Sem saber
se a luz é bênção
ou castigo
E talvez
a tristeza do mundo
seja apenas isto
Brilhar demais
ou não ter
quem nos aqueça
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nn(in)metamorphosis
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Somos manhã que passa
ligeira
vento leve numa janela
aberta
um riso perdido na rua
um abraço que fica na
memória
Somos passos curtos no
mundo
dias cheios de pressa e
silêncio
corações a aprender
devagar
o peso e a beleza de
existir
Nada volta exactamente
igual
nem a chuva
nem o verão
nem os olhos de quem
amamos
Por isso vive
com verdade no peito
com calma nas mãos
e luz nas palavras
Porque somos uma única
vez na vida
e cada instante
mesmo pequeno
é infinito enquanto
acontece
Há
verdades que não precisam de muitas explicações, pois fazem parte da
experiência pessoal de cada um de nós que já se arrependeu de ter falado
demais.
O silêncio, muitas vezes conectado com aceitação, cobardia, falta de voz, mas ele é bem mais do que isso, é presença de prudência, reflexão e consciência. Nele, guardamos o que nosso coração ainda não sabe expressar sem se comprometer, é protecção da nossa personalidade contra a precipitação que muitas vezes nos leva ao arrependimento.
Quando somos donos do nosso próprio silêncio, exercemos controle sobre nós mesmos, e temos a liberdade de escolher o momento certo para cada palavra.
Por outro lado, quando nos tornamos escravos das palavras, deixamos que a impulsividade nos domine, permitindo que o momento governe a razão, sem considerar as consequências que podem surgir.
Quantos problemas surgem de uma frase dita sem reflexão, de um desabafo que não passou por análise cuidadosa?
Portanto, o silêncio revela-se não como uma fraqueza, mas como uma forma de sabedoria. É nele que amadurecemos os nossos pensamentos, clarificamos as nossas intenções e fortalecemos a nossa dignidade pessoal.
Vivemos num tempo marcado pela pressa, pelo já, pela exposição constante e
pela necessidade quase compulsiva de opinar sobre tudo. Todavia, enquanto a
tecnologia avança e torna as pessoas cada vez mais interligadas, algo essencial
parece enfraquecer silenciosamente, a capacidade de sentir a dor do outro como
algo que também nos pertence.
A empatia, que sempre sustentou os laços humanos, começa a ser substituída pela indiferença, pelo julgamento imediato e pela banalização do sofrimento.
Quando uma sociedade perde a sensibilidade perante a fome, a violência, a
desigualdade ou a solidão alheia, inicia-se um perigoso processo de
desumanização.
A barbárie não surge apenas em guerras ou regimes violentos. Nasce, demasiadas
vezes, nos pequenos gestos de desprezo, no silêncio perante a injustiça e na
incapacidade de reconhecer humanidade a quem pensa, vive ou sofre de forma
diferente.
Uma cultura sem empatia transforma pessoas em números, dores em estatísticas e
vidas em objectos descartáveis.
A ausência de empatia mina as relações humanas. As pessoas passam a escutar menos, a compreender menos e a atacar mais. O diálogo desaparece, dando lugar à intolerância. Em vez de pontes, erguemos muros emocionais e sociais. Pouco a pouco, uma frieza colectiva torna normal o egoísmo, fragiliza valores basilares como a solidariedade, a compaixão e o respeito.
Talvez o verdadeiro progresso não esteja só nas conquistas materiais ou
tecnológicas, mas na capacidade de permanecermos humanos no meio do caos. Uma
civilização não se deveria medir apenas pelo que constrói, mas sobretudo pela
forma como trata aqueles que mais necessitam de cuidado, escuta e dignidade.
Vejo sorrisos
que brilham para mim
sem obrigação nenhuma
ficam pouco
tempo
mas deixam sempre qualquer coisa
como luz acesa depois de alguém sair
vejo olhares
que dizem tudo
sem precisarem de falar
ficam
suspensos no ar
mais uns segundos
como se o tempo ali
não tivesse pressa nenhuma
e eu guardo esses instantes
sem saber bem porquê
talvez porque há pessoas
que passam devagar na nossa vida
e mesmo assim
ficam para sempre
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Eu não sabia que um beijo
podia ter arquitectura
levantar catedrais
no meio da amargura
Nem que uns dedos tão breves
soubessem abrir caminhos
como quem acende lume
no inverno dos sentidos
Eu não sabia do corpo
a secreta engenharia
pontes feitas de silêncio
e janelas de alegria
Nem que a tua boca ao perto
tivesse marés e vento
e pudesse desfazer
o frio do pensamento
Agora sei há cidades
que nascem num só abraço
e há ruínas que regressam
pedra a pedra
passo a passo
Porque um beijo quando é puro
não pede nome nem jura
ergue no peito dos homens
uma impossível ternura
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