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10/09/2012

Leituras e Escritos


Deambulo e vou lendo tudo o que aparece neste mundo virtual que nos dizem ser global. Umas coisas ficam na memória, outras esquecem-se depressa.

Leio gente que se procura na ânsia de se encontrar, como quem tenta traduzir um vazio que não sabe nomear. Escrevem dizendo não falar de si nem do que sentem, mas a escrita denuncia-os e nela fica tudo, ou quase tudo, de si próprios. Até a mentira com que se protegem. E há quem se diga conhecedor dos seus mais ínfimos meandros, capaz até de escolher o “eu” como quem escolhe um fato a vestir.

Um não sei quê instalou-se na vida de cada um. Vivemos enclausurados num contraditório permanente. Repetimos, vezes sem conta, que somos quem queríamos ser, que estamos onde queríamos estar, mas, em silêncio, escondemos as contrariedades, as frustrações, os amores falhados e as desilusões do amigo que “parece” feliz.

Matamos a espontaneidade que nos delata e deixamos escorrer pelo ralo, no duche, tudo aquilo que realmente queremos e precisamos.

Depois, mais uma vez, vestimos Chanel no olhar e fitamos o mundo de cima, com uma segurança que não sentimos. Calçamos Prada nos sentimentos e calcamos as nossas próprias vidas, já feitas em cacos.

Depois…

É ver-nos diante do horizonte, de olhar perdido, copos nas mãos esvaziados em sorvos lentos. De pijama vestido, canecas de café fumegantes entre os dedos, gatos enrolados no colo. Varando noites em insónias silenciosas e macilentas, tantas vezes salgadas.

Mas, aos olhos de quem nos olha, de quem nos lê, somos todos muito felizes. E aquilo que escrevemos? Pura ficção.

Mas é à noite, quando a actuação termina e os espectadores já se foram, que atiramos os sapatos para um canto e deixamos peças de roupa espalhadas pela casa, até nos depararmos com a nossa nudez. E perante ela, quase nunca conseguimos mentir.

É então que percebemos que não somos mais do que meninos famintos de afectos.

Escrita. Essa coisa que se fantasia, se enfeita, se cobre de fitas, e tantas são as fitas, de cores, sentires e desejos, do que se tem e, sobretudo, do que se gostaria de ter.

Porque nem toda a ficção é mentira, às vezes é apenas a única forma suportável de dizer a verdade.

Mas, digam o que disserem, a escrita traz nas entranhas dores, odores, exultações e exaltações de quem pegou na pena apenas para redigir aquilo que diz ser invenção.

 

***
2012-09-10 - Leituras e Escritos 
nn(in)metamorphosis


2 comentários:

  1. Sabes o que dei comigo a pensar?...
    Todo o discurso intelectualizado não convence por completo.
    E penso o mesmo de uma forma de viver afastada da realidade dos que nos rodeiam... E olha que falo por mim, que fujo bastante de relações sociais, que sempre perdem em afectividade e ganham em hipocrisia.
    Até aqui deve procurar-se um equilíbrio. Mas é uma zona difícil porque as relações são tão superficiais que nem dá para sentir a saudade de um sorriso...
    E há textos ditados por emoções passageiras...E isso nota-se no estilo.Tal como a honestidade de quem o criou.

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