E a Cristin passou.
Passou e levou quase tudo na mala, incluindo a nossa paz.
Aqui estamos, nós e as lonas improvisadas, a tentar convence-las que as telhas querem voltar para os braços do telhado, mas as lonas (cabras) abanam a cabeça e enfunam, ameaçando ir d'asa, só para nos provocar.
Enquanto as paredes murmuram segredos em forma de goteiras, e a tinta, toda vaidosa, desfila em tons de mofo como se fosse desfile de Carnaval.
Os pavimentos de madeira decidiram tornar-se pranchas nos lagos em que se tornaram as placas que os suportavam.
O mobiliário? Pobrezinho, grita por socorro, roda os olhos e prepara-se para uma revolta silenciosa, como se fosse um exército secreto de cadeiras e mesas.
Na guerra dos orçamentos, onde cada telefonema é uma oração - que atenda, desta vez, um que atenda: e se tivermos sorte. Pagámos metade do orçamento, e temos que esticar a paciência, é que depois do pagamento a espera pode superar as quatro semanas, para chegar o material. Depois... Subir em placas molhadas tornou-se desporto radical. Ou seja, lá para Abril, talvez, e só talvez, volte a dormir no meu quarto. Consiga sentar-me no sofá da sala, ouvir música, ler, até passar pelas brasas.
Entretanto faço fintas entre os móveis arrastados para fora das divisões e separados das paredes.
Os seguros? Ah, esses fazem ginástica para não pagar muito, a saltitar de um lado para o outro como se fossem acrobatas de circo.
E eu? Ah, eu já chego a cheirar a mofo até no cabelo.
Cada vez que um ventinho sopra, a casa murmura e o que resta do telhado abanica em desaprovação, eu só quero boiar sem me afogar.
Mas olhem: apesar de tudo, cá estou, com a capa de super-heroína rasgada, as galochas furadas, a rir do absurdo e a esperar que, um dia, a casa também decida recompor-se…