Vivo bem com a solitude. Gosto da minha própria companhia e não tenho medo de estar sozinha. Tenho pessoas à minha volta e nunca me faltou afecto. Ainda assim, muitas vezes sinto que estou num lugar diferente da maioria das pessoas.
Sou uma alma esquisita: social e pouco, ou mesmo muito pouco, sociável. Claro que gosto de pessoas, de conversar, de partilhar momentos e de estar com quem me diz alguma coisa. O que me deixa piursa são as formalidades, as conversas de circunstância e os encontros em que parece que toda a gente está a cumprir um papel.
Essas situações cansam-me. Muitas vezes vou só para evitar as dezenas de telefonemas e mensagens a perguntarem se estou bem, porque estou renitente em ir, que posso falar à vontade, que estão lá para mim. Uma canseira.
Acabo por ir, voluntária à força. Pouco depois de chegar, após os beijos e abraços, dos "estás gorda", "estás magra", "que é feito de ti?", desligo.
E o tempo vai passando, com as mesmas conversas do último encontro, que acabam por seguir caminhos que não me interessam. Não raras vezes, alguém sai e, sem grande esforço, a conversa muda de rumo e passa a ser sobre essa pessoa. Quase nunca para a elogiar.
Nesses momentos percebo que sou social, mas não muito sociável. Gosto de pessoas, mas gosto delas de forma genuína. Prefiro uma conversa sincera a horas de conversa vazia. Prefiro a autenticidade às aparências. Não tenho jeito para fingimentos nem paciência para jogos sociais. Talvez por isso me sinta tantas vezes deslocada em ambientes onde toda a gente parece saber exactamente o que dizer e como agir.
Talvez seja por isso que aprecie tanto a solitude. Não a vejo como isolamento nem como tristeza. Vejo-a como um lugar de conforto, onde não preciso de fingir, concordar por educação ou encaixar em expectativas que não são minhas. Gosto de estar com pessoas, mas também gosto de regressar a mim.
E a verdade é que não me sinto sozinha quando estou sozinha. Sinto-me tranquila. Porque, no fim de contas, a minha companhia chega-me mais vezes do que muita gente imagina.
A minha mãe sempre disse que: Família e amigos são óptimos de visita, e nessas alturas é uma alegria recebê-los, mas devem viver a pelo menos cinco ruas abaixo ou cinco ruas acima.
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nn(in)metamorphosis