NÃO!

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05/09/2019

Miradouro da Lua



Poucos países no mundo têm um pedacinho do chão de Lua só para si.

Miradouro da Lua
A poucos quilómetros, a sul, de Luanda

É um lugar absolutamente incrível, onde a chuva e o vento transformaram as falésias em paisagem lunar, ali, mesmo em frente ao oceano.

Escultura natural
  Paredes de areia e argila

Esculpidas em forma de estalagmites, verdadeiras torres de vigia com formas desconhecidas.


Eu vi, e o assombro, continua intacto.


***
2019-09-04
nn(in)metamorphosis

10/06/2018

10 de Junho


Foi num 10 de Junho, que desembarquei no porto de Luanda, 



trocando o chão seguro do Infante D. Henrique, por um caminhar inseguro, um aperto no peito, um choro contido, a raiva de uma jovem que se sentia traída, desenraizada. Nem a visão do pai esperando-nos com um sorriso de encantamento, me sossegou. Iniciava-se, ali, uma aventura que não tinha pedido. O pai, como que adivinhando o que me ia na alma, abraçou-me e disse-me: É a primeira impressão, mas eu sei que daqui a uns dias, já descobriste tudo e vais gostar, e depois estamos todos juntos de novo, isso não é bom? E jovem pespineta lá ia dar razão? E que não, e que assim e que assado mas, havia os manos que também queriam a atenção do pai e a coisa ficou por ali.
Ao contrário do dia de hoje, aquele 10 de Junho era de sol radiante, um montão de graus que, na altura, em não saberia quantificar mas, que era bom era, mas não disse isso a ninguém, está bom de ver.  E lá fomos, levados à ilha, comer um gelado, antes de seguirmos para casa. E o tempo passou, os primeiros dias não foram fáceis mas, quando deixei a casmurrice, abri os olhos e o coração, apaixonei-me pela primeira vez na minha vida e, tenho a certeza, que poucas paixões vivem tantos anos, sobrevivendo à distância e ao tempo que passa. 
Um dia alguém me disse " espera só minina até beberes água do Bengo"  - Eu bebi e entendi. 
É algo como, quem passa por Alcobaça, não passa sem lá voltar, ou - primeiro estranha-se e depois entranha-se.

Regressei num dia como o de hoje, branco, num Maio chuvoso e frio


Risca aí no terreiro
si tu sabe  :-)





*****
2018-06-10
nn(9n)metamorphosis



12/09/2017

É sempre tão bom ver-te

Mulher Mucubal



Vem, senta-te aqui ao meu lado, deixa-me ver nos teus olhos, enquanto me falas, a lonjura do oceano que nos separa, das terras vermelhas e mulembas frondosas,  peles cor de ébano e missangas coloridas, kandengues correndo pelas bissapas de risos alvos e fáceis, chapinhando  nas cacimbas. Conta-me de novo, aquela caçada, em que o teu irmão te ensinou a usar uma carabina de culatra rectilínea com mira telescópica, o que eu me rio sempre que contas esse episódio. Ah, e daquele baile no Arco Iris, onde dançaste um só vez, com todas as garinas presentes, e o marido de uma casada não gostou, hilariante. Fala-me da savana, do deserto do namibe, da praia morena, da Senhora do Monte, da serra da Leba, de impalas e gnus, de nunces, de hienas que riem, de homens e mulheres pequeninos que falam com estalidos de língua, bosquímanos, certo? - Em toda a minha vida, só vi um, perdido na cidade, de tanga, arco e flecha nada intimidado - E dos outros, altaneiros e orgulhosos da sua raça, Mucubais, não é? e lembra-me do sabor agri-doce da Mukua. Em troca, falar-te-ei de Luanda, da Ilha, do Morro da Lua, da Barra do Quanza, de plantações de algodão, de canas de açúcar, de gentes tão doces quanto elas, de kikuerra e de tantas outras coisas.

Sabes, sempre que me falas de lá, me levas lá. 
Não. Não é a mesma coisa. É diferente. Eu lembro com saudade silenciosa, tu dás voz às tuas raízes, e num ápice, as palavras voltam a ter aquele som incomparável de um - uê mámá - de um dona, hoje tém démdém, bánána, fruta pinha.

É sempre tão bom ver-te.
Livra-te de morrer antes de mim, juro que te mato, meu sekulu adorado.





Kandengues=Crianças
Bissapas=arbustos
Cacimba=poça de água
Garina= moça jovem
Mukua=Fruto do Imbondeiro/Embondeiro
Kikuerra=Mistura de farinha de mandioca e açucar, torrada
Sékulu=Homem velho


***** 
2017-09-11
nn(in)metamorphposis 


18/03/2016

Sem tempo p’ra voltar



Somente ir…
Num golpe d’asa voar

Chegar de madrugada
para ver o sol raiar
gritar ao vento
à baía e ao mar

Ver kindas e kintandeiras
de pano garrido
sem bainha
colocado a preceito
que esconde e sobressai
corpo de ébano
rainha

Nas trancinhas  
búzios- continhas
qual jóias alinhadinhas

Na voz clara
soa a África
a quissange e a tambor
um rimado apregoar
de tão gostoso sabor

Tem jinguba e maracujá
Tem carambola e cará
Batata doce docinha
Tem chá capim bem verdinho
Tem fuba tem mandioca
Tem banana e fruta pinha
Tem caju e tem maboka

E quando a kinda
vazia
volta ao kimbo
a alegria
que leva a kintandeira

E parto

 Rumo ao pôr do sol
que se vai banhar na ilha

Vou jantar
aos pezinhos n' água
olhando o horizonte
vendo a noite chegar

Que maravilha

E nos dias a seguir
vou por aqui e ali

caminhando sem destino
para as saudades matar
e duma vez arrancar
este apego desmedido

que me mata o coração
numa dor 
já sem sentido

*****
 2016-03-18 
nn(in)metamorphosis



20/09/2015

Não dizemos adeus


Não dizemos adeus
à sombra que nos acompanha
no passeio ao sol da manhã
ao pássaro que pousa
antes de voar para outro lugar

Não dizemos adeus
à página que passamos
do livro que estamos a ler
à tarde que finda
antes de chegar a noite

Não dizemos adeus
Ao mar que se espraia na areia
À palmeira sobranceira
à folha que se liberta em cada cacimbo

Não dizemos adeus
à flor do maracujá
quando se transforma em fruto
ao som do kissange tocado
enquanto se aguarda o machimbombo

 e dissemos adeus


*****
 2015-09-20
nn(in)metamorphosis



Kissange/Kisanji (Em Angola)

Kalimba (em Moçambique)