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26/05/2012

Invento um rio


Invento um rio, um sargaço, uma foz
mas depois fico petrificada, incapaz de mergulhar
porque não sei deter as águas nem o tempo
 
Gostava de saber encantar-me
com aquilo que se perde pelo caminho
mas a boca não se faz ao asfalto
e as palavras por dizer
hão de um dia cair de maduras
 sem nunca terem sido colhidas
 
Sem as teres sonhado
Sem terem sido respiração boca a boca
 
Haverá um dia em que adormecerei
sem mais nada no corpo além de mim
E nesse dia
não inventarei mais rios


***
2012-05-26 - Invento um rio 
nn(in)metamorphosis


20/05/2012

Perscruto dentro de mim



Perscruto os caminhos que vivem dentro de mim
no intento de os juntar num só
e, por fim, conhecer-me

Parte de mim, universo
Outra parte, ninguém

Parte de mim, uma festa
Outra parte, solidão

Parte de mim reflecte
Outra parte, delira

Parte de mim, dialecto
Outra parte, vertigem

Todas as partes juntas
fazem de mim um ser
tão diferente e tão igual
quanto um igual pode ser

Às vezes inteira
às vezes em partes
mas sempre EU



2012-05-20 - Perscruto dentro de mim 
nn(in)metamorphosis


19/05/2012

Viver é desenhar sem borracha


Doía menos, se mais cedo nos apercebêssemos que:

Para se viver feliz,
não temos que saber tudo;
não temos que ser os melhores em tudo;
não temos que ter tudo;
não temos que ter experienciado tudo.

Apesar de todos vivermos à procura de certezas, estou cada dia mais certa que o certo é saber viver com o essencial.

Saber de quem gostamos;
saber a quem amamos;
saber a quem realmente vale a pena dedicarmos o nosso tempo.

A vida tem-me vindo a ensinar que, quando eu souber estas três coisas, saberei o essencial. E nesse momento terei aprendido que:

O facto de se saber de cor milhares de palavras do dicionário
não faz um iluminado,
se não se souber usar cada uma delas no local certo.

O facto de se saber muito
pode, mesmo assim, nunca ser suficiente.

O facto de se saber o que se tem
não faz com que se saiba o que fazer com o que se tem.

O facto de se esperar ou nos esperarem
não faz da espera eterna.
Um dia acaba.

O facto de se fazer escolhas
não garante que se apresentem boas.

O facto de se ter cometido erros
não faz reféns,
se não se estabelecerem compromissos com eles.

Viver é um desenho que cresce a cada dia.
Os traços e rabiscos feitos… estão feitos.

Nada pode ser apagado,
mas pode ser corrigido,
tornando o desenho, a cada dia, mais agradável.

Recomeçar sempre que necessário é obrigatório.
O resto é consequência.

 

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2012-05-19 - Viver é desenhar sem borracha 
nn(in)metamorphosis 


16/05/2012

A Beleza das Coisas Breves


Quando a tarde cai em silêncio
também eu fico mais quieto por dentro
Há sombras que trazem lembranças antigas
e um cansaço calmo nas mãos

As horas passam devagar
como pássaros frios tocando a alma
e cada memória aparece ao longe
como uma luz esquecida na beira do mar

Mas existe algo que continua vivo
nesse fim lento do dia
um brilho pequeno nos olhos
uma ternura leve no vento

Como se o tempo, mesmo levando tudo
deixasse ficar o mais importante de cada momento

E então entendo
não é a noite que traz tristeza
mas a beleza das coisas
quando começam a ir embora


 ***
2012-05-16 -  A Beleza das Coisas Breves 
nn(in)mertamorphosis


10/05/2012

Fragmentado ou a frustração do vitral

 
Fragmentado ou a frustração do vitral
 
Quem sou eu para além da negação do que não fui
Nau que não navega
Porto que não alberga
Rio que não flui
 
Que será de mim?
Semente que não germinou
Terra infértil que não gerou
História mal contada por não ter fim
 
De que serviu existir?
Se apenas expectativas gerei
Obra nenhuma completei
Fugindo da vida sem ter por onde ir
 
Não sei se fui o que quis
Ou o que deixei fazerem de mim
Sei que o que muitas vezes fiz
Não vivi, não senti, não concebi
 
 
 2012.05.10 (vc)
(Cópia integral e devidamente autorizada)
 
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Resposta
 
Sou a parte de um todo
A porção que é feita de nada
Sou aquilo que a uns mete medo
E a outros mais agrada
 
Sou o enigma
Estrada sem rumo traçado
E quando alguém pensa ter-me encontrado
É nesse instante que me evado
 
Sou o pranto da tempestade
O eco fundo do trovão
Sou quem entrega o olhar
Mas recolhe o coração
 
Sou mais do que em mim pressinto
E menos do que em verdade sou
Sou a parte que mais aprende
Por ser a que mais falhou
 
Sou só, apesar da multidão
Faz-me sombra a solidão
Sou de existência verdadeira
Ainda que feita de ilusão

  

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 2012-05-10 - Fragmentado ou a frustração do vitral 
nn(in)metamorphosis


09/05/2012

Desavenças ou a nova fábula dos 2 burros


Desavenças ou a nova fábula dos 2 burros 

 Como dois miúdos desavindos
Numa zanga sem sentido
Ela espreita ele também
Às escondidas; sabe bem
Salta a bola e é rechaçada
Decerto não foi ninguém
A teimosia que a bola tem…
Fecham a porta com o pé na soleira
Deixam a frincha que é de madeira
Toda cravada de teimosia
Que demasia, tanta fantasia
Se um tropeça o outro cai
Nem um pio, nem um ai
Viram as costas, olham de soslaio
Eu é que nunca mais lhe falo
Nem que Deus lhe mande um raio
Que estará a agora a fazer
Que terá escrito
Não quero saber, desisto
Desta vez é mesmo de vez
Está decidido: resisto
E que todos creiam neste registo
Mesmo assim que terá escrito?

2012.05.09 (vc)
(Cópia integral e devidamente autorizada)

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Resposta

Será que ela já espreitou?
Não dei conta… talvez não
Por onde anda?
Como hei de fazer
Para que da minha decisão
Fique ela a saber?

Nem um pio, nem um ai
Nem atrás da cortina
Nem na frincha da porta
Onde andas, ó menina?

Mesmo assim, que terá escrito?
Fica de atalaia,
E que todos creiam neste registo
É só curiosidade…
Que lhe caia um raio, um corisco

E sem levantar suspeita

Fiel à sua resistência
Chuta a bola
Como quem nada pretende
Porque, havendo resposta
Sempre poderá dizer
Que foi pura inadvertência…

Bem escondidinho, espreita.

 

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2012-05-09 - Desavenças ou a nova fábula dos 2 burros  - Desafios
nn(in)metamorphosis