A poesia é um grão de areia na minha meia
mínimo incómodo de praia esquecida
um quase nada que desarruma o passo
e obriga o corpo a lembrar-se da vida
Caminho
e ela insiste
Pequena, áspera, secreta
a raspar devagar a pele do pensamento
como quem afia silêncio numa navalha
Há dias em que a sacudo do sapato
e juro seguir leve, prática, inteira
mas ao primeiro cruzamento do vento
já sinto outra vez o seu peso minúsculo
essa migalha de mundo
presa entre o calcanhar e o destino
A poesia não salva
não paga contas nem abriga da chuva
Mas entra sem pedir licença
e transforma a marcha mais banal
numa lenta aprendizagem da ternura
Porque um grão de areia
é só um grão de areia
até ferir
Depois disso
já nenhuma caminhada é inocente
***
nn(in)metamorphosis