A vida é casa alugada
entramos devagar
como quem recebe uma chave
sem conhecer o tempo do contrato
abrimos janelas
arrumamos afectos nas prateleiras
penduramos memórias nas paredes
chamamos nossa
à mesa onde partilhamos o pão
ao quarto onde guardamos os sonhos
ao silêncio que aprende o nosso nome
mas a casa sabe mais do que nós
sabe que nenhuma porta fica para sempre aberta
que nenhuma luz permanece acesa eternamente
que nenhuma presença escapa ao calendário invisível
e ainda assim
plantamos flores no quintal dos dias
consertamos telhas depois das tempestades
rimos nos corredores
choramos junto às paredes
como bons inquilinos
porque viver talvez seja isso
cuidar com ternura do que não nos pertence
amar profundamente o que não podemos possuir
e agradecer a cada amanhecer
por mais uma noite passada
nesta casa alugada que é a vida
***
2026-07-03 – Casa alugada
nn(in)metamorphosis
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