uma noite passada
nesta casa alugada que é a vida
***
nn(in)metamorphosis
26/06/2026
Entre o Princípio e o Fim
Todos vamos morrer
isso é certo e verdadeiro
mas antes há muitos dias
e caminhos por inteiro
Se o fim chega para todos
que a vida tenha valor
que haja risos, abraços
amizade e amor
Que cada manhã nos traga
vontade de continuar
de aprender com os erros
e nunca deixar de sonhar
Que os olhos vejam beleza
num gesto ou num olhar
porque o tempo passa depressa
e não se pode guardar
Todos vamos morrer
mas hoje estamos aqui
então que todos possamos viver
antes do tempo partir
22/06/2026
Somos uma única vez na vida
Somos manhã que passa
ligeira
vento leve numa janela
aberta
um riso perdido na rua
um abraço que fica na
memória
Somos passos curtos no
mundo
dias cheios de pressa e
silêncio
corações a aprender
devagar
o peso e a beleza de
existir
Nada volta exactamente
igual
nem a chuva
nem o verão
nem os olhos de quem
amamos
Por isso vive
com verdade no peito
com calma nas mãos
e luz nas palavras
Porque somos uma única
vez na vida
e cada instante
mesmo pequeno
é infinito enquanto
acontece
nn(in)metamoephosis
19/06/2026
O Poder do Silêncio sobre as Palavras
Há
verdades que não precisam de muitas explicações, pois fazem parte da
experiência pessoal de cada um de nós que já se arrependeu de ter falado
demais.
O silêncio, muitas vezes conectado com aceitação, cobardia, falta de voz, mas ele é bem mais do que isso, é presença de prudência, reflexão e consciência. Nele, guardamos o que nosso coração ainda não sabe expressar sem se comprometer, é protecção da nossa personalidade contra a precipitação que muitas vezes nos leva ao arrependimento.
Quando somos donos do nosso próprio silêncio, exercemos controle sobre nós mesmos, e temos a liberdade de escolher o momento certo para cada palavra.
Por outro lado, quando nos tornamos escravos das palavras, deixamos que a impulsividade nos domine, permitindo que o momento governe a razão, sem considerar as consequências que podem surgir.
Quantos problemas surgem de uma frase dita sem reflexão, de um desabafo que não passou por análise cuidadosa?
Portanto, o silêncio revela-se não como uma fraqueza, mas como uma forma de sabedoria. É nele que amadurecemos os nossos pensamentos, clarificamos as nossas intenções e fortalecemos a nossa dignidade pessoal.
2026-06-19 - O Poder do Silêncio sobre as Palavras
17/06/2026
Quando a Humanidade Deixa de Sentir
Vivemos num tempo marcado pela pressa, pelo já, pela exposição constante e
pela necessidade quase compulsiva de opinar sobre tudo. Todavia, enquanto a
tecnologia avança e torna as pessoas cada vez mais interligadas, algo essencial
parece enfraquecer silenciosamente, a capacidade de sentir a dor do outro como
algo que também nos pertence.
A empatia, que sempre sustentou os laços humanos, começa a ser substituída pela indiferença, pelo julgamento imediato e pela banalização do sofrimento.
Quando uma sociedade perde a sensibilidade perante a fome, a violência, a
desigualdade ou a solidão alheia, inicia-se um perigoso processo de
desumanização.
A barbárie não surge apenas em guerras ou regimes violentos. Nasce, demasiadas
vezes, nos pequenos gestos de desprezo, no silêncio perante a injustiça e na
incapacidade de reconhecer humanidade a quem pensa, vive ou sofre de forma
diferente.
Uma cultura sem empatia transforma pessoas em números, dores em estatísticas e
vidas em objectos descartáveis.
A ausência de empatia mina as relações humanas. As pessoas passam a escutar menos, a compreender menos e a atacar mais. O diálogo desaparece, dando lugar à intolerância. Em vez de pontes, erguemos muros emocionais e sociais. Pouco a pouco, uma frieza colectiva torna normal o egoísmo, fragiliza valores basilares como a solidariedade, a compaixão e o respeito.
Talvez o verdadeiro progresso não esteja só nas conquistas materiais ou
tecnológicas, mas na capacidade de permanecermos humanos no meio do caos. Uma
civilização não se deveria medir apenas pelo que constrói, mas sobretudo pela
forma como trata aqueles que mais necessitam de cuidado, escuta e dignidade.
2026-06-17 - Quando a Humanidade Deixa de Sentir
nn(in)metamorposis
29/05/2026
O mal avança no silêncio dos bons
é o peso que deixam no ar
é o grito dos passos duros
e das mãos que aprendem cedo
a fechar-se
que há bons
nunca descobertas
como quem aponta estrelas
num céu que não cessa de arder
onde respiram?
que não levantam o pó da dor?
que não se fazem ouvir?
nos gestos pequenos
da fraternidade
num “já chega”
num olhar que não fere
qual mundo?
que insistem em gritar
em quebrar
em dominar
que tentam
e são calados
que veem
e recuam
que se habituam
porque o dinheiro fala
porque o medo fica
os que fazem a guerra
seguem
mas porque o resto
adormece
nn(in)metamorphosis
22/05/2026
À Espera de Não Esperar
mesmo quando juramos estar em paz total
Porque o cérebro, esse funcionário curioso
nunca assinou contrato para ficar ocioso
Se não esperas o metro
esperas a inspiração
se não esperas o fim
esperas a explicação
se não esperas nada
esperas perceber
quando se consegue não esperar nada a valer
E assim segues
esperas o café arrefecer
o café aquecer
o café decidir o que quer ser
e no meio disso tudo
quase sem dar por isso
ficas à espera
de não estar à espera
(que é, talvez,
a espera mais demorada de todas)
***
nn(in)metamorphosis
09/05/2026
Estações em discussão
Alguém me diz quando o calor chega de vez.
Quando é que deixamos finalmente de sair de casa com um casaco “só para o caso de”. Quando é que as manhãs deixam de enganar e as noites começam a pedir ruas cheias, pele descoberta e janelas abertas até tarde.
Quando é que os casacos voltam ao roupeiro para descansar, como soldados cansados depois de uma longa batalha contra o vento e a chuva. Encostados, silenciosos, como quem ainda não acredita que a guerra acabou.
Porque hoje o céu chorou como se lhe tivesse morrido a família toda de uma vez.
As nuvens vestiram-se de cinzento fechado, quase luto, e a temperatura desceu como se o calendário estivesse a brincar connosco.
A primavera aparece e desaparece, sem estabilidade. Toca ao verão, mas ainda não entra.
Os vestidos de algodão continuam à espera. As sandálias também. E até nós vamos ficando atentos a qualquer brecha de luz, a qualquer promessa de calor que ainda não se cumpre.
Não nos bastava o mundo ao estalo, faltava-nos também estações em discussão.
Só espero que um dia, sem aviso, o verão ganhe.
nn(in)metamorphosis
08/05/2026
Pessoas vêm e vão
algumas ficam mais tempo, outras quase nada
algumas reaparecem depois de sumirem
e nós próprios estamos sempre a alternar entre ser quem chega e quem vai na vida dos outros
Pessoas vão e vêm
umas por algum tempo
outras por muito
outras quase um sopro
Chegam sem anúncio
partem sem aviso
mas deixam sempre algo
no que somos
E nós, distraídos
fazemos o mesmo
somos passagem breve
na vida de alguém
Ficamos no detalhe
no gesto que perdura
no que muda sem nome
Porque no fim
em vão
ninguém passa
ninguém vem
2026-05-08 – Pessoas vêm e vão
01/05/2026
Alegria comum não grita... sussurra
Pouco se escreve sobre a alegria quer pelo escrevinhador comum, quer pelos autores de nome gravado a ouro.
Procurei e encontrei uns pouquinhos como:
Alberto Caeiro: aceitação tranquila da vida como ela é.
Sophia de Mello Breyner Andresen: luz, mar, ordem simples do mundo.
e uns completamente desconhecidos para mim
Walt Whitman: entusiasmo vital, corpo, natureza
Mary Oliver: beleza nas pequenas coisas
“A alegria simples é, paradoxalmente, uma das coisas mais difíceis de escrever bem.”
Conclusão:
Eu não me importo nada de não escrever bem, porque dou muito mais valor ao que me faz sentir bem.
Alegria comum não grita… sussurra
e é por isso que poucos a ouvem
passa leve
como o vapor do café numa manhã qualquer
como o som de roupa estendida ao vento
chega sem fanfarra
não pede atenção
não bate à porta
encosta-se
devagarinho
no instante
é um corpo cansado
que ainda assim se estende ao sol
é o pão partido sem pressa
entre mãos que já sabem o caminho
ninguém escreve grandes epopeias sobre isto
ninguém ergue estátuas ao dia banal
e no entanto
é aqui que a vida persiste
não no auge
não no grito
mas nesta espécie de respiração tranquila
quase nada
quase tudo
a alegria comum não grita… sussurra
e só fica
com quem aprende
a baixar o ruído do mundo
o suficiente
para a deixar entrar
nn(in)metamorphosis
24/04/2026
Palavras não ditas
Gosto
de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos
vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas
tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais
calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés
bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem
tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e,
ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam
pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já
nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade
tolhe-as e faz com que definhem lentamente.
Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.
Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.
Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.
Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.
***
nn(in)metamorphosis
01/04/2026
Memória, essa ferramenta extraordinária
Imagem gerada por IA
Ainda assim, a memória está longe de ser um registo rigoroso. Mais do que guardar, ela reconstrói. As lembranças são frequentemente moldadas pelo tempo, pelas emoções e pelas circunstâncias em que são evocadas. Recordar não é apenas recuperar o que foi vivido, mas também reinterpretá-lo à luz do que somos hoje.
Apesar dessa imperfeição, a memória mantém um papel essencial. É através dela que aprendemos, que reconhecemos padrões, que estabelecemos relações e que atribuímos significado ao que vivemos. Sem ela, a experiência perderia profundidade e tornar-se-ia fragmentada.
Talvez seja precisamente nessa dualidade (entre fidelidade e reconstrução) que reside o seu carácter extraordinário. A memória não é apenas um arquivo do passado; é uma força ativa que participa, de forma contínua, na construção de quem somos.
***
nn(in)metamorphosis