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24/04/2026

Palavras não ditas

 
Gosto de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e, ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade tolhe-as e faz com que definhem lentamente.
 
Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.
 
Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.
 
Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.
 
Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.


***
2026-04-24 – Palavras não ditas
nn(in)metamorphosis 


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