Deambulo e vou lendo tudo o que aparece
neste mundo virtual que nos dizem ser global. Umas coisas ficam na memória,
outras esquecem-se depressa.
Leio gente que se procura na ânsia de se
encontrar, como quem tenta traduzir um vazio que não sabe nomear. Escrevem
dizendo não falar de si nem do que sentem, mas a escrita denuncia-os e nela
fica tudo, ou quase tudo, de si próprios. Até a mentira com que se protegem. E
há quem se diga conhecedor dos seus mais ínfimos meandros, capaz até de
escolher o “eu” como quem escolhe um fato a vestir.
Um não sei quê instalou-se na vida de cada
um. Vivemos enclausurados num contraditório permanente. Repetimos, vezes sem
conta, que somos quem queríamos ser, que estamos onde queríamos estar, mas, em
silêncio, escondemos as contrariedades, as frustrações, os amores falhados e as
desilusões do amigo que “parece” feliz.
Matamos a espontaneidade que nos delata e
deixamos escorrer pelo ralo, no duche, tudo aquilo que realmente queremos e
precisamos.
Depois, mais uma vez, vestimos Chanel no
olhar e fitamos o mundo de cima, com uma segurança que não sentimos. Calçamos
Prada nos sentimentos e calcamos as nossas próprias vidas, já feitas em cacos.
Depois…
É ver-nos diante do horizonte, de olhar
perdido, copos nas mãos esvaziados em sorvos lentos. De pijama vestido, canecas
de café fumegantes entre os dedos, gatos enrolados no colo. Varando noites em
insónias silenciosas e macilentas, tantas vezes salgadas.
Mas, aos olhos de quem nos olha, de quem
nos lê, somos todos muito felizes. E aquilo que escrevemos? Pura ficção.
Mas é à noite, quando a actuação termina e
os espectadores já se foram, que atiramos os sapatos para um canto e deixamos
peças de roupa espalhadas pela casa, até nos depararmos com a nossa nudez. E
perante ela, quase nunca conseguimos mentir.
É então que percebemos que não somos mais
do que meninos famintos de afectos.
Escrita. Essa coisa que se fantasia, se
enfeita, se cobre de fitas, e tantas são as fitas, de cores, sentires e
desejos, do que se tem e, sobretudo, do que se gostaria de ter.
Porque nem toda a ficção é mentira, às
vezes é apenas a única forma suportável de dizer a verdade.
Mas, digam o que disserem, a escrita traz
nas entranhas dores, odores, exultações e exaltações de quem pegou na pena
apenas para redigir aquilo que diz ser invenção.
***
2012-09-10 -
Leituras e Escritos
nn(in)metamorphosis