Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998.
2012-12-29 – Ano Novo
nn(in)metamorphosis
Olha… não me olhes desse modo
como se me soubesses de cor
não tentes ler
o que escondo
és oxigénio em descontrolo
eu faísca no fundo
há em ti coisa
de quimera
como se viesses de outra estação
e isso
encosta-se à espera
e mexe-me com a razão
não me olhes
assim… se te olho
fica tudo por acontecer
entre o que
recua e o arrojo
sem saber como dizer
num silêncio
que não tem nome
nem diz aquilo que consome
fica o resto por nascer
O mistério do
olhar
não mora em quem vê
mas em quem se deixa ficar
cativo
e então
no leve enlevo do instante
abrem-se imagens sem dono
rostos que não acabam
corpos que dançam por dentro da luz
contrastes que sussurram
cheiros que lembram sem nome
pistas soltas no ar
rastos que não querem ir embora
uvas que
brilham sem peso
beijos que não pousam
danças suspensas
como se o mundo respirasse devagar
e tudo isso
sem saber bem onde começa
ou onde
termina
enfim… mil
miragens