Tem por nome Calma, vive longe.
Conhecemo-nos, mas de tão pouco nos vermos, quase a esqueci,
quase me esqueceu.
Um dia destes, cruzamo-nos, agiu como se não me
conhecesse de todo. Ia passando em jeito manso e como quem não quer nada, levantou
a mão, saudou-me com um aceno leve.
Perante tal, não lhe dei muita importância, limitei-me de
forma educada a retribuir o aceno e a sorrir.
Foi nesse preciso momento que de chofre me questionou:
Porque sorris?
Apanhou-me desprevenida e no imediato não soube o que
dizer, mas logo de seguida retorqui: e porque não deveria sorrir?
Olhou-me nos olhos e numa voz suave disse: Não deixa de ser estranho… Estás sempre
preocupada, a tua cabeça é um vulcão, a tua alma um desespero constante, o teu
coração bate até doer, e os teus olhos não choram.
Pois, mais que lamentar sinto, e estarei errada quando desfaleço,
e desde que acordo até que me deito me concentre nas agruras da vida. Às vezes,
forço-me a pensar que a vida é o que dela fazemos mas, eu sei e tu sabes, que
não é bem assim… A nós, apenas e só, cabe decidir se enfrentamos ou não o
momento que se nos depara, seja ele bom ou mau, mas há momentos em que não
temos escolha, porque o momento tem o tamanho de uma vida.
A Calma serenamente atirou-me:
Mas tu não foste sempre assim…
Eu sei, que não… Na verdade a vida foi tão diversa e tão
cheia de coisas… E coisas houve em que não te consegui enfrentar ou mesmo
aceitar e desesperei... Porém, houve também momentos em que soube que me podias
ajudar ao trazeres-me a sabedoria, a
sensatez, a alegria, a serenidade.
Por tudo isso, te sorri agora, e te sorrirei a cada vez
que, a causa da minha luta, sorria, de forma segura, forte, pura e real que de
tão real, a ti, Calma, juro, te sorrirei.
***
2020-11-16
nn(in)metamorphosis