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01/05/2026

Alegria comum não grita... sussurra

 
Pouco se escreve sobre a alegria quer pelo escrevinhador comum, quer pelos autores de nome gravado a ouro.
 
Procurei e encontrei uns pouquinhos como:
 
·       Alberto Caeiro: aceitação tranquila da vida como ela é.
·       Sophia de Mello Breyner Andresen: luz, mar, ordem simples do mundo.
 
e uns completamente desconhecidos para mim
 
·       Walt Whitman: entusiasmo vital, corpo, natureza
·       Mary Oliver: beleza nas pequenas coisas
 
 
“A alegria simples é, paradoxalmente, uma das coisas mais difíceis de escrever bem.”
 
Conclusão:
Eu não me importo nada de não escrever bem, porque dou muito mais valor ao que me faz sentir bem.

***
  
Alegria comum não grita… sussurra
 
e é por isso que poucos a ouvem
passa leve
como o vapor do café numa manhã qualquer
como o som de roupa estendida ao vento
 
chega sem fanfarra
não pede atenção
não bate à porta
 
encosta-se
devagarinho
no instante
 
é um corpo cansado
que ainda assim se estende ao sol
é o pão partido sem pressa
entre mãos que já sabem o caminho
 
ninguém escreve grandes epopeias sobre isto
ninguém ergue estátuas ao dia banal
e no entanto
é aqui que a vida persiste
 
não no auge
não no grito
mas nesta espécie de respiração tranquila
 
quase nada
quase tudo
 
a alegria comum não grita… sussurra
e só fica

com quem aprende
a baixar o ruído do mundo
o suficiente
para a deixar entrar
 

***
2026-05-01 - Alegria comum não grita… sussurra 
nn(in)metamorphosis




24/04/2026

Palavras não ditas

 
Gosto de espaços públicos fora das horas de ponta. Fora do caos dos imensos vendedores de casas e carros que falam alto e se pavoneiam em fatos limpos, mas tão cansados quanto eles. Gosto do intervalo em que a clientela se torna mais calma, as conversas mais íntimas e as cervejas dão lugar a chás e cafés bebericados devagar. E foi num desses dias que testemunhei uma conversa que tem tanto de interessante como de velha. A juventude mais letrada de sempre e, ainda assim, nem sempre preparada para dizer o essencial. Muitas vezes optam pelo silêncio com medo de perder, sem se aperceberem de que, tantas vezes, já nada há a perder. O medo de ficarem sós, de perderem o emprego ou uma amizade tolhe-as e faz com que definhem lentamente.
 
Na mesa ao lado, duas vozes jovens hesitam entre o que deve ser dito e aquilo que, por alguma razão, não conseguem dizer.
 
Escutar torna-se inevitável. Não pelas palavras em si, mas pelo peso do que fica por dizer. Há a consciência de que falar poderia evitar danos maiores, mas algo impede o passo seguinte e o resultado não é bom.
 
Penso nisso enquanto observo: existe um espaço entre o que se sabe que deveria ser dito e o que não se consegue dizer. Não desaparece. Fica, acumula-se, transforma-se. Com o tempo, torna-se presença silenciosa que mina devagar.
 
Aquilo que não se diz raramente se perde. Fica. E muitas vezes, é o que mais se faz ouvir.


***
2026-04-24 – Palavras não ditas
nn(in)metamorphosis 


01/04/2026

Memória, essa ferramenta extraordinária

 

Imagem gerada por IA


A memória, essa ferramenta extraordinária, acompanha-nos de forma silenciosa, mas decisiva, ao longo da vida. É nela que se inscrevem as experiências, os afectos e os acontecimentos que, pouco a pouco, vão dando forma àquilo que somos. Sem memória, faltar-nos-ia essa continuidade que liga o passado ao presente e que sustenta a nossa identidade.

Ainda assim, a memória está longe de ser um registo rigoroso. Mais do que guardar, ela reconstrói. As lembranças são frequentemente moldadas pelo tempo, pelas emoções e pelas circunstâncias em que são evocadas. Recordar não é apenas recuperar o que foi vivido, mas também reinterpretá-lo à luz do que somos hoje.

 Apesar dessa imperfeição, a memória mantém um papel essencial. É através dela que aprendemos, que reconhecemos padrões, que estabelecemos relações e que atribuímos significado ao que vivemos. Sem ela, a experiência perderia profundidade e tornar-se-ia fragmentada.

 Talvez seja precisamente nessa dualidade (entre fidelidade e reconstrução) que reside o seu carácter extraordinário. A memória não é apenas um arquivo do passado; é uma força ativa que participa, de forma contínua, na construção de quem somos.

  

***

2026-04-01 – Memória, essa ferramenta extraordinária 
nn(in)metamorphosis


22/02/2026

Kristin a louca


 
E a Cristin passou.
Passou e levou quase tudo na mala, incluindo a nossa paz.

Aqui estamos, nós e as lonas improvisadas, a tentar convence-las que as telhas querem voltar para os braços do telhado, mas as lonas (cabras) abanam a cabeça e enfunam, ameaçando ir d'asa, só para nos provocar.
Enquanto as  paredes murmuram segredos em forma de goteiras, e a tinta, toda vaidosa, desfila em tons de mofo como se fosse desfile de Carnaval.
Os pavimentos de madeira decidiram tornar-se pranchas nos lagos em que se tornaram as placas que os suportavam.
O mobiliário? Pobrezinho, grita por socorro, roda os olhos e prepara-se para uma revolta silenciosa, como se fosse um exército secreto de cadeiras e mesas.

Na guerra dos orçamentos, onde cada telefonema é uma oração - que atenda, desta vez, um que atenda: e se tivermos sorte. Pagámos metade do orçamento, e temos que esticar a paciência, é que depois do pagamento a espera pode superar as quatro semanas, para chegar o material. Depois... Subir em placas molhadas tornou-se desporto radical. Ou seja, lá para Abril, talvez, e só talvez, volte a dormir no meu quarto. Consiga sentar-me no sofá da sala, ouvir música, ler, até passar pelas brasas.
Entretanto faço fintas entre os móveis arrastados para fora das divisões e separados das paredes.
Os seguros? Ah, esses fazem ginástica para não pagar muito, a saltitar de um lado para o outro como se fossem acrobatas de circo.

 E eu? Ah, eu já chego a cheirar a mofo até no cabelo.
Cada vez que um ventinho sopra,  a casa murmura e o que resta do telhado abanica em desaprovação, eu só quero boiar sem me afogar.
 
Mas olhem: apesar de tudo, cá estou, com a capa de super-heroína rasgada, as galochas furadas, a rir do absurdo e a esperar que, um dia, a casa também decida recompor-se…

***

2026-02-22 - Kristin a louca
nn(in)metamorphosis






06/01/2026

Sol e Frio

 
O sol até aparece, todo convencido, mas não aquece nada. 
É um sol de enfeite, próprio para fotografias e enganos. 
A gente sai de casa cheia de esperança, bem agasalhada, e leva logo com um vento gélido que trespassa a roupa como se fosse renda fina. Cachecol, casaco, camisola interior? Tudo inútil. O frio encontra sempre um caminho, sobretudo pelo pescoço e pela alma. E depois vêm as gripes, fiéis como más companhias: olhos chorosos , e não é de emoção, narizes vermelhos que dispensam palhaço no circo, e vozes fanhosas que transformam um simples “bom dia” num solo de trompete desafinado. Ainda assim, lá vamos nós, a fungar com dignidade, a queixar-nos do tempo com convicção científica e a garantir que “isto não é frio nenhum”… enquanto batemos o dente como castanholas.


 ***

2025-01-06 – Sol e Frio - Reflexões e Desabafos
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21/10/2025

Essência

 Vivo a minha vida sem pressas nem mapas. Deixo que os dias me levem, sem grandes planos nem promessas. Não persigo o que foge, mas também não ignoro o que me chama. Gosto das pequenas coisas: um olhar distraído, um som de fundo, um instante que parece nada e acaba por ser tudo.

Aprendi que o sentido das coisas aparece quando deixo de o forçar. Que as quedas ensinam, mesmo quando doem. E que o tempo tem um jeito curioso de pôr tudo no lugar, mesmo o que parecia perdido.
Não procuro perfeição, procuro presença. Vivo entre o caos e a calma, a tentar ser inteira,  mesmo quando não percebo bem o porquê de tudo.


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2025-1-21 - Essência - Reflexões e Desabafos
nn(in)metamorphosis



21/09/2025

À porta do Outono

 

Domingo, fim de tarde

O Verão despediu-se hoje com a sua luz dourada e preguiçosa. Senti-o claramente: o ar já não traz a vibração dos dias quentes, mas uma doçura calma, quase rendida. Passei a tarde a observar como as sombras se alongam mais cedo, como o céu parece querer descansar, e dei por mim a sorrir com essa melancolia leve que nunca sei bem se é saudade ou alívio.
 
Amanhã chega o Outono. 
Sinto-me pronta para o receber. Há qualquer coisa de reconfortante nesta mudança: o cheiro prometido da terra molhada, as folhas que hão-de cair em tons de cobre e ferrugem, o convite ao recolhimento e à serenidade. É como se a natureza me desse permissão para abrandar, para me voltar mais para dentro, para escutar o que em mim também pede silêncio e pausa.
 
Dou as boas-vindas ao Outono como quem recebe uma visita esperada. Não com euforia, mas com a ternura de quem reconhece no tempo que passa uma sabedoria maior. Que ele me traga serenidade, tardes longas de chá quente, e a lembrança de que cada fim é também um início disfarçado.

 

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 2025-09-21 - À porta do Outono
nn(in)metamorphosis


17/09/2025

Difíceis de lidar, mas com impacto

 
Estava sentada numa mesa de café, a meio da tarde, num espaço quase vazio. Fui convidada pela própria organizadora a participar numa reunião para juntar dinheiro e bens de primeira necessidade para uma família monoparental que após um divórcio, se reinventa e segue em frente..
 
Enquanto a organizadora esteve presente, o pequeno grupo, que me pareceu já se conhecer entre si, ao contrário de mim,  rodeava-a de sorrisos e elogios exagerados. Cada pedido ou ideia era imediatamente elogiado, gerando mais uma enxurrada de elogios vazios que soavam forçados e artificiais, destoando do objetivo da reunião.
 
Mas, quando a organizadora saiu e eu esperava para pagar o café, o ambiente mudou imediatamente. Surgiram comentários como: “É difícil de lidar”, “Raramente está de acordo”, “Dificilmente lhe ouves um elogio.” O contraste era evidente: enquanto estava presente, recebia elogios falsos; fora do seu alcance, era julgada e rotulada.
 
A experiência mostrou-me como a bajulação distorce a percepção das pessoas. Quem não se presta a esse jogo de elogios vazios acaba rapidamente rotulado de “difícil”, mesmo agindo com honestidade.
 
Só um aparte; Elas não sabem, mas, tal como a organizadora, eu sou das “difíceis de lidar”: elogios e bajulações ocas não fazem parte dos pratos que engulo, nem a custo.
 
Apesar de tudo, conseguimos reunir um bonito valor e alguns cabazes de compras não perecíveis, higiene e limpeza para alguns meses.
 
No fim, é isso que realmente importa: a ajuda que chega de forma concreta e útil. O resto é isso mesmo, resto.


***

2025-09-17 - Difíceis de lidar, mas com impacto
nn(in)metamorphosis 


28/08/2025

Querida vida


Hoje, 27-08-2025 - ao sentar-me para tomar um café, fui surpreendida por uma cena singela e, ao mesmo tempo, profundamente comovente.
Duas senhoras, de idades já vestidas pelo tempo, sentaram-se na mesa ao lado. Falavam baixo, mas com uma intensidade que atravessava o silêncio entre os goles de café. Dissertavam sobre a vida -  sobre quedas, recomeços, solidão e afetos. No entanto, havia uma pergunta que se repetia entre elas:
 
“O que vale mesmo a pena guardar?”
 
Fiquei com essa pergunta a ecoar em mim. E é com ela no pensamento que te escrevo, querida vida:
 
 ***
Querida vida,

 

Escrevo-te com o coração tranquilo e o olhar pousado no que ficou para trás - não com saudade amarga, mas com um sentimento profundo de gratidão. Ao longo do caminho, fui percebendo que nem tudo merece ser guardado. E, ainda assim, há coisas que faço questão de levar comigo.
 
Quero guardar os momentos em que o amor falou mais alto. Os abraços que aqueceram a alma, as palavras que chegaram no momento certo, os silêncios que acolheram melhor do que qualquer explicação. Esses pequenos grandes instantes que, por mais breves que tenham sido, deixaram marca.
 
Quero guardar a simplicidade dos dias comuns - o cheiro do café logo de manhã, a brisa suave num final de tarde, as gargalhadas partilhadas com quem é de verdade. São esses detalhes que, no fundo, sustentam o coração.
 
Da dor, quero guardar apenas aquilo que me ensinou. As quedas que me obrigaram a levantar, os recomeços que exigiram coragem, as perdas que me ensinaram a valorizar o que ainda tenho. A dor passa, mas o que aprendemos com ela fica.
 
Quero guardar também as pessoas que me tocaram com sinceridade. Algumas ficaram, outras seguiram o seu caminho, mas todas deixaram algo em mim. E isso, por si só, já merece ser lembrado com carinho.
 
E, acima de tudo, quero guardar a pessoa que me tornei. Com todas as marcas, os sorrisos, as lutas e os sonhos. Porque a vida, no fim de contas, é isto: uma construção contínua de tudo aquilo que escolhemos guardar no coração.
 
Com carinho,

 

 ***

2025-08-28 – Querida vida
nn(in)metamorphosis


25/03/2024

Histórias da vida ou a vida em histórias

 


A vida, uma vida, não se resume a uma única história. 
Tal como não é composta, por um só início, meio e fim.
A vida de cada um de nós, é uma sucessão de histórias, longas ou curtas, com maior ou menor importância.
Umas ficam tatuadas na alma, outras deixam ensinamentos, outras ainda, com o tempo, desvanecem-se e podem até passar ao esquecimento.

Ah! mas depois...

das minhas histórias e 
das tuas histórias 
surgem as nossas histórias que,
 ainda, se constroem e reconstroem
o que é admirável, não achas?

 
***
2024-03-25 - Histórias da vida ou a vida em histórias
nn(in)metamorphosis




19/01/2024

Mudaste? Mudei!

 


 

E um dia tomas consciência que mudaste
 
Que a saudade tem um lugar especial. mas já não te magoa
Que já não ris das mesmas coisas, mas continuas rindo
Que já só valorizas, o respeito que não pedes e a consideração que não cobras
Que a gente com postura infantil, respondes com o silêncio adulto
Que já não tens paciência para tretas, não por arrogância, mas por respeito a ti mesma
Que já só estás com as pessoas que queres, quando queres
Que já não fazes, se não tens vontade de fazer
Que ficas, se te apetece ficar
Que vais, se te apetece ir
 
E que essa liberdade te dá um prazer incrível
Se ela vem da maturidade, eu não sei
Mas que me faz muito bem, lá isso faz



***
2024-01-19 - Mudaste? Mudei.
nn-metamorphosis





25/03/2022

Tão a propósito

 


Joan Baez 

We Shall Overcome

Venceremos,
Venceremos,
Venceremos, algum dia.

Oh, no fundo do meu coração,
Eu acredito
Venceremos, algum dia.

Nós vamos caminhar de mãos dadas,
Nós vamos caminhar de mãos dadas,
Nós vamos caminhar de mãos dadas, algum dia.

Oh, no fundo do meu coração,

Viveremos em paz,
Viveremos em paz,
Viveremos em paz, algum dia.

Oh, no fundo do meu coração,

Todos seremos livres,
Todos seremos livres,
Todos seremos livres, algum dia.

Oh, no fundo do meu coração,

Não temos medo,
Não temos medo,
Não temos medo, HOJE

Oh, no fundo do meu coração,

Venceremos,
Venceremos,
Venceremos, algum dia.

Oh, no fundo do meu coração,
Eu acredito
Venceremos, algum dia.




01/01/2022

Ano Novo com Chocolate

 

Tenho uma certeza quase inabalável, de que sempre foi assim. No último dia de um qualquer ano, se pede a Deus e a todos os Santos, sejam quais forem os deuses e os santos, um rol imenso de desejos que se gostaria de ver cumpridos. E se o novo ano não puder ser melhor que o anterior, pelo menos não seja pior. Os desejos pedinchados e enviados aos diversos destinatários, levam a inerente vontade de um cumprimento seguro. Ninguém lembra se no ano anterior, os pedidos formulados foram ou não cumpridos. Isso não interessa nada. Os desejos devem ser feitos na passagem de testemunho para um tempo novo. Claro que os tempos foram mudando assim como as mentalidades e até os desejos. Contudo, há alguns desejos que se mantêm iguais ao longo de séculos, como se fossem irrevogáveis nos contornos do rol de solicitações formuladas. Os outros, os que podem mudar, variam com a conjuntura, seja ela climática, política ou até social.

Assim, dando cumprimento à tradição, formulei, na passagem de ano, as pedinchices do costume e mais algumas, entre elas, as seguintes:

- Colheitas fartas cheguem aos nossos campos.

- Belas flores surjam nos nossos jardins, perfumando as nossas vidas.

- Saúde, Paz e prosperidade, para este mundo doente, sempre em conflito, sempre muito mais pobre que rico.

 

Nos 365 dias que nos esperam, havemos de nos encontrar, sem máscara, ou não, pelos corredores da blogosfera.

 

Até já!


***

2022-01-01

noname-metamorphosis



07/06/2021

(Des)construção

 

Rua da Índia, 76 - BIBLIOTECA.

 

Talvez, porque a minha vida foi feita por vários lugares, umas vezes porque a vida profissional do pai assim o determinava, outras, porque a política e a politiquice apenas olhando os seus interesses, não acautelam milhares de outras vidas. 

Seja qual tenha sido o motivo, fui sendo arrancada, daqui e dali, sempre que começava a criar raízes e, por isso, não dei conta de como a modernidade ia descaracterizando esses lugares que levava gravados na lembrança e no coração a cada mudança. Até que, ao voltar, os visitei, e me senti estrangeira. Que lugar era aquele? Não fora as pessoas que um dia conheci, eu seria uma turista, não uma filha da terra, ainda que adoptiva, que conhecia pelo nome o sr. do talho,  da dona da loja de tecidos, do café da esquina, da papelaria, de cada amiga construída, de cada colega de turma, de cada vizinho próximo, cada canto do jardim, cada rua.

Ao ler o post que referencio no inicio, tive a certeza. Sou uma desenraizada. Alguém que, há muito, grava no peito, pessoas, momentos e sentires,  mas já não enleia, em esteios de pedra e cal, as raízes. Porque essas, quando menos se espera, vem a mudança e corta-as, vem a modernidade e arranca-as em nome de qualquer estrada, qualquer praça, qualquer avenida, qualquer desejo de um poderoso, levando tudo à frente.
"
Dizem que é assim que os lugares se desenvolvem mas é assim que eles morrem também."
em Rua da India, 76


***

2021-06-07

nn(in)metamorphosis

 

 


08/01/2021

Geadas da vida

  


7:30, O despertador não me acorda, mas embala o meu rom rom enquanto esperava que ele despertasse. Espreguiço-me ao som do “meu amor chegou tão tarde não deram sinal os cardos e a madeira não rangeu”. Levanto-me e escancaro a janela. Um ar gélido trava-me a respiração, para logo depois, num arrepio com direito a lágrimas nos olhos, me permitir ver todo um campo de geada. Há quantos anos não via eu tal imagem? Era uma miúda que tinha deixado a cidade e estava agora no campo, ali, entre o Douro e o Vouga, na Suíça portuguesa, quando a vi pela primeira vez e ficou-me gravada na memória. Não era neve, que essa caía do céu, era geada, disse-me a minha mãe e forma-se no solo. Não dava para brincar, mas tinha um encanto que era só dela, como uma renda delicada. Jamais esqueci tal imagem, até porque, ela se repetiu por vários anos e sempre me assombrou. Hoje, num outro lugar, assombrou-me de novo e uma saudade boa, perdura até agora. 

 

*** 

2021-01-08 

nn(in)metamorphosis 

 


16/11/2020

Amiga arredia

 

 


 Tem por nome Calma, vive longe.

Conhecemo-nos, mas de tão pouco nos vermos, quase a esqueci, quase me esqueceu.

Um dia destes, cruzamo-nos, agiu como se não me conhecesse de todo. Ia passando em jeito manso e como quem não quer nada, levantou a mão, saudou-me com um aceno leve.

Perante tal, não lhe dei muita importância, limitei-me de forma educada a retribuir o aceno e a sorrir.

Foi nesse preciso momento que de chofre me questionou:

Porque sorris?

Apanhou-me desprevenida e no imediato não soube o que dizer, mas logo de seguida retorqui: e porque não deveria sorrir?

Olhou-me nos olhos e numa voz suave disse: Não deixa de ser estranho… Estás sempre preocupada, a tua cabeça é um vulcão, a tua alma um desespero constante, o teu coração bate até doer, e os teus olhos não choram.

Pois, mais que lamentar sinto, e estarei errada quando desfaleço, e desde que acordo até que me deito me concentre nas agruras da vida. Às vezes, forço-me a pensar que a vida é o que dela fazemos mas, eu sei e tu sabes, que não é bem assim… A nós, apenas e só, cabe decidir se enfrentamos ou não o momento que se nos depara, seja ele bom ou mau, mas há momentos em que não temos escolha, porque o momento tem o tamanho de uma vida.

A Calma serenamente atirou-me:

Mas tu não foste sempre assim…

Eu sei, que não… Na verdade a vida foi tão diversa e tão cheia de coisas… E coisas houve em que não te consegui enfrentar ou mesmo aceitar e desesperei... Porém, houve também momentos em que soube que me podias ajudar ao trazeres-me a sabedoria, a sensatez, a alegria, a serenidade.

Por tudo isso, te sorri agora, e te sorrirei a cada vez que, a causa da minha luta, sorria, de forma segura, forte, pura e real que de tão real, a ti, Calma, juro, te sorrirei.    

 

***

2020-11-16

nn(in)metamorphosis

 

 

13/11/2020

Das sextas melancólicas

 

Sexta, fresca e de sol envergonhado.

Não vou publicar fotografias... Não é que não as tenha... Tenho-as... Mas não me apetece... Apenas aqui vou registar umas breves palavras... Dizer apenas que hoje é sexta, cinzenta, triste, fresca… Uma aragem que não sei se sopra de Norte ou de Sul... Um sol baixo, que não aquece, bate directo na varanda da casa em que habito. Não choro, apesar de existir um grito, que se vai tornando antigo... O grito, dentro de mim, que não sai... A lágrima que não cai... A dor que não se esvai... Apenas subsiste, persiste nesta sexta de colorido tão triste... Não publico fotografias, apenas porque não quero... Ou só porque não sei o que quero... E a aragem sopra, agora, mais forte e é o único som que ecoa no meu coração... Mais um dia que caminha para o seu fim... Começou assim, cinzento, logo pela manhã...

Neste momento olho estas teclas e não sei o que fazer... Fechar a publicação, escrita há já umas horas e, talvez... Carregar na tecla enter... Hoje, foi uma sexta triste, cinzenta, de Outono, que nasceu, para dela se gostar... Mas eu não gosto dos dias assim, mas há-os, existem e estão dentro de mim...

 

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nn(in)metamorphosis

2020-11-13

 

19/10/2020

No Outono, outono

 

 

Hoje o dia amanheceu tipicamente Outonal. Uma chuva fina, uma aragem fresca, anunciam a chegada da Bárbara que promete ventos fortes e chuva a condizer.

Nem um riso de criança na rua.

Nem o som da bengala do senhor idoso, a quem se adivinha um brilho de victória no olhar a cada percurso ganho pelas pernas cansadas.

Nem o vislumbre dum passarito.

Um céu cinza numa tonalidade tão triste, que dá vontade de dormir até à chegada da Primavera.

 O Outono tomou o seu lugar, e eu, outonei: A vivacidade o sorriso fácil já anunciam a hora de hibernar e uma letargia incómoda, e persistente, vai-se instalando.

 Viver é estar em constante mutação, o que éramos ontem não somos hoje e amanhã não podemos prever como seremos mas, agora, neste momento, sei que se aproxima a hora de lavar os cestos, curar as feridas, aninhar alegrias, ouvir a alma.

 

Preparar a Primavera.

 

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2020-10-19 

nn(in(metamorphosis

 

03/08/2020

Por vezes sou mar





De alguma forma, o mar sempre esteve na minha vida. Sempre exerceu em mim um fascínio, que nem sei bem como explicar ou mesmo entender.

Se me sento na areia e me detenho a olhar o mar, a ouvir o seu marulhar, logo vem uma onda que, suavemente, me leva à praia do Homem do Leme, no Porto, à do Mindelo em V. do Conde, Furadouro em Ovar, à praia da Rocha, no Algarve, e mais uma mão cheia de outras. Mais tarde, a Ilha do Cabo, o Mussulo, Cabo Ledo e Sangano em Luanda, tornaram-me cativa de vez.

Se bravo, de águas revoltas e escuras, faz-me olhá-lo de longe, ciente da minha pequenez e do receio que nem o fascínio atenua. Se mar chão, espelho de pôr de sol, deslumbrante e feiticeiro, leva-me para bem perto, de ouvido atento, olhar perdido, batimento cardíaco ritmado por risos e brincadeiras de criança, de colo de pai e mãe, de tamborilar de djambé e do som fluido do kissange.

Há uma saudade boa que me chega quando fico a ver o mar.

Saudade não é viver no passado, é ter o que lembrar, é revisitar memórias, é a simples constatação que eu, una, sou também, colectiva.




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2020-08-03 
nn(in)metamorphosis