É este o caminho?
Sempre que duvidares
dá mais um passo
Não precisas de ver tudo
nem de saber onde vai dar
Basta o chão à tua frente
e a coragem de continuar
É assim, devagar
que o caminho se faz
***
nn(in)metamorphosis
É este o caminho?
Sempre que duvidares
dá mais um passo
Não precisas de ver tudo
nem de saber onde vai dar
Basta o chão à tua frente
e a coragem de continuar
É assim, devagar
que o caminho se faz
***
No fundo, a música não substitui as palavras, ela complementa-as. Vai onde o discurso lógico falha e traduz o que é mais íntimo e difícil de nomear.”
Mãe é trovão quando a vida aperta
voz firme que rasga o medo e desperta
É sol em silêncio a aquecer devagar
girassol que ensina o caminho a olhar
Nos dias cinzentos é luz que não falha
raiz que segura colo que embala
Entre a força e a ternura sem fim
mãe é o mundo a florir dentro de mim
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***
Onde anda esse espelho
que tanto te transporta
para os meus sonhos?
Procuro-o no pó vermelho
que ainda trago nos passos
no calor antigo do vento
que me chama pelo nome
Talvez esteja perdido
entre ruas que já não piso
ou guardado no abraço largo
de uma terra que não esqueço
Há noites em que te encontro
no cheiro da chuva quente
no silêncio cheio de vida
que só eu sei traduzir
E então percebo
o espelho não se partiu
nem ficou para trás
Trago-o comigo
É nele que te revejo
terra distante e inteira
quando a saudade me deita
dentro dos teus braços
***
***
nasce do que não
se diz
do que pesa mais do que o próprio som
É chama contida na
raiz da voz
eco profundo de um sentir antigo
que sobe lento, quase secreto
até tocar a superfície do dizer
e quando enfim se
revela
não vem como luz, mas como rasto
um sopro quente que fere e apaga
deixando apenas cinza e memória
mas arde, arde
sempre
no subsolo de cada palavra
***
Imagem gerada por IA
A memória, essa ferramenta extraordinária, acompanha-nos de forma silenciosa, mas decisiva, ao longo da vida. É nela que se inscrevem as experiências, os afectos e os acontecimentos que, pouco a pouco, vão dando forma àquilo que somos. Sem memória, faltar-nos-ia essa continuidade que liga o passado ao presente e que sustenta a nossa identidade.
Ainda
assim, a memória está longe de ser um registo rigoroso. Mais do que guardar,
ela reconstrói. As lembranças são frequentemente moldadas pelo tempo, pelas
emoções e pelas circunstâncias em que são evocadas. Recordar não é apenas
recuperar o que foi vivido, mas também reinterpretá-lo à luz do que somos hoje.
Apesar dessa imperfeição, a memória mantém um papel essencial. É através dela que aprendemos, que reconhecemos padrões, que estabelecemos relações e que atribuímos significado ao que vivemos. Sem ela, a experiência perderia profundidade e tornar-se-ia fragmentada.
Talvez seja precisamente nessa dualidade (entre fidelidade e reconstrução) que reside o seu carácter extraordinário. A memória não é apenas um arquivo do passado; é uma força ativa que participa, de forma contínua, na construção de quem somos.
***
Gosto de rotinas. Gosto de saber como
começa o dia, dos pequenos gestos que se repetem e que, sem dar por isso, me
organizam por dentro. Há uma tranquilidade nisso, quase como um chão firme onde
posso pousar os dias.
Talvez seja por isso que os imprevistos
ganham outra força. Quando algo muda, quando há um desvio, sinto-o com mais
intensidade. Nem sempre são bons; às vezes desarrumam, pesam, ficam de um modo
que não faz rir. Mas ficam - e isso também diz qualquer coisa sobre o dia.
Gosto de rotinas porque me dão medida. É
essa medida que faz com que tudo o que a interrompe, leve ou difícil, não passe
despercebido. No fim, são esses dias, aqueles que não sabem a ontem, que mais
se guardam.
***
***
Se
não nos permitirmos sonhar
como se vive o amor?
Se
calhar aos bocadinhos
sem jeito e sem saber
com medo de dar demais
ou de ficar a perder
Amar
não tem grande ciência
é sentir sem explicar
é rir sem ter razão
e às vezes até chorar
Sem
sonho, fica mais frio
mais quieto, mais sozinho
como quem anda na vida
mas nunca sai do caminho
Por
isso, sonhar é preciso
mesmo quando custa ver
porque só sonha quem ousa
verdadeiramente amar e viver
***
***
Busca origem, mesmo tendo um lugar onde
voltar
uma casa que a acolhe, mas não lhe dá
um nome para o vazio que não sabe de onde vem
Guarda descanso nos gestos pequenos
no silêncio entre duas palavras
como se ali houvesse algo que lhe escapa
Procura sentido sem saber o que procura
como quem caminha por dentro de si
à espera que alguma coisa responda
E no meio de tudo isto, fica
nem perdida, nem encontrada
a tentar escutar o que em si ainda não tem voz
A aprender a ser, onde está
***
Já paraste para analisar
a improbabilidade
da nossa existência?
Somos pó que aprendeu a olhar o céu
silêncio que se fez palavra
um breve clarão entre dois infinitos
a que chamamos vida
E, no ntanto, aqui estamos
a tropeçar em dias comuns
a esquecer o milagre discreto
de cada batida do coração
Há universos no gesto simples
de tocar, rir, sentir saudade
Há uma eternidade escondida
no agora que quase deixamos passar
Talvez existir seja isto
um espanto que se repete
um improvável que floresce
mesmo quando não reparamos
E ainda assim
contra todas as probabilidades
somos
***