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29/07/2026

Antes que seja saudade

 
Para quê tanta pressa
se o tempo não foge de ninguém
 
Corremos atrás dos dias
como se a felicidade estivesse sempre mais à frente
e sem dar por isso
deixamos para trás os momentos
que um dia vamos querer voltar a viver
 
O futuro chega sempre
é certo, é inevitável
e quando finalmente o alcançamos
descobrimos que o que mais nos falta
não é o amanhã
é o ontem.
 
A voz de quem já partiu
o riso que enchia a casa
os abraços dados sem pensar
as pequenas coisas
que pareciam tão normais
e afinal eram tudo
 
Por isso, caminha
sonha. cresce
mas não tenhas tanta pressa
 
Porque, muitas vezes
no futuro
o que vais encontrar
é a saudade do passado

 

***

2026-07-29 – Antes que seja saudade
nn(in)metamorphosis 

27/07/2026

Social, mas pouco sociável

 
Vivo bem com a solitude. Gosto da minha própria companhia e não tenho medo de estar sozinha. Tenho pessoas à minha volta e nunca me faltou afecto. Ainda assim, muitas vezes sinto que estou num lugar diferente da maioria das pessoas.
 
Sou uma alma esquisita: social e pouco, ou mesmo muito pouco, sociável. Claro que gosto de pessoas, de conversar, de partilhar momentos e de estar com quem me diz alguma coisa. O que me deixa piursa são as formalidades, as conversas de circunstância e os encontros em que parece que toda a gente está a cumprir um papel.
Essas situações cansam-me. Muitas vezes vou só para evitar as dezenas de telefonemas e mensagens a perguntarem se estou bem, porque estou renitente em ir, que posso falar à vontade, que estão lá para mim. Uma canseira.
 
Acabo por ir, voluntária à força. Pouco depois de chegar, após os beijos e abraços, dos "estás gorda", "estás magra", "que é feito de ti?", desligo.

E o tempo vai passando, com as mesmas conversas do último encontro, que acabam por seguir caminhos que não me interessam. Não raras vezes, alguém sai e, sem grande esforço, a conversa muda de rumo e passa a ser sobre essa pessoa. Quase nunca para a elogiar.
Nesses momentos percebo que sou social, mas não muito sociável. Gosto de pessoas, mas gosto delas de forma genuína. Prefiro uma conversa sincera a horas de conversa vazia. Prefiro a autenticidade às aparências. Não tenho jeito para fingimentos nem paciência para jogos sociais. Talvez por isso me sinta tantas vezes deslocada em ambientes onde toda a gente parece saber exactamente o que dizer e como agir.
 
Talvez seja por isso que aprecie tanto a solitude. Não a vejo como isolamento nem como tristeza. Vejo-a como um lugar de conforto, onde não preciso de fingir, concordar por educação ou encaixar em expectativas que não são minhas. Gosto de estar com pessoas, mas também gosto de regressar a mim.
 
E a verdade é que não me sinto sozinha quando estou sozinha. Sinto-me tranquila. Porque, no fim de contas, a minha companhia chega-me mais vezes do que muita gente imagina.
 
A minha mãe sempre disse que: Família e amigos são óptimos de visita, e nessas alturas é uma alegria recebê-los, mas devem viver a pelo menos cinco ruas abaixo ou cinco ruas acima.

  

***

2026-07-27 – Social, mas pouco sociável 
nn(in)metamorphosis


24/07/2026

Sou âncora e Papagaio de papel

 



A vida ancora-nos ao chão
mostra-nos o caminho devagar
Ensina-nos a crescer
a cair e a continuar
 
Mas o sonho abre a janela
deixa entrar a luz do luar
Pinta horizontes distantes
convida-nos a imaginar
 
A vida dá-nos raízes fortes
para saber onde ficar
O sonho dá-nos coragem
para partir e explorar
 
Entre passos e desejos
há um mundo por criar
Se a vida nos ancora
o sonho
dá-nos asas para voar


 
***
2026-07-24 – Sou âncora e papagaio de papel 
nn(in)metamoephosis


22/07/2026

Tic Tac




Tic tac
Corre o tempo
Tic tac
Tão veloz
Tic tac
Sem lamento
Tic tac
Atrás de nós

Tic tac
Onde vais
Tic tac
Viver a vida
Tic tac
E o amor
Tic tac
É sem medida

Tic tac
Onde paramos
Tic tac
Não sabemos
Tic tac
E o sentido
Tic tac
É só vivermos

Tic tac
Parece pouco
Tic tac
Mas é tanto
Tic tac
Num sorriso
Tic tac
Ou num pranto

Tic tac
E descansar
Tic tac
O tempo não espera
Tic tac
Vive a voar
Tic tac
Logo é quimera

Tic tac
E quanto tempo
Tic tac
Dura uma vida
Tic tac
Dura um momento
Tic tac
E é despedida

 


***
2026-07-22 - Tic Tac
nn(in)metamorphosis

20/07/2026

Rabisca Palavras


Rabisca palavras
no aconchego da noite
que é sua amiga

Rabisca na intimidade
do mesmo modo
que sonha
do mesmo modo
que ama

Passa a noite
chega o dia

Dissolve o cansaço
deixando-o passar

Põe
no olhar
o olhar de esperar

Pinta
na boca um sorriso
no rosto um rubor

e aguarda a noite
com a insónia ao lado
para rabiscar palavras

 

***

2026-07-20 – Rabisca Palavras 
nn(in)metamorphosis


17/07/2026

É mesmo genial!!!


Tem que saber ler com paciência. Óptimo exercício!

O que falta no texto ? 
Tente achar, antes de ver a resposta (no final)...


Sem nenhum tropeço, posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo permitindo, mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível.
Pode-se dizer tudo com sentido completo, como se isto fosse mero ovo de Colombo.
Desde que se tente sem se pôr inibido, pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento
Trechos difíceis se resolvem com sinônimos. Observe-se bem: é certo que, em se querendo, esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo.
Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo esporte do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o "E" ou sem o "I" ou sem o "O" e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo, sem o "P", "R" ou "F", ou o que quiser escolher. Podemos, em estilo corrente repetir sempre um som ou mesmo escrever sem verbos.
Com o concurso de termos escolhidos, isso pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir. Porém mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objeto escolhido, sem impedimentos.
Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente
esquecerem e oprimirem nosso português, hoje culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês.
Por quê?
Cultivemos nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.
Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores.
Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, pugilo de heróis e de nobres descobridores de mundos novos.







Descobriu?




Não?




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O texto não tem a letra "a".

Recebi e gostei da - GisleTwo


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2026-07-17 - É mesmo Genial 
nnin)metamorphosis


15/07/2026

Génese


Tudo é sobre o Agora, inclusivé o Depois…

Porque o Depois
não nasce longe
nem vem d’outro lugar
 
O Depois medra aqui

neste instante discreto
entre uma escolha e outra
entre uma palavra dita
e uma palavra guardada
 
Chamamos-lhe futuro
como se fosse um mundo distante
mas ele já está a acontecer
nas mãos com que tocamos o presente
 
O que seremos amanhã
começa no modo como olhamos hoje

o que perdemos
o que salvamos
o que construímos

Tudo passa por esse breve segundo
que tantas vezes deixamos escapar
 
O Agora não faz promessas
pede apenas presença
 
E talvez seja por isso
que o Depois lhe pertence
 
Porque quando chegar
já não será Depois
 
Será Agora
 

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2026-07-15 – Génese 
nn(in)metamorphosis


13/07/2026

Um rio sem margens




Corre pelos campos do impossível
voa mais alto do que o medo
atravessa muros feitos de silêncio
e encontra caminhos que ninguém vê
 
Quando a noite cai
a minha mente acende pequenas estrelas
que iluminam os sonhos que guardo comigo
 
Podem prender-me os passos
podem calar a minha voz
mas nunca alcançarão o lugar
onde nascem as ideias e a esperança
 
Porque a liberdade do pensamento
não cabe em grades nem em paredes
 
É um rio sem margens
um céu sem fim
uma chama viva
que continua a arder dentro de mim
 
 
 
Frase Base:
“Não há portões, nem fechaduras, nem cadeados, que consigam trancar a kiberdade do meu pensamento – Virginia Woolf”

 
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2026-07-13 – Um rio sem margens 
nn(in)metamorphosis

10/07/2026

O peso da luz






 

O sol vive na angústia do seu brilho
 
A lua
chora o frio da solidão
 
Cada um leva
o peso do que é
 
Sem saber
se a luz é bênção
ou castigo
 
E talvez
a tristeza do mundo
seja apenas isto
 
Brilhar demais
ou não ter
quem nos aqueça

 

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2026-07-10 – O peso da luz
nn(in)metamorphosis 


08/07/2026

A Beleza da Decepção

 
Só quando a ilusão cai
os olhos aprendem a ver
 
Há afectos que aquecem
e há afectos que prendem
amizades que ficam
outras que se perdem
laços de família
que nos amparam
e outros que apenas pesam
 
Guardamos pessoas
palavras
promessas
lembranças
 
Tememos o vazio
sem perceber
que é esse medo
que nos impede de seguir
 
A decepção dói
mas limpa o coração
leva o que nunca foi nosso
e deixa espaço
para o que merece ficar
 
Então caminhamos mais leves
sem pedir que ninguém mude
sem prender quem quer partir
sem correr atrás do que acabou
 
Porque a verdadeira liberdade
começa quando deixamos de segurar
o que já não nos segura
 
 
 
Frase base:
Como é bela a decepção que nos liberta dos apegos - Alejandro Jodorowsky

 
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2026-07-08 - A Beleza da Decepção
nn(in)metamorphosis 


06/07/2026

A Vida ensina devagar

 

A vida é curta, vive. O amor é raro, aproveita. O medo é terrível, enfrenta. As lembranças são doces, aprecia.
 
 
A vida é curta
e ensina devagar
 
O amor é raro
e nunca bate duas vezes da mesma maneira
 
O medo é terrível
até ao dia em que deixa de mandar
 
As lembranças são doces
mesmo quando nasceram salgadas
 
E a sabedoria
essa não chega com os anos
 
Chega no dia em que damos por nós
a repetir as palavras da nossa mãe
 
E em vez de revirarmos os olhos
sorrimos
 
Porque afinal
ela tinha razão

 

 

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2026-07-06 - A Vida ensina devagar
nn(in)metamorphosis 


03/07/2026

Casa lugada

 

A vida é casa alugada
 
entramos devagar
como quem recebe uma chave
sem conhecer o tempo do contrato
 
abrimos janelas
arrumamos afectos nas prateleiras
penduramos memórias nas paredes
 
chamamos nossa
à mesa onde partilhamos o pão
ao quarto onde guardamos os sonhos
ao silêncio que aprende o nosso nome
 
mas a casa sabe mais do que nós
 
sabe que nenhuma porta fica para sempre aberta
que nenhuma luz permanece acesa eternamente
que nenhuma presença escapa ao calendário invisível
 
e ainda assim
 
plantamos flores no quintal dos dias
consertamos telhas depois das tempestades
rimos nos corredores
choramos junto às paredes
 
como bons inquilinos
 
porque viver talvez seja isso
 
cuidar com ternura do que não nos pertence
amar profundamente o que não podemos possuir
e agradecer a cada amanhecer
 
por mais uma noite passada
 
nesta casa alugada que é a vida

 

 

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2026-07-03 – Casa alugada
nn(in)metamorphosis 


01/07/2026

Janela Aberta

 



Não se guardam palavras
ou as dizemos
ou as escrevemos
ou elas ficam cá dentro
a fazer peso
 
Há palavras que batem à porta
devagar
sem pressa
à espera de sair
 
Fingimos que as conseguimos guardar
mas elas crescem no silêncio
ocupam os cantos do peito
e roubam espaço ao descanso
 
Por isso escrevo

Não para fazer bonito
não para ter resposta
mas para abrir uma janela
ao que não cabe em mim
 
Porque não se guardam palavras
ou as dizemos
ou as escrevemos
ou elas sufocam-nos
 


 
Frase base: 
“Não se guardam palavras, ou a dizemos, ou as escrevemos, ou elas nos sufocam. Clarice Lispector”

 
 ***
2026-07-01 – Janela Aberta 
nn(in)metamorphosis