Os dias são feitos de
reflexos
e de sombras que não se dizem
de vidros onde encostamos o rosto
à procura de um nome que seja nosso
São feitos de sonhos
uns leves como o pó na luz da tarde
outros mais pesados, presos na memória
onde o tempo se demora
Há vozes em grupo
passam por nós, atravessam-nos
deixam ecos no silêncio
como se o mundo falasse por dentro
E há o pó que sacudimos
num gesto pequeno
quase invisível
mas que levanta no ar
o que fingimos esquecer
Assim se fazem os dias
de fragmentos, ruído e ausência
de mãos vazias
que ainda procuram luz
06/06/2026
exp
05/06/2026
Mais leve que o mar
de evaporar lágrimas
Guardou o sal no peito
mas deixou a água subir ao céu
Porque há dores
que afundam quem as carrega
e outras
que, devagar
se transformam em vento
Percebeu então
que é mais leve ser nuvem
do que mar
O mar lembra tudo
E talvez crescer seja isso
não deixar de sentir
mas deixar de se afogar
***
nn(n)metamirphosis
03/06/2026
O Azul Inteiro
a lembrança luminosa
das cores
que se reconhece
a alegria esquecida
de um azul inteiro
a chuva demorada
compreende, no silêncio
a felicidade da cor
2026-06-03 - O Azul Inteiro
nn(in)metamorphosis
01/06/2026
Inteira em Partes
sem que falte um pedaço de mim?
ser riso aberto ou dor guardada
posso caber em mil caminhos
e não perder a minha estrada
no que dou e no que fica por dar
em cada olhar que me atravessa
e em tudo o que escolho calar
um lugar fundo, quieto, meu
onde tudo em mim se encontra
e nada do que sou se perdeu
ser muitas
***
29/05/2026
O mal avança no silêncio dos bons
O que sei dos homens
é o peso que deixam no ar
é o grito dos passos duros
e das mãos que aprendem cedo
a fechar-se
que há bons
nunca descobertas
como quem aponta estrelas
num céu que não cessa de arder
onde respiram?
que não levantam o pó da dor?
que não se fazem ouvir?
nos gestos pequenos
da fraternidade
num “já chega”
num olhar que não fere
qual mundo?
que insistem em gritar
em quebrar
em dominar
que tentam
e são calados
que veem
e recuam
que se habituam
porque o dinheiro fala
porque o medo fica
os que fazem a guerra
seguem
mas porque o resto
adormece
nn(in)metamorphosis
27/05/2026
O que a Imaginação vê, o Toque confirma
é porque nele cabem infinitos caminhos
mapas desenhados sem fronteiras
verdades que nascem do sonho
Se a imaginação explica o mundo
é porque pinta o invisível
que dá nome ao silêncio
e cor ao que nunca vimos
Mas o toque…
o toque não explica
revela
O toque explica o amor
como um segredo dito sem voz
como um encontro de pele e destino
onde o tempo abranda
e o corpo entende antes da razão
No toque há certeza
não teoria
Há calor
não hipótese
mesmo quando por fora
quase nada se mostra
Se a imaginação constrói o universo
é o toque que o torna real
que transforma ideia em presença
distância em abrigo
e dois em um instante inteiro
Porque o mundo pode ser sonhado
mas o amor…
o amor precisa ser sentido
***
25/05/2026
Geometria do EU
e deixo que as palavras me empurrem
como vento invisível nas costas
habito vozes que não são minhas
e esqueço por instantes quem fui
e desenho o caminho com as mãos
como quem acende luz no escuro
porque a direção nasce em mim
e o destino aprende o meu nome
nn(in)metamorphosis
22/05/2026
À Espera de Não Esperar
mesmo quando juramos estar em paz total
Porque o cérebro, esse funcionário curioso
nunca assinou contrato para ficar ocioso
Se não esperas o metro
esperas a inspiração
se não esperas o fim
esperas a explicação
se não esperas nada
esperas perceber
quando se consegue não esperar nada a valer
E assim segues
esperas o café arrefecer
o café aquecer
o café decidir o que quer ser
e no meio disso tudo
quase sem dar por isso
ficas à espera
de não estar à espera
(que é, talvez,
a espera mais demorada de todas)
***
nn(in)metamorphosis
20/05/2026
Na maresia do mundo
nem sei ler poesia
Sou gente comum
que escreve o que sente
e sente o mundo na maresia
mesmo quando ninguém repara
num copo de água pousado à pressa
no som leve de passos ao longe
na luz que entra sem pedir licença
fecho os olhos
não para fugir
mas para escutar melhor o mundo
o tempo a respirar devagar
o silêncio a dizer tudo
não algo raro
quando ficamos quietos
o suficiente para sentir
2026-05-20 – Na maresia do mundo
18/05/2026
Entre dois mundos
Entre o céu e a terra
tão fina que não corta
tão leve que não pesa
Não separa o que somos
nem divide o que sentimos
é apenas um lugar
onde tudo se mistura
Ali, o sonho toca o chão
e os passos ganham asas
Ali, o silêncio fala
e o tempo abranda
Somos feitos dessa linha
metade queda, metade voo
com os pés na incerteza
e o olhar no infinito
e
talvez viver seja isso
caminhar sem romper
aprender que entre tudo
não há distância
há encontro
***
nn(in)metamorphosis
15/05/2026
É este o caminho?
É este o caminho?
Sempre que duvidares
dá mais um passo
Não precisas de ver tudo
nem de saber onde vai dar
Basta o chão à tua frente
e a coragem de continuar
É assim, devagar
que o caminho se faz
***
nn(in)metamorphosis
13/05/2026
Assim se fazem os dias
e de sombras que não se dizem
de vidros onde encostamos o rosto
à procura de um nome que seja nosso
São feitos de sonhos
uns leves como o pó na luz da tarde
outros mais pesados, presos na memória
onde o tempo se demora
Há vozes em grupo
passam por nós, atravessam-nos
deixam ecos no silêncio
como se o mundo falasse por dentro
E há o pó que sacudimos
num gesto pequeno
quase invisível
mas que levanta no ar
o que fingimos esquecer
Assim se fazem os dias
de fragmentos, ruído e ausência
de mãos vazias
que ainda procuram luz
***
nn(in)metamorphosis
11/05/2026
Nem Tudo é Perda
Às vezes é só poda
mas não são castigo
São escolhas da vida
para abrir espaço
dói largar o que ainda sentimos
e nem tudo o que cresce pode ficar
e um tempo de deixar ir
talvez não seja o fim
Talvez seja só a vida
a preparar-te para continuar diferente…
nn(in)metamorphosis
09/05/2026
Estações em discussão
Alguém me diz quando o calor chega de vez.
Quando é que deixamos finalmente de sair de casa com um casaco “só para o caso de”. Quando é que as manhãs deixam de enganar e as noites começam a pedir ruas cheias, pele descoberta e janelas abertas até tarde.
As nuvens vestiram-se de cinzento fechado, quase luto, e a temperatura desceu como se o calendário estivesse a brincar connosco.
nn(in)metamorphosis
08/05/2026
Pessoas vêm e vão
algumas ficam mais tempo, outras quase nada
algumas reaparecem depois de sumirem
e nós próprios estamos sempre a alternar entre ser quem chega e quem vai na vida dos outros
umas por algum tempo
outras por muito
outras quase um sopro
partem sem aviso
mas deixam sempre algo
no que somos
fazemos o mesmo
somos passagem breve
na vida de alguém
no gesto que perdura
no que muda sem nome
em vão
ninguém passa
ninguém vem
2026-05-08 – Pessoas vêm e vão
06/05/2026
Onde as palavras não chegam
No fundo, a música não substitui as palavras, ela complementa-as. Vai onde o discurso lógico falha e traduz o que é mais íntimo e difícil de nomear.”
e, de repente, diz tudo
não precisa de tradução
entra directo onde o silêncio mora
mas uma melodia entende
a falar por mim
só som
e mesmo assim
guarda memórias
abraça ausências
acende o que em mim se perdeu
mas se sente
o coração não quer frases
quer só… música
2026-05-06 - Onde as palavras não chegam
04/05/2026
Quando o tempo encontra sentido
O que é uma data
se não se encaixar num horizonte
num sonho, numa memória?
é apenas um número no tempo
um risco no calendário
algo que passa sem deixar eco
mas se encontra lugar em nós
ganha peso e direção
torna-se ponto de partida
ou regresso silencioso
há datas que são quase nada
e outras que ficam
como se o tempo ali tivesse parado
só para ser lembrado
***
nn(in)metamorphosis
03/05/2026
Mãe é trovão e girassol
Mãe é trovão quando a vida aperta
voz firme que rasga o medo e desperta
É sol em silêncio a aquecer devagar
girassol que ensina o caminho a olhar
Nos dias cinzentos é luz que não falha
raiz que segura colo que embala
Entre a força e a ternura sem fim
mãe é o mundo a florir dentro de mim
Mas para mim, todos os dias são teus
***
nn(in)metamorphosis
01/05/2026
Alegria comum não grita... sussurra
Pouco se escreve sobre a alegria quer pelo escrevinhador comum, quer pelos autores de nome gravado a ouro.
· Sophia de Mello Breyner Andresen: luz, mar, ordem simples do mundo.
· Mary Oliver: beleza nas pequenas coisas
Eu não me importo nada de não escrever bem, porque dou muito mais valor ao que me faz sentir bem.
passa leve
como o vapor do café numa manhã qualquer
como o som de roupa estendida ao vento
não pede atenção
não bate à porta
devagarinho
no instante
que ainda assim se estende ao sol
é o pão partido sem pressa
entre mãos que já sabem o caminho
ninguém ergue estátuas ao dia banal
e no entanto
é aqui que a vida persiste
não no grito
mas nesta espécie de respiração tranquila
quase tudo
e só fica
com quem aprende
a baixar o ruído do mundo
o suficiente
para a deixar entrar
nn(in)metamorphosis
29/04/2026
Do lado de lá do silêncio
do lado de lá do silêncio
não havia mistério
nem portas fechadas
apenas o ar
leve
sem o peso das vozes
sem o bulício do mundo
um espaço aberto
onde o pensamento repousa
com o mundo calado
o silêncio não resistiu
desfez-se em fundo
como mar depois da onda
não respondeu
nem mentiu
ficou
como luz sem ruído
como um lugar
onde, por instantes
eu cabia
e soube
não me falta vida
falta-me espaço dentro dela
falta-me não ser só passagem
entre o que sou
e o que esperam de mim
***
nn(in)metamorphosis
27/04/2026
O que não se pode tocar
paredes de ar
tectos de silêncio pousados no peito
com palavras que nunca chegam a ser ditas
com promessas que existem apenas na intenção
como se o invisível tivesse peso
como se o intangível soubesse permanecer
um desvio no olhar
um instante de verdade a atravessar o corpo
cede
não deixa ruínas
onde antes havia a ilusão de forma
***
nn(in)metamorphosis
24/04/2026
Palavras não ditas
Gosto de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e, ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade tolhe-as e faz com que definhem lentamente.
Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.
Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.
Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.
Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.
***
nn(in)metamorphosis
22/04/2026
Entre o Fomos e o Somos
pelos campos leves da mocidade
onde o tempo corria sem peso
trazendo tardes sem fim
e risos soltos ao vento
já com passos mais lentos
e olhos cansados de distância
nem volta quando chamada
nem se deixa prender em lembrança
entre o que fomos e o que somos
um clarão breve que insiste em arder
nn(in)metamorphosis
20/04/2026
17/04/2026
Metamorphose das Estações
como a terra fria espera a semente
em silêncio guardo o sonho desperto
num coração que abriga o ausente
folha caída, pensamento lento
e no Inverno sou quase jardim
adormecido no frio do tempo
onde a luz é memória distante
e os sonhos, embora ocultos
respiram num ritmo constante
e o sol me chama pelo nome
rasgo o casulo que fiz de mim
e renasço do que em mim se consome
num voo que já não teme o ar
sou borboleta de Primavera
pronta, de novo, para sonhar
2026-04-17 – Metamorphose das Estações
15/04/2026
Ainda há terra boa
e deixar raízes profundas
mesmo quando o mundo se perde
mesmo quando se mata por ganância
mesmo assim
ainda há terra boa entre nós
ainda há espaço para cuidar
olha as árvores
não lutam pelo céu
e mesmo assim crescem
Há qualquer coisa em nós
que não quer desistir
que ainda sabe ser luz
podemos ficar
escolher diferente
ser mais simples
talvez seja isso que importa
a vontade quieta
de ficar
de cuidar
de não ferir
e se ficarmos
se cuidarmos
mesmo quando tudo parece perdido
então
ainda há esperança
ainda há raízes profundas
***
nn(in)metamorphosis
13/04/2026
Viver entre o que explode e o que permanece
de trovões que não avisam
de chuvas que chegam sem licença
em que tudo nele é excesso
vento, febre, impulso
um verão que não sabe ser brisa
clara como um céu que nunca cede
reta, metódica
conta os passos da tempestade
como quem observa por uma janela fechada
nomeia, organiza, explica
enquanto o corpo desmancha
em água e relâmpago
metade caos que sente
metade lucidez que assiste
mas respirar
no intervalo
entre o que explode
e o que permanece
nn(in)metamorphosis
10/04/2026
Em viés
com curiosidade nos olhos
e travessura no coração
acreditar no acaso
abrir portas
que estavam quietas
sou um perigo leve
***
nn(in)metamorphosis
08/04/2026
O que trago nos passos
Onde anda esse espelho
que tanto te transporta
para os meus sonhos?
Procuro-o no pó vermelho
que ainda trago nos passos
no calor antigo do vento
que me chama pelo nome
Talvez esteja perdido
entre ruas que já não piso
ou guardado no abraço largo
de uma terra que não esqueço
Há noites em que te encontro
no cheiro da chuva quente
no silêncio cheio de vida
que só eu sei traduzir
E então percebo
o espelho não se partiu
nem ficou para trás
Trago-o comigo
É nele que te revejo
terra distante e inteira
quando a saudade me deita
dentro dos teus braços
***
nn(in) metamorphosis