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08/06/2026

Arquitectura de um beijo

 




Eu não sabia que um beijo
podia ter arquitectura
levantar catedrais
no meio da amargura

Nem que uns dedos tão breves
soubessem abrir caminhos
como quem acende lume
no inverno dos sentidos

Eu não sabia do corpo
a secreta engenharia
pontes feitas de silêncio
e janelas de alegria

Nem que a tua boca ao perto
tivesse marés e vento
e pudesse desfazer
o frio do pensamento

Agora sei há cidades
que nascem num só abraço
e há ruínas que regressam
pedra a pedra
passo a passo

Porque um beijo quando é puro
não pede nome nem jura
ergue no peito dos homens
uma impossível ternura

 

***

2026-06-08 - Arquitectura de um beijo 
nn(in)metamorphosis


05/06/2026

Mais leve que o mar

 


Aprendeu a arte
de evaporar lágrimas
 
Guardou o sal no peito
mas deixou a água subir ao céu
 
Porque há dores
que afundam quem as carrega
e outras
que, devagar
se transformam em vento
 
Percebeu então
que é mais leve ser nuvem
do que mar
 
O mar lembra tudo
A nuvem aprende a passar
 
E talvez crescer seja isso
não deixar de sentir
mas deixar de se afogar

 

 

***

2026-06-05 – Mais leve que o mar 
nn(n)metamirphosis

03/06/2026

O Azul Inteiro

 



São os dias cinzentos
que ensinam
a lembrança luminosa
das cores
 
É no céu baço
que se reconhece
a alegria esquecida
de um azul inteiro
 
Porque só quem atravessa
a chuva demorada
compreende, no silêncio
a felicidade da cor

  

***

2026-06-03 - O Azul Inteiro 
nn(in)metamorphosis

01/06/2026

Inteira em Partes


Em quantas partes me posso dividir
sem que falte um pedaço de mim?
 
Sou inteira… em partes sem fim
 
Posso ser filha, amiga, silêncio
ser riso aberto ou dor guardada
posso caber em mil caminhos
e não perder a minha estrada
 
Divido-me no tempo e nos gestos
no que dou e no que fica por dar
em cada olhar que me atravessa
e em tudo o que escolho calar
 
Mas há um centro que não se parte
um lugar fundo, quieto, meu
onde tudo em mim se encontra
e nada do que sou se perdeu
 
Talvez dividir-me seja isso
 
espalhar luz sem a apagar
ser muitas no que entrego ao mundo
 
e uma só no que insiste em ficar

 

***

2026-06-01 - Inteira em Partes
nn(in)metamorphosis 


29/05/2026

O mal avança no silêncio dos bons

 




O que sei dos homens
é o peso que deixam no ar
é o grito dos passos duros
e das mãos que aprendem cedo
a fechar-se
 
Dizem-me
que há bons
 
Como quem fala de ilhas
nunca descobertas
como quem aponta estrelas
num céu que não cessa de arder
 
Se os há
onde respiram?
 
Em que ruas andam
que não levantam o pó da dor?
 
Que palavras usam
que não se fazem ouvir?
 
Procuro-os no silêncio
nos gestos pequenos
da fraternidade
num “já chega”
num olhar que não fere
 
Mas o mundo…
qual mundo?
 
Uns quantos
que insistem em gritar
em quebrar
em dominar
 
e outros
que tentam
e são calados
 
e outros
que veem
e recuam
 
e outros ainda
que se habituam
 
porque o peso é maior
porque o dinheiro fala
porque o medo fica
 
E assim
os que fazem a guerra
seguem
 
sem tropeço
 
não porque sejam mais
mas porque o resto
adormece

 
***

2026-05-29 - O mal avança no silêncio dos bons 
nn(in)metamorphosis


27/05/2026

O que a Imaginação vê, o Toque confirma

 


Se a imaginação explica o mundo
é porque nele cabem infinitos caminhos
mapas desenhados sem fronteiras
verdades que nascem do sonho
 
Se a imaginação explica o mundo
é porque pinta o invisível
que dá nome ao silêncio
e cor ao que nunca vimos
 
Mas o toque…
o toque não explica
revela
 
O toque explica o amor
como um segredo dito sem voz
como um encontro de pele e destino
onde o tempo abranda
e o corpo entende antes da razão
 
No toque há certeza
não teoria
 
Há calor
não hipótese
 
mesmo quando por fora
quase nada se mostra
 
Se a imaginação constrói o universo
é o toque que o torna real
 
que transforma ideia em presença
distância em abrigo
e dois em um instante inteiro
 
Porque o mundo pode ser sonhado
 
mas o amor…
o amor precisa ser sentido

 
***
 2026-05-27 - O que a imaginação vê, o toque confirma 
nn(in)metamorphosis

25/05/2026

Geometria do EU




Se leio desprendo-me do peso do corpo
e deixo que as palavras me empurrem
como vento invisível nas costas

 atravesso ruas que nunca pisei
habito vozes que não são minhas
e esqueço por instantes quem fui
 
Mas se escrevo abro a porta por dentro
e desenho o caminho com as mãos
como quem acende luz no escuro
 
vou onde quero sem mapa nem medo
porque a direção nasce em mim
e o destino aprende o meu nome


Frase Base
 "Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero."
do blog  A voz à solta
Uso devidamente autorizado


 
***
2026-05-25 – Geometria do Eu
nn(in)metamorphosis 

22/05/2026

À Espera de Não Esperar

 



Há sempre qualquer coisa à nossa espera
mesmo quando juramos estar em paz total
 
Porque o cérebro, esse funcionário curioso
nunca assinou contrato para ficar ocioso
 
Se não esperas o metro
esperas a inspiração
 
se não esperas o fim
esperas a explicação
 
se não esperas nada
esperas perceber
quando se consegue não esperar nada a valer
 
E assim segues
 
esperas o café arrefecer
o café aquecer
o café decidir o que quer ser
 
e no meio disso tudo
quase sem dar por isso
 
ficas à espera
de não estar à espera
 
(que é, talvez,
a espera mais demorada de todas)
 
***
2026-05-22 - À Espera de Não Esperar
nn(in)metamorphosis 


20/05/2026

Na maresia do mundo

 


Não sou poeta
nem sei ler poesia
 
Sou gente comum
que escreve o que sente
e sente o mundo na maresia
 
Todos os dias têm poesia
mesmo quando ninguém repara
 
ela esconde-se nas coisas pequenas
num copo de água pousado à pressa
no som leve de passos ao longe
na luz que entra sem pedir licença
 
Quando não a vejo
fecho os olhos
não para fugir
mas para escutar melhor o mundo
 
E então sinto
 
o vento a dançar sem corpo
o tempo a respirar devagar
o silêncio a dizer tudo
 
Talvez a poesia seja isso
não algo raro
 
mas algo que só aparece
quando ficamos quietos
o suficiente para sentir


***
2026-05-20 – Na maresia do mundo 
nn(in)metamorphosis

18/05/2026

Entre dois mundos

 



Entre o céu e a terra
há uma linha invisível
tão fina que não corta
tão leve que não pesa
 
Não separa o que somos
nem divide o que sentimos
é apenas um lugar
onde tudo se mistura
 
Ali, o sonho toca o chão
e os passos ganham asas
 
Ali, o silêncio fala
e o tempo abranda
 
Somos feitos dessa linha
metade queda, metade voo
com os pés na incerteza
e o olhar no infinito
 
e
 talvez viver seja isso
 
caminhar sem romper
aprender que entre tudo
não há distância
há encontro

 

***
2026-05-18 – Entre dois mundos 
nn(in)metamorphosis


15/05/2026

É este o caminho?

 


É este o caminho?
 
Sempre que duvidares
dá mais um passo
 
Não precisas de ver tudo
nem de saber onde vai dar
 
Basta o chão à tua frente
e a coragem de continuar
 
É assim, devagar
que o caminho se faz

  

***
2026-05-15 – É este o caminho?
nn(in)metamorphosis


13/05/2026

Assim se fazem os dias

 




Os dias são feitos de reflexos
e de sombras que não se dizem
de vidros onde encostamos o rosto
à procura de um nome que seja nosso
 
São feitos de sonhos
uns leves como o pó na luz da tarde
outros mais pesados, presos na memória
onde o tempo se demora
 
Há vozes em grupo
passam por nós, atravessam-nos
deixam ecos no silêncio
como se o mundo falasse por dentro
 
E há o pó que sacudimos
num gesto pequeno
quase invisível
mas que levanta no ar
o que fingimos esquecer
 
Assim se fazem os dias
de fragmentos, ruído e ausência
de mãos vazias
que ainda procuram luz

 

***

2026-05-13 - Assim se fazem os dias
nn(in)metamorphosis 


11/05/2026

Nem Tudo é Perda

 




Nem tudo o que dói é perda
Às vezes é só poda
 
Há cortes que custam
mas não são castigo
São escolhas da vida
para abrir espaço
 
Dói ver cair o que era nosso
dói largar o que ainda sentimos
Mas nem tudo o que fica parado cresce
e nem tudo o que cresce pode ficar
 
Há um tempo de segurar
e um tempo de deixar ir
 
E nenhum deles é fácil
 
Por isso, quando doer
talvez não seja o fim
Talvez seja só a vida
a preparar-te para continuar diferente…

 

 
***
2026-05-11- Nem Tudo é Perda 
nn(in)metamorphosis

09/05/2026

Estações em discussão


Alguém me diz quando o calor chega de vez.
Quando é que deixamos finalmente de sair de casa com um casaco “só para o caso de”. Quando é que as manhãs deixam de enganar e as noites começam a pedir ruas cheias, pele descoberta e janelas abertas até tarde.
 
Quando é que os casacos voltam ao roupeiro para descansar, como soldados cansados depois de uma longa batalha contra o vento e a chuva. Encostados, silenciosos, como quem ainda não acredita que a guerra acabou.
 
Porque hoje o céu chorou como se lhe tivesse morrido a família toda de uma vez.
As nuvens vestiram-se de cinzento fechado, quase luto, e a temperatura desceu como se o calendário estivesse a brincar connosco.
 
A primavera aparece e desaparece, sem estabilidade. Toca ao verão, mas ainda não entra.
 
Os vestidos de algodão continuam à espera. As sandálias também. E até nós vamos ficando atentos a qualquer brecha de luz, a qualquer promessa de calor que ainda não se cumpre.
 
Não nos bastava o mundo ao estalo, faltava-nos também estações em discussão.
 
Só espero que um dia, sem aviso, o verão ganhe.

 

 
***
2026-06-09 - Estações em discussão 
nn(in)metamorphosis

08/05/2026

Pessoas vêm e vão

 




Umas chegam enquanto outras partem
algumas ficam mais tempo, outras quase nada
algumas reaparecem depois de sumirem
e nós próprios estamos sempre a alternar entre ser quem chega e quem vai na vida dos outros
  
Pessoas vão e vêm
umas por algum tempo
outras por muito
outras quase um sopro
 
Chegam sem anúncio
partem sem aviso
mas deixam sempre algo
no que somos
 
E nós, distraídos
fazemos o mesmo
somos passagem breve
na vida de alguém
 
Ficamos no detalhe
no gesto que perdura
no que muda sem nome
 
Porque no fim
em vão

ninguém passa
ninguém vem

 
***
2026-05-08 – Pessoas vêm e vão 
nn(in)metamorphosis


06/05/2026

Onde as palavras não chegam

 


“A música tem um poder expressivo que vai além da linguagem verbal. Há experiências, emoções complexas, memórias difusas, estados de espírito, que simplesmente não cabem em palavras. A música entra exatamente nesse espaço.
No fundo, a música não substitui as palavras, ela complementa-as. Vai onde o discurso lógico falha e traduz o que é mais íntimo e difícil de nomear.”

 



A música chega devagar
como quem não quer dizer nada
e, de repente, diz tudo
 
Não pede palavras
não precisa de tradução
entra directo onde o silêncio mora
 
Há dias em que nem eu me entendo
mas uma melodia entende
 
Fica ali,
a falar por mim
 
Sem letra, sem voz
só som
e mesmo assim
guarda memórias
abraça ausências
acende o que em mim se perdeu
 
Gosto disso
 
do que não se explica
mas se sente
 
Porque às vezes
o coração não quer frases
quer só… música


 
***
2026-05-06 - Onde as palavras não chegam 
nn(in)metamorphosis
 

04/05/2026

Quando o tempo encontra sentido

 



O que é uma data
se não se encaixar num horizonte
num sonho, numa memória?
 
é apenas um número no tempo
um risco no calendário
algo que passa sem deixar eco
 
mas se encontra lugar em nós
ganha peso e direção
torna-se ponto de partida
ou regresso silencioso
 
há datas que são quase nada
e outras que ficam
como se o tempo ali tivesse parado
só para ser lembrado
 

***
2026-05-04 - Quando o tempo encontra sentido 
nn(in)metamorphosis


03/05/2026

Mãe é trovão e girassol

 


Mãe é trovão quando a vida aperta
voz firme que rasga o medo e desperta
É sol em silêncio a aquecer devagar
girassol que ensina o caminho a olhar
 
Nos dias cinzentos é luz que não falha
raiz que segura colo que embala
Entre a força e a ternura, sem fim

mãe é o mundo a florir dentro de mim


 

***

2026-05-03 – Mãe é trovão e girassol
nn(in)metamorphosis 


01/05/2026

Alegria comum não grita... sussurra

 

Pouco se escreve sobre a alegria quer pelo escrevinhador comum, quer pelos autores de nome gravado a ouro.
 
Procurei e encontrei uns pouquinhos como:
 
Alberto Caeiro: aceitação tranquila da vida como ela é.
Sophia de Mello Breyner Andresen: luz, mar, ordem simples do mundo.
 
e uns completamente desconhecidos para mim
 
Walt Whitman: entusiasmo vital, corpo, natureza
Mary Oliver: beleza nas pequenas coisas
  
“A alegria simples é, paradoxalmente, uma das coisas mais difíceis de escrever bem.”
 
Conclusão:
Eu não me importo nada de não escrever bem, porque dou muito mais valor ao que me faz sentir bem.
 
Alegria comum não grita… sussurra
 
e é por isso que poucos a ouvem
passa leve
como o vapor do café numa manhã qualquer
como o som de roupa estendida ao vento
 
chega sem fanfarra
não pede atenção
não bate à porta
 
encosta-se
devagarinho
no instante
 
é um corpo cansado
que ainda assim se estende ao sol
é o pão partido sem pressa
entre mãos que já sabem o caminho
 
ninguém escreve grandes epopeias sobre isto
ninguém ergue estátuas ao dia banal
e no entanto
é aqui que a vida persiste
 
não no auge
não no grito
mas nesta espécie de respiração tranquila
 
quase nada
quase tudo
 
a alegria comum não grita… sussurra
e só fica
com quem aprende
a baixar o ruído do mundo
o suficiente
para a deixar entrar

 

***
2026-05-01 - Alegria comum não grita… sussurra 
nn(in)metamorphosis


29/04/2026

Do lado de lá do silêncio

 




Ganhei coragem
e fui à procura dos vazios
do lado de lá do silêncio
 
não havia mistério
nem portas fechadas
apenas o ar
leve
sem o peso das vozes
sem o bulício do mundo
 
um espaço aberto
onde o pensamento repousa
 
com o mundo calado
o silêncio não resistiu
desfez-se em fundo
como mar depois da onda
 
não respondeu
nem mentiu
 
ficou
como luz sem ruído
como um lugar
onde, por instantes
eu cabia
 
e soube
 
não me falta vida
falta-me espaço dentro dela
 
falta-me não ser só passagem
entre o que sou
e o que esperam de mim
 

 ***

2026-04-29 - Do lado de lá do silêncio 
nn(in)metamorphosis


27/04/2026

O que não se pode tocar

 



Há coisas que se erguem na mente
paredes de ar
tectos de silêncio pousados no peito
 
constroem-se com gestos suspensos
com palavras que nunca chegam a ser ditas
com promessas que existem apenas na intenção
 
e tudo parece firme
como se o invisível tivesse peso
como se o intangível soubesse permanecer
 
mas basta um sopro de lucidez
um desvio no olhar
um instante de verdade a atravessar o corpo
 
e aquilo que nunca teve matéria
cede
 
não faz ruído ao cair
não deixa ruínas
 
apenas um vazio mais nítido
onde antes havia a ilusão de forma

  

***

2026-04-27 – O que não se pode tocar – Llunar
nn(in)metamorphosis