nn(in)metamorphosis
Pai
Amo-te
mas não com um amor isolado
de portas fechadas e cortinas corridas
Amo-te
com as ruas, as vozes
os cartazes que tremem em mãos cansadas
Amo-te
com o grito preso de quem não come há dias
com o suspiro de quem veste roupa de marca
e não sente nada por dentro.
Amo-te
porque é preciso resistir ao esquecimento
num tempo em que tudo se vende
em que a vida é montra e a esperança está em saldo
Amo-te
com a ternura que não se cala
com a coragem que enfrenta a desigualdade
como se abraça um amigo ferido
com firmeza, com calor
sem desviar o olhar
E quando o mundo tenta ensinar-nos
que amar é possuir
eu insisto que amar é libertar
até que a última esquina seja nossa
até que o último punho erguido
possa também descansar na paz
que hoje ainda é sonho
Amo-te
e neste amor cabe o mundo inteiro
Depois, terras
vermelhas, palmeiras que balançam ao vento quente, o calor que se entranha na
pele e os sons que envolvem a alma.
Assim se
apresentou Angola (Luanda): com a sua luz, a sua cor, a sua vida… agora,
saudade. Uma saudade que escapa, como areia fina entre os dedos.
A saudade agora
é uma névoa suave que envolve os dias, uma lembrança que persiste onde o tempo
e a distância não chegam.
Mas, por mais que se desvaneça
Angola será
sempre parte de quem sou.

Não sou feita de
ausências
Mas, às vezes, esvazio-me
Fico quieta por dentro - não é bem dor, nem é tristeza
É uma imobilidade
estranha
como se algo se apagasse em mim
Não há motivo visível
só um sentir que transborda
sem nome, sem forma, sem aviso
Sinto demais
E quando sinto, tudo
pesa
o tempo, as falhas
as palavras que disse
e, talvez ainda mais
as que escolhi calar
Refletir é tormenta
Pensar demais arrasta
tudo
como um vento forte que varre os cantos da mente
E a ideia de que tudo
depende de mim
não ajuda
é como tentar segurar o céu com as mãos - irreal
Então, obrigo-me
Respiro. Foco no
agora
Agarro o instante com cuidado
com atenção, com medo, mas com força
Não sou tristeza. Sou
excesso
E o excesso, por vezes, também cansa
Mas sigo
Porque mesmo quando transbordo, ainda há poesia