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15/09/2026

Onde aprendo a ficar

 




Pertenço ao que sinto
 
ao silêncio que guardo dentro de mim
às palavras que não sei dizer
aos dias em que me encontro
e aos dias em que me perco
 
Pertenço ao medo que escondo
à coragem que às vezes aparece
ao abraço que fica na memória
e à saudade que não desaparece
 
Sou feita do que vivi
do que deixei para trás
do que ainda espero
e do que não consegui esquecer
 
Pertenço às minhas dúvidas
às minhas pequenas certezas
às lágrimas que ninguém viu
e aos sorrisos que dei sem pensar
 
Não quero fugir de mim
nem ser aquilo que esperam
quero apenas escutar o coração
e aceitar aquilo que sou
 
Porque pertenço ao que sinto
e é nesse lugar tão meu
que aos poucos
aprendo a ficar comigo

 

Neste dia, parabéns a mim

***

2026-09-15 – Onde aprendo a ficar
noname-metamorphosis


11/09/2026

A vida a bater por dentro

 

Renova-se em mim o espanto
deste permanente bater de asas cá dentro
como se o dia nascesse
sempre pela primeira vez
 
Há qualquer coisa que acorda
quando tudo parece quieto
uma luz pequena e teimosa
a chamar-me por dentro
 
E eu fico a escutar
sem saber de onde vem
esse movimento secreto
que me leva mais além
 
Talvez seja a esperança
sem nome nem rosto
talvez seja apenas a vida
a renovar o seu gosto
 
E deixo que as asas batam
mesmo quando tenho medo
porque há dentro de mim
um caminho que não sossega

 

***

2026-09-11 – A vida a bater por dentro 
noname-metamorphosis


07/09/2026

Onde a saudade começa




Quando o sol se põe
a magia começa
 
O mar fica dourado
e o céu perde a pressa
 
Há luz sobre as ondas
há fogo no horizonte
 
E eu fico em êxtase
sem saber para onde olhar
 
Se para o céu que arde
se para o mar que sonha
 
Ou para esse instante
 
Em que a luz me leva
para onde a saudade começa

 

 ***

2026-09-07 – Onde a saudade começa
noname-metamorphosis

 

04/09/2026

Sem moldura




 
Deixa-me pintar uma obra prima para ti
com as cores que guardo dentro de mim
vou desenhar o teu sorriso devagar
como quem tem medo de o perder no ar
 
Deixa-me pintar os teus olhos
onde encontro o que não sei dizer
e cada traço que fizer
será um pedaço do meu querer
 
Vou pintar os dias junto de ti
as pequenas coisas que me fazem ficar
o teu abraço quando tudo dói
e a tua mão quando me queres amparar
 
Se me deres uma tela em branco
eu não vou saber por onde começar
mas se disseres que ficas comigo
eu sei exactamente o que pintar
 
Pinto o teu nome no meu coração
pinto os teus sonhos ao lado dos meus
e no fim de toda esta obra
pinto um nós, debaixo do mesmo céu

 

***

 2026-09-04 – Sem moldura
noname-metamorphosis 



02/09/2026

As ruas depois de nós


 

Quando a cidade se esvazia
fica mais humana
 
As ruas deixam de correr
os carros calam-se
e há uma janela acesa
a dizer que alguém ficou
 
É então que reparo
no silêncio das casas
na luz cansada dos prédios
num gato que atravessa a rua
como se a noite fosse sua
 
Sem a pressa de todos
também eu abrando
 
E descubro que a cidade
não é feita só de gente
mas dos pequenos sinais
de quem passou por aqui
 
uma porta entreaberta
um banco molhado,
uma flor esquecida
num parapeito
 
Quando a cidade se esvazia
fico mais perto de mim
 
E talvez seja isso
que o silêncio me ensina
 
que, quando tudo se cala
há sempre qualquer coisa
dentro de nós
a pedir para ser ouvida

 

***

2026-09-02 – As ruas depois de nós
nn(in)metamorphosis 


01/09/2026

Setembro vem devagar





Setembro vem devagar
 
ainda há calor nas pedras
e as tardes demoram-se um pouco
antes de perderem a luz
 
Nas árvores, as folhas vão perdendo o verde
 
as uvas esperam o fim do sol
as maçãs ganham peso
e a luz fica mais baixa sobre os muros
 
Há, em Setembro, qualquer coisa
que amadurece sem fazer ruído
 
Talvez seja por isso
que gosto do mês de Setembro
 
Foi neste mês que cheguei ao mundo
quando o verão começava a afastar-se
e o ano, sem pressa, mudava de cor
 
Desde então, cada Setembro me encontra
um pouco diferente
 
E eu deixo-os chegar, devagar
 
como quem sabe que há coisas
que só o tempo
sabe tornar doces
  

***

2026-09-01 – Setembro vem devagar
nn(in)metamoephosis 


26/08/2026

Olhar e Ver

 



Olhar é rápido
Ver demora mais
 
Olhar é só passar os olhos
Ver é parar um pouco
 
Olhar é notar
Ver é sentir
 
Olhar é estar perto
Ver é descobrir
 
Às vezes olhamos
e nada vemos
Mas quando paramos
vemos o que perdemos
 
Porque ver é mais fundo
é dar tempo ao coração
É olhar devagar
e prestar atenção
  

***

2026-08-26 – Olhar e Ver
nn(in)metamoephosis 


24/08/2026

Antes de sermos

 


Talvez sonhar seja a primeira forma de existir
antes do nome
antes da palavra
antes de sabermos quem somos
 
Talvez sejamos feitos de sonhos
pequenos começos
coisas que ainda não têm forma
mas já vivem dentro de nós
 
Sonhar é abrir uma janela
para um lugar que não vemos
é dar espaço ao impossível
e acreditar que pode nascer
 
Talvez a vida comece assim
num pensamento simples
num desejo sem voz
num sonho que insiste em ficar
 
E quando abrimos os olhos
talvez o mundo esteja à espera
daquilo que ainda não somos
mas podemos vir a ser

 

 ***

2026-08-24 – Antes de sermos
nn(in)metamorphosis 


21/08/2026

Maré por dentro

 



A minha vontade
é enroscar todo o meu corpo
como uma concha
 
dessas que tu encostas ao ouvido
e sentes o barulho do mar
 
Queria caber dentro de mim
ficar quieta
dobrada sobre o meu próprio silêncio
 
a ouvir as ondas
que ainda vivem cá dentro
 
Talvez assim
o mundo ficasse longe
e eu pudesse, por um instante
 
ser só mar
sem pressa
sem nome
 
sem nada para explicar

  

***

nn-metamorphosis
2026-08-21 – Maré por dentro

17/08/2026

Casa Nua




Há quem seja casa nua
sem portas para esconder
sem paredes para fingir
sendo aquilo que é
 
mesmo quando não diz nada
 
Há em cada pessoa dias leves
e outros mais difíceis
há risos que se mostram
e tristezas que se guardam
 
não porque exista vergonha delas
mas porque nem sempre se sabe como as dizer
 
Há quem seja casa nua
com janelas abertas
para tudo o que sente
 
mesmo para aquilo que dói
 
Há uma tristeza em cada pessoa
que às vezes fica em silêncio
senta-se num canto
e espera que o sorriso volte
 
Não é preciso fugir dela
nem a esconder de nós
é possível aprender a viver com ela
a deixá-la existir
 
sem deixar que seja tudo o que somos
 
Porque também somos
os nossos sonhos
os nossos risos
os nossos dias bons
as pessoas que amamos
 
e tudo aquilo que ainda queremos viver
 
Somos casa nua
com tudo à vista
sem medo de ser frágeis
sem vergonha de sentir
 
E mesmo nos dias em que a casa fica quieta
 
continuamos aqui
a cuidar de nós
a abrir as janelas
e a deixar entrar a luz
 porque nem todos os dias precisam de ser luminosos
para continuarmos a habitar-nos

 

***

2026-08-17 – Casa nua
nn(in)metamorphosis 



 

10/08/2026

O nome do vento




Se os meus pés andarem
que encontrem sempre quem me faz bem
 
Se a brisa tocar o meu rosto
que me devolva o fôlego e a vontade de seguir
 
Que eu nunca me habitue
áquilo que me acalma sem pedir nada
 
Que o vento leve o peso
e traga de volta a leveza dos dias
 
Que o coração saiba reconhecer
o abraço que chega sem fazer barulho
 
E que o nome do vento
seja sempre
 
Esperança
Caminho
E paz

 

 ***

2026-08-07 – O nome do vento
nn(in)metamorphosis 

 

02/08/2026

O que a boca cala

 



Antes da boca encontrar coragem
o silêncio faz morada no peito
 
E guarda palavras como quem guarda chuva
à espera de um céu mais leve
 
Mas o espírito não esquece
e leva ao corpo o peso do que ficou por dizer
 
Faz nascer um aperto na garganta
um cansaço sem nome
uma dor que ninguém vê
 
O corpo fala baixinho
quando a voz se perde
 
Cada gesto, cada lágrima
cada suspiro escondido
conta a história que a boca calou
 
Por isso, fala quando puderes
nem sempre para os outros
 
Às vezes basta dizer a ti mesmo
o que o coração pede há tanto tempo
 
Porque o silêncio também tem voz
e o corpo conhece todas as palavras
que a boca deixou por dizer

 
***
2026-07-31 – O que a boca cala
nn(in)metamorphosis 


24/07/2026

Sou âncora e Papagaio de papel

 



A vida ancora-nos ao chão
mostra-nos o caminho devagar
Ensina-nos a crescer
a cair e a continuar
 
Mas o sonho abre a janela
deixa entrar a luz do luar
Pinta horizontes distantes
convida-nos a imaginar
 
A vida dá-nos raízes fortes
para saber onde ficar
O sonho dá-nos coragem
para partir e explorar
 
Entre passos e desejos
há um mundo por criar
Se a vida nos ancora
o sonho
dá-nos asas para voar


 
***
2026-07-24 – Sou âncora e papagaio de papel 
nn(in)metamoephosis


22/07/2026

Tic Tac




Tic tac
Corre o tempo
Tic tac
Tão veloz
Tic tac
Sem lamento
Tic tac
Atrás de nós

Tic tac
Onde vais
Tic tac
Viver a vida
Tic tac
E o amor
Tic tac
É sem medida

Tic tac
Onde paramos
Tic tac
Não sabemos
Tic tac
E o sentido
Tic tac
É só vivermos

Tic tac
Parece pouco
Tic tac
Mas é tanto
Tic tac
Num sorriso
Tic tac
Ou num pranto

Tic tac
E descansar
Tic tac
O tempo não espera
Tic tac
Vive a voar
Tic tac
Logo é quimera

Tic tac
E quanto tempo
Tic tac
Dura uma vida
Tic tac
Dura um momento
Tic tac
E é despedida

 


***
2026-07-22 - Tic Tac
nn(in)metamorphosis

13/07/2026

Um rio sem margens




Corre pelos campos do impossível
voa mais alto do que o medo
atravessa muros feitos de silêncio
e encontra caminhos que ninguém vê
 
Quando a noite cai
a minha mente acende pequenas estrelas
que iluminam os sonhos que guardo comigo
 
Podem prender-me os passos
podem calar a minha voz
mas nunca alcançarão o lugar
onde nascem as ideias e a esperança
 
Porque a liberdade do pensamento
não cabe em grades nem em paredes
 
É um rio sem margens
um céu sem fim
uma chama viva
que continua a arder dentro de mim
 
 
 
Frase Base:
“Não há portões, nem fechaduras, nem cadeados, que consigam trancar a kiberdade do meu pensamento – Virginia Woolf”

 
***
2026-07-13 – Um rio sem margens 
nn(in)metamorphosis

10/07/2026

O peso da luz






 

O sol vive na angústia do seu brilho
 
A lua
chora o frio da solidão
 
Cada um leva
o peso do que é
 
Sem saber
se a luz é bênção
ou castigo
 
E talvez
a tristeza do mundo
seja apenas isto
 
Brilhar demais
ou não ter
quem nos aqueça

 

***

2026-07-10 – O peso da luz
nn(in)metamorphosis 


01/07/2026

Janela Aberta

 



Não se guardam palavras
ou as dizemos
ou as escrevemos
ou elas ficam cá dentro
a fazer peso
 
Há palavras que batem à porta
devagar
sem pressa
à espera de sair
 
Fingimos que as conseguimos guardar
mas elas crescem no silêncio
ocupam os cantos do peito
e roubam espaço ao descanso
 
Por isso escrevo

Não para fazer bonito
não para ter resposta
mas para abrir uma janela
ao que não cabe em mim
 
Porque não se guardam palavras
ou as dizemos
ou as escrevemos
ou elas sufocam-nos
 


 
Frase base: 
“Não se guardam palavras, ou a dizemos, ou as escrevemos, ou elas nos sufocam. Clarice Lispector”

 
 ***
2026-07-01 – Janela Aberta 
nn(in)metamorphosis

24/06/2026

Silêncios habitados

 


O silêncio entre os que se amam nunca é vazio
 
mora entre mãos que se procuram
entre olhares que se encontram
e permanecem
 
não pede palavras
nem explicações
 
senta-se à mesa
caminha ao lado
fica acordado quando a noite custa mais
 
é um lugar onde não é preciso fingir
 
nele cabem as alegrias pequenas
as preocupações que não se dizem
a serenidade da companhia
 
porque há amores que falam muito
e amores que apenas ficam
 
tantas vezes
o que mais aproxima
 
é esse silêncio cheio de presença
que repousa entre dois corações
como uma luz acesa numa casa habitada

 

***

2026-06-24 – Silêncios habitados
nn(in)metamorphosis


15/06/2026

No Vento que Fica

 



Busca-se amor no vento
no toque leve do pensamento
na pausa breve do silêncio
quando a noite abranda por dentro

Procura-se em ruas vazias
em madrugadas frias
no eco distante dos passos
e nas pequenas nostalgias

Há quem o encontre num olhar
há quem o perca sem notar
como areia entre os dedos
ou ondas desfeitas no mar

Porque o amor, tantas vezes
não chega com voz nem aviso
vive escondido nas brisas
nos gestos sem compromisso

E fica
leve, invisível, constante
como o vento que passa
mas nunca passa verdadeiramente

 

***
2026-06-15 – No Vento que Fica
nn(in)metamorphosis 

10/06/2026

Entre o Calcanhar e o Destino





A poesia é um grão de areia na minha meia
mínimo incómodo de praia esquecida
um quase nada que desarruma o passo
e obriga o corpo a lembrar-se da vida
 
Caminho
e ela insiste
 
Pequena, áspera, secreta
a raspar devagar a pele do pensamento
como quem afia silêncio numa navalha
 
Há dias em que a sacudo do sapato
e juro seguir leve, prática, inteira
mas ao primeiro cruzamento do vento
já sinto outra vez o seu peso minúsculo
essa migalha de mundo
presa entre o calcanhar e o destino
 
A poesia não salva
não paga contas nem abriga da chuva
 
Mas entra sem pedir licença
e transforma a marcha mais banal
numa lenta aprendizagem da ternura
 
Porque um grão de areia
é só um grão de areia
até ferir
 
Depois disso
já nenhuma caminhada é inocente

 

***

2026-06-10 - Entre o Calcanhar e o Destino
nn(in)metamorphosis

  

Frase Base: A poesia é um grão de areia na minha meia”  
Uso devidamente autorizado