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02/08/2026

O que a boca cala

 



Antes da boca encontrar coragem
o silêncio faz morada no peito
 
E guarda palavras como quem guarda chuva
à espera de um céu mais leve
 
Mas o espírito não esquece
e leva ao corpo o peso do que ficou por dizer
 
Faz nascer um aperto na garganta
um cansaço sem nome
uma dor que ninguém vê
 
O corpo fala baixinho
quando a voz se perde
 
Cada gesto, cada lágrima
cada suspiro escondido
conta a história que a boca calou
 
Por isso, fala quando puderes
nem sempre para os outros
 
Às vezes basta dizer a ti mesmo
o que o coração pede há tanto tempo
 
Porque o silêncio também tem voz
e o corpo conhece todas as palavras
que a boca deixou por dizer

 
***
2026-07-31 – O que a boca cala
nn(in)metamorphosis 


24/07/2026

Sou âncora e Papagaio de papel

 



A vida ancora-nos ao chão
mostra-nos o caminho devagar
Ensina-nos a crescer
a cair e a continuar
 
Mas o sonho abre a janela
deixa entrar a luz do luar
Pinta horizontes distantes
convida-nos a imaginar
 
A vida dá-nos raízes fortes
para saber onde ficar
O sonho dá-nos coragem
para partir e explorar
 
Entre passos e desejos
há um mundo por criar
Se a vida nos ancora
o sonho
dá-nos asas para voar


 
***
2026-07-24 – Sou âncora e papagaio de papel 
nn(in)metamoephosis


22/07/2026

Tic Tac




Tic tac
Corre o tempo
Tic tac
Tão veloz
Tic tac
Sem lamento
Tic tac
Atrás de nós

Tic tac
Onde vais
Tic tac
Viver a vida
Tic tac
E o amor
Tic tac
É sem medida

Tic tac
Onde paramos
Tic tac
Não sabemos
Tic tac
E o sentido
Tic tac
É só vivermos

Tic tac
Parece pouco
Tic tac
Mas é tanto
Tic tac
Num sorriso
Tic tac
Ou num pranto

Tic tac
E descansar
Tic tac
O tempo não espera
Tic tac
Vive a voar
Tic tac
Logo é quimera

Tic tac
E quanto tempo
Tic tac
Dura uma vida
Tic tac
Dura um momento
Tic tac
E é despedida

 


***
2026-07-22 - Tic Tac
nn(in)metamorphosis

13/07/2026

Um rio sem margens




Corre pelos campos do impossível
voa mais alto do que o medo
atravessa muros feitos de silêncio
e encontra caminhos que ninguém vê
 
Quando a noite cai
a minha mente acende pequenas estrelas
que iluminam os sonhos que guardo comigo
 
Podem prender-me os passos
podem calar a minha voz
mas nunca alcançarão o lugar
onde nascem as ideias e a esperança
 
Porque a liberdade do pensamento
não cabe em grades nem em paredes
 
É um rio sem margens
um céu sem fim
uma chama viva
que continua a arder dentro de mim
 
 
 
Frase Base:
“Não há portões, nem fechaduras, nem cadeados, que consigam trancar a kiberdade do meu pensamento – Virginia Woolf”

 
***
2026-07-13 – Um rio sem margens 
nn(in)metamorphosis

10/07/2026

O peso da luz






 

O sol vive na angústia do seu brilho
 
A lua
chora o frio da solidão
 
Cada um leva
o peso do que é
 
Sem saber
se a luz é bênção
ou castigo
 
E talvez
a tristeza do mundo
seja apenas isto
 
Brilhar demais
ou não ter
quem nos aqueça

 

***

2026-07-10 – O peso da luz
nn(in)metamorphosis 


01/07/2026

Janela Aberta

 



Não se guardam palavras
ou as dizemos
ou as escrevemos
ou elas ficam cá dentro
a fazer peso
 
Há palavras que batem à porta
devagar
sem pressa
à espera de sair
 
Fingimos que as conseguimos guardar
mas elas crescem no silêncio
ocupam os cantos do peito
e roubam espaço ao descanso
 
Por isso escrevo

Não para fazer bonito
não para ter resposta
mas para abrir uma janela
ao que não cabe em mim
 
Porque não se guardam palavras
ou as dizemos
ou as escrevemos
ou elas sufocam-nos
 


 
Frase base: 
“Não se guardam palavras, ou a dizemos, ou as escrevemos, ou elas nos sufocam. Clarice Lispector”

 
 ***
2026-07-01 – Janela Aberta 
nn(in)metamorphosis

24/06/2026

Silêncios habitados

 


O silêncio entre os que se amam nunca é vazio
 
mora entre mãos que se procuram
entre olhares que se encontram
e permanecem
 
não pede palavras
nem explicações
 
senta-se à mesa
caminha ao lado
fica acordado quando a noite custa mais
 
é um lugar onde não é preciso fingir
 
nele cabem as alegrias pequenas
as preocupações que não se dizem
a serenidade da companhia
 
porque há amores que falam muito
e amores que apenas ficam
 
tantas vezes
o que mais aproxima
 
é esse silêncio cheio de presença
que repousa entre dois corações
como uma luz acesa numa casa habitada

 

***

2026-06-24 – Silêncios habitados
nn(in)metamorphosis


15/06/2026

No Vento que Fica

 



Busca-se amor no vento
no toque leve do pensamento
na pausa breve do silêncio
quando a noite abranda por dentro

Procura-se em ruas vazias
em madrugadas frias
no eco distante dos passos
e nas pequenas nostalgias

Há quem o encontre num olhar
há quem o perca sem notar
como areia entre os dedos
ou ondas desfeitas no mar

Porque o amor, tantas vezes
não chega com voz nem aviso
vive escondido nas brisas
nos gestos sem compromisso

E fica
leve, invisível, constante
como o vento que passa
mas nunca passa verdadeiramente

 

***
2026-06-15 – No Vento que Fica
nn(in)metamorphosis 

10/06/2026

Entre o Calcanhar e o Destino





A poesia é um grão de areia na minha meia
mínimo incómodo de praia esquecida
um quase nada que desarruma o passo
e obriga o corpo a lembrar-se da vida
 
Caminho
e ela insiste
 
Pequena, áspera, secreta
a raspar devagar a pele do pensamento
como quem afia silêncio numa navalha
 
Há dias em que a sacudo do sapato
e juro seguir leve, prática, inteira
mas ao primeiro cruzamento do vento
já sinto outra vez o seu peso minúsculo
essa migalha de mundo
presa entre o calcanhar e o destino
 
A poesia não salva
não paga contas nem abriga da chuva
 
Mas entra sem pedir licença
e transforma a marcha mais banal
numa lenta aprendizagem da ternura
 
Porque um grão de areia
é só um grão de areia
até ferir
 
Depois disso
já nenhuma caminhada é inocente

 

***

2026-06-10 - Entre o Calcanhar e o Destino
nn(in)metamorphosis

  

Frase Base: A poesia é um grão de areia na minha meia”  
Uso devidamente autorizado


08/06/2026

Arquitectura de um beijo

 




Eu não sabia que um beijo
podia ter arquitectura
levantar catedrais
no meio da amargura

Nem que uns dedos tão breves
soubessem abrir caminhos
como quem acende lume
no inverno dos sentidos

Eu não sabia do corpo
a secreta engenharia
pontes feitas de silêncio
e janelas de alegria

Nem que a tua boca ao perto
tivesse marés e vento
e pudesse desfazer
o frio do pensamento

Agora sei há cidades
que nascem num só abraço
e há ruínas que regressam
pedra a pedra
passo a passo

Porque um beijo quando é puro
não pede nome nem jura
ergue no peito dos homens
uma impossível ternura

 

***
2026-06-08 - Arquitectura de um beijo 
nn(in)metamorphosis

05/06/2026

Mais leve que o mar

 


Aprendeu a arte
de evaporar lágrimas
 
Guardou o sal no peito
mas deixou a água subir ao céu
 
Porque há dores
que afundam quem as carrega
e outras
que, devagar
se transformam em vento
 
Percebeu então
que é mais leve ser nuvem
do que mar
 
O mar lembra tudo
A nuvem aprende a passar
 
E talvez crescer seja isso
não deixar de sentir
mas deixar de se afogar

 

 ***
2026-06-05 – Mais leve que o mar 
nn(n)metamirphosis

03/06/2026

O Azul Inteiro

 



São os dias cinzentos
que ensinam
a lembrança luminosa
das cores
 
É no céu baço
que se reconhece
a alegria esquecida
de um azul inteiro
 
Porque só quem atravessa
a chuva demorada
compreende, no silêncio
a felicidade da cor

  

***

2026-06-03 - O Azul Inteiro 
nn(in)metamorphosis

01/06/2026

Inteira em Partes


Em quantas partes me posso dividir
sem que falte um pedaço de mim?
 
Sou inteira… em partes sem fim
 
Posso ser filha, amiga, silêncio
ser riso aberto ou dor guardada
posso caber em mil caminhos
e não perder a minha estrada
 
Divido-me no tempo e nos gestos
no que dou e no que fica por dar
em cada olhar que me atravessa
e em tudo o que escolho calar
 
Mas há um centro que não se parte
um lugar fundo, quieto, meu
onde tudo em mim se encontra
e nada do que sou se perdeu
 
Talvez dividir-me seja isso
 
espalhar luz sem a apagar
ser muitas no que entrego ao mundo
 
e uma só no que insiste em ficar

 

***

2026-06-01 - Inteira em Partes
nn(in)metamorphosis 


27/05/2026

O que a Imaginação vê, o Toque confirma

 


Se a imaginação explica o mundo
é porque nele cabem infinitos caminhos
mapas desenhados sem fronteiras
verdades que nascem do sonho
 
Se a imaginação explica o mundo
é porque pinta o invisível
que dá nome ao silêncio
e cor ao que nunca vimos
 
Mas o toque…
o toque não explica
revela
 
O toque explica o amor
como um segredo dito sem voz
como um encontro de pele e destino
onde o tempo abranda
e o corpo entende antes da razão
 
No toque há certeza
não teoria
 
Há calor
não hipótese
 
mesmo quando por fora
quase nada se mostra
 
Se a imaginação constrói o universo
é o toque que o torna real
 
que transforma ideia em presença
distância em abrigo
e dois em um instante inteiro
 
Porque o mundo pode ser sonhado
 
mas o amor…
o amor precisa ser sentido

 
***
 2026-05-27 - O que a imaginação vê, o toque confirma 
nn(in)metamorphosis

25/05/2026

Geometria do EU




Se leio desprendo-me do peso do corpo
e deixo que as palavras me empurrem
como vento invisível nas costas

 atravesso ruas que nunca pisei
habito vozes que não são minhas
e esqueço por instantes quem fui
 
Mas se escrevo abro a porta por dentro
e desenho o caminho com as mãos
como quem acende luz no escuro
 
vou onde quero sem mapa nem medo
porque a direção nasce em mim
e o destino aprende o meu nome


Frase Base
 "Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero."
do blog  A voz à solta
Uso devidamente autorizado


 
***
2026-05-25 – Geometria do Eu
nn(in)metamorphosis 

20/05/2026

Na maresia do mundo

 


Não sou poeta
nem sei ler poesia
 
Sou gente comum
que escreve o que sente
e sente o mundo na maresia
 
Todos os dias têm poesia
mesmo quando ninguém repara
 
ela esconde-se nas coisas pequenas
num copo de água pousado à pressa
no som leve de passos ao longe
na luz que entra sem pedir licença
 
Quando não a vejo
fecho os olhos
não para fugir
mas para escutar melhor o mundo
 
E então sinto
 
o vento a dançar sem corpo
o tempo a respirar devagar
o silêncio a dizer tudo
 
Talvez a poesia seja isso
não algo raro
 
mas algo que só aparece
quando ficamos quietos
o suficiente para sentir


***
2026-05-20 – Na maresia do mundo 
nn(in)metamorphosis

18/05/2026

Entre dois mundos

 



Entre o céu e a terra
há uma linha invisível
tão fina que não corta
tão leve que não pesa
 
Não separa o que somos
nem divide o que sentimos
é apenas um lugar
onde tudo se mistura
 
Ali, o sonho toca o chão
e os passos ganham asas
 
Ali, o silêncio fala
e o tempo abranda
 
Somos feitos dessa linha
metade queda, metade voo
com os pés na incerteza
e o olhar no infinito
 
e
 talvez viver seja isso
 
caminhar sem romper
aprender que entre tudo
não há distância
há encontro

 

***
2026-05-18 – Entre dois mundos 
nn(in)metamorphosis


15/05/2026

É este o caminho?

 


É este o caminho?
 
Sempre que duvidares
dá mais um passo
 
Não precisas de ver tudo
nem de saber onde vai dar
 
Basta o chão à tua frente
e a coragem de continuar
 
É assim, devagar
que o caminho se faz

  

***
2026-05-15 – É este o caminho?
nn(in)metamorphosis


13/05/2026

Assim se fazem os dias

 




Os dias são feitos de reflexos
e de sombras que não se dizem
de vidros onde encostamos o rosto
à procura de um nome que seja nosso
 
São feitos de sonhos
uns leves como o pó na luz da tarde
outros mais pesados, presos na memória
onde o tempo se demora
 
Há vozes em grupo
passam por nós, atravessam-nos
deixam ecos no silêncio
como se o mundo falasse por dentro
 
E há o pó que sacudimos
num gesto pequeno
quase invisível
mas que levanta no ar
o que fingimos esquecer
 
Assim se fazem os dias
de fragmentos, ruído e ausência
de mãos vazias
que ainda procuram luz

 

***

2026-05-13 - Assim se fazem os dias
nn(in)metamorphosis 


11/05/2026

Nem Tudo é Perda

 




Nem tudo o que dói é perda
Às vezes é só poda
 
Há cortes que custam
mas não são castigo
São escolhas da vida
para abrir espaço
 
Dói ver cair o que era nosso
dói largar o que ainda sentimos
Mas nem tudo o que fica parado cresce
e nem tudo o que cresce pode ficar
 
Há um tempo de segurar
e um tempo de deixar ir
 
E nenhum deles é fácil
 
Por isso, quando doer
talvez não seja o fim
Talvez seja só a vida
a preparar-te para continuar diferente…

 

 
***
2026-05-11- Nem Tudo é Perda 
nn(in)metamorphosis