Hoje, mais do que em outros dias, estou
fraca nas palavras.
Penso depressa demais para que as mãos acompanhem este turbilhão em que a mente
se enreda, um vazio feito de palavras que não chegam.
2012-10-08 – Vazio de Palavras
nn(in)metamorphosis
Hoje, mais do que em outros dias, estou
fraca nas palavras.
Penso depressa demais para que as mãos acompanhem este turbilhão em que a mente
se enreda, um vazio feito de palavras que não chegam.
Deambulo e vou lendo tudo o que aparece
neste mundo virtual que nos dizem ser global. Umas coisas ficam na memória,
outras esquecem-se depressa.
Leio gente que se procura na ânsia de se
encontrar, como quem tenta traduzir um vazio que não sabe nomear. Escrevem
dizendo não falar de si nem do que sentem, mas a escrita denuncia-os e nela
fica tudo, ou quase tudo, de si próprios. Até a mentira com que se protegem. E
há quem se diga conhecedor dos seus mais ínfimos meandros, capaz até de
escolher o “eu” como quem escolhe um fato a vestir.
Um não sei quê instalou-se na vida de cada
um. Vivemos enclausurados num contraditório permanente. Repetimos, vezes sem
conta, que somos quem queríamos ser, que estamos onde queríamos estar, mas, em
silêncio, escondemos as contrariedades, as frustrações, os amores falhados e as
desilusões do amigo que “parece” feliz.
Matamos a espontaneidade que nos delata e
deixamos escorrer pelo ralo, no duche, tudo aquilo que realmente queremos e
precisamos.
Depois, mais uma vez, vestimos Chanel no
olhar e fitamos o mundo de cima, com uma segurança que não sentimos. Calçamos
Prada nos sentimentos e calcamos as nossas próprias vidas, já feitas em cacos.
Depois…
É ver-nos diante do horizonte, de olhar
perdido, copos nas mãos esvaziados em sorvos lentos. De pijama vestido, canecas
de café fumegantes entre os dedos, gatos enrolados no colo. Varando noites em
insónias silenciosas e macilentas, tantas vezes salgadas.
Mas, aos olhos de quem nos olha, de quem
nos lê, somos todos muito felizes. E aquilo que escrevemos? Pura ficção.
Mas é à noite, quando a actuação termina e
os espectadores já se foram, que atiramos os sapatos para um canto e deixamos
peças de roupa espalhadas pela casa, até nos depararmos com a nossa nudez. E
perante ela, quase nunca conseguimos mentir.
É então que percebemos que não somos mais
do que meninos famintos de afectos.
Escrita. Essa coisa que se fantasia, se
enfeita, se cobre de fitas, e tantas são as fitas, de cores, sentires e
desejos, do que se tem e, sobretudo, do que se gostaria de ter.
Porque nem toda a ficção é mentira, às
vezes é apenas a única forma suportável de dizer a verdade.
Mas, digam o que disserem, a escrita traz
nas entranhas dores, odores, exultações e exaltações de quem pegou na pena
apenas para redigir aquilo que diz ser invenção.
Há momentos em que tudo
desaba. As convicções que nos ergueram um dia perdem o brilho, esmorecem sem
razão que as sustente. Viver nunca foi fácil.
Mas pouco importa. A dor
também expande a alma, torna-a mais cheia de mundo. O sentido das coisas nasce
sempre dentro de nós, entre o que vivemos e o que nos atravessa, e há instantes
raros em que tudo parece alinhar-se, como se pudéssemos tocar a lua entre
nenúfares de silêncio.
São esses momentos que
quebram o ciclo da dor e inauguram outro movimento. Devolvem-nos a esperança,
não como permanência, mas como passagem. O acreditar em nós e nos outros. A
ilusão necessária de que somos, ainda, donos do nosso destino.
Depois, o ciclo recomeça.
Tudo volta a cair. Sempre volta. E nesse cair repetido, renascemos, não do
nada, mas do que já fomos, mais atentos à fragilidade e à força que nos habita.
Por isso, mesmo no auge
do sentir, não devemos esquecer a sua natureza cíclica. Nem perder de vista o
sorriso que já nos salvou, nem a paz que um dia foi casa.
A magia nunca morre.
Apenas se recolhe, discreta, no movimento do ciclo.
E se deixares de ser o
meu amor, ou eu o teu, não é grave.
Grave seria não haver
amor algum.