que ensinam
a lembrança luminosa
das cores
É no céu baço
que se reconhece
a alegria esquecida
de um azul inteiro
Porque só quem atravessa
a chuva demorada
compreende, no silêncio
a felicidade da cor
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Pouco se escreve sobre a alegria quer pelo escrevinhador comum, quer pelos autores de nome gravado a ouro.
Procurei e encontrei uns pouquinhos como:
Alberto Caeiro: aceitação tranquila da vida como ela é.
Sophia de Mello Breyner Andresen: luz, mar, ordem simples do mundo.
e uns completamente desconhecidos para mim
Walt Whitman: entusiasmo vital, corpo, natureza
Mary Oliver: beleza nas pequenas coisas
“A alegria simples é, paradoxalmente, uma das coisas mais difíceis de escrever bem.”
Conclusão:
Eu não me importo nada de não escrever bem, porque dou muito mais valor ao que me faz sentir bem.
Alegria comum não grita… sussurra
e é por isso que poucos a ouvem
passa leve
como o vapor do café numa manhã qualquer
como o som de roupa estendida ao vento
chega sem fanfarra
não pede atenção
não bate à porta
encosta-se
devagarinho
no instante
é um corpo cansado
que ainda assim se estende ao sol
é o pão partido sem pressa
entre mãos que já sabem o caminho
ninguém escreve grandes epopeias sobre isto
ninguém ergue estátuas ao dia banal
e no entanto
é aqui que a vida persiste
não no auge
não no grito
mas nesta espécie de respiração tranquila
quase nada
quase tudo
a alegria comum não grita… sussurra
e só fica
com quem aprende
a baixar o ruído do mundo
o suficiente
para a deixar entrar
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Gosto
de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos
vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas
tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais
calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés
bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem
tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e,
ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam
pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já
nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade
tolhe-as e faz com que definhem lentamente.
Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.
Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.
Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.
Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.