07/06/2021

Des(construção)

 

Rua da Índia, 76 - BIBLIOTECA.

 

Talvez, porque a minha vida foi feita por vários lugares, umas vezes porque a vida profissional do pai assim o determinava, outras, porque a política e a politiquice apenas olhando os seus interesses, não acautelam milhares de outras vidas. 

Seja qual tenha sido o motivo, fui sendo arrancada, daqui e dali, sempre que começava a criar raízes e, por isso, não dei conta de como a modernidade ia descaracterizando esses lugares que levava gravados na lembrança e no coração a cada mudança. Até que, ao voltar, os visitei, e me senti estrangeira. Que lugar era aquele? Não fora as pessoas que um dia conheci, eu seria uma turista, não uma filha da terra, ainda que adoptiva, que conhecia pelo nome o sr. do talho,  da dona da loja de tecidos, do café da esquina, da papelaria, de cada amiga construída, de cada colega de turma, de cada vizinho próximo, cada canto do jardim, cada rua.

Ao ler o post que referencio no inicio, tive a certeza. Sou uma desenraizada. Alguém que, há muito, grava no peito, pessoas, momentos e sentires,  mas já não enleia, em esteios de pedra e cal, as raízes. Porque essas, quando menos se espera, vem a mudança e corta-as, vem a modernidade e arranca-as em nome de qualquer estrada, qualquer praça, qualquer avenida, qualquer desejo de um poderoso, levando tudo à frente.
"
Dizem que é assim que os lugares se desenvolvem mas é assim que eles morrem também."
em Rua da India, 76


***

2021-06-07

nn(in)metamorphosis

 

 


8 comentários:

  1. De vez em quando dou um salto à Rua da Índia e gosto do que leio. Lamento não comentar, talvez como devia, mas o lá ir é-me grato.
    Boa tarde, dona no.

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  2. raramente existe que goste de estar onde está. Também, raramente, alguém quando muda, não gosta de estar onde estava. São assi8m os movimentos da vida

    Cumprimentos

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  3. Muito interessante este post, meus parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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  4. Alô

    Obrigada pela referência e pela partilha do sentimento de desenraizamento. As coisas podem mudar, mas quando excluem as pessoas que sempre lá viveram, não pode ser para melhor. Foram, em supermercado, as compras mais caras que fiz nos últimos tempos, quase todos os produtos acima do seu valor habitual. Já vi isto acontecer em África, em lugares turísticos, o acesso fica praticamente vedado à população. Os autarcas, pelo menos uma maioria, coloca alegremente a assinatura nos empreendimentos turísticos de luxo.
    Deixo-lhe um abraço
    ~CC~

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  5. Noname, tens razão...Ficamos triste quando, em nome da modernidade, nossas raízes, o que fez parte de nossos dias, desmorona...Pena! beijos, chica

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  6. Gostei e revi-me neste passeio pela Rua da Índia.
    Resultado de saltitar de lugar para lugar.

    Um beijinho.

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  7. Um texto vindo das entranhas. Muito bom!

    Fique bem, dona Nô :)

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  8. querida madrinha, tudo "morre" mas nada se perde... é só na verdade uma transformação :) o que é osso e ligamentos que te escrevem, teclado e internet para chegar até ti, um dia serão um amontoado de elementos químicos catitas, a construírem galáxias a milhões de anos luz daqui :)

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