Gosto
de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos
vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas
tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais
calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés
bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem
tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e,
ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam
pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já
nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade
tolhe-as e faz com que definhem lentamente.
Na
mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que,
por alguma razão, não conseguem dizer.
Escutar
torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por
dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo
impede o passo seguinte e o resultado não é bom.
Penso
nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser
dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se,
transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.
Aquilo
que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz
ouvir.
***
2026-04-24 – Palavras não
ditas
nn(in)metamorphosis