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03/11/2012

Passos no Escuro




Uma caneca de café
um biscoito na mão
uma alma sem fé
passadas sem chão
 
um olhar perdido
que olha e não vê
futuro esquecido
presente à mercê
 
na vida que passa
indaga o seu mundo
paira sem graça
no escuro profundo

escora a revolta
tão seca, tão fria
por dentro a rasgar
tolhendo a alegria
 
num rio mirrado
vazio sem fim
seca o olhar
que espera o motim

 

***
2012-11-03 – Passos no Escuro - LLunar
nn(in)metamorphosis



29/10/2012

Mosaicos de luz e sombra




Mosaicos de luz e sombra
 
Perdi-me em mais um adeus
Não acenei com a mão
Despedi-me com o olhar
Não o queria exposto
Apenas intimo
Não o queria visível
Tão só sentido
Fiquei-me em mais um adeus
Deixei-me estar
Mesmo depois da esquina dobrada
Mesmo após a hora passada
Deixei-me ficar
Acenando com os olhos
Fitando o até sempre
Sabendo que sempre pode demorar
Até lhe dizer bem-vinda
Com um novo olhar
 
2012-10-29 vc
(cópia integral e autorizada)
 
***

Mosaicos de luz e sombra

Entre a luz da madrugada
E a sombra do entardecer
Ficam pedaços do tempo
Que ninguém pode prender

Há silêncios nas paredes
E passos pelo corredor
Como memórias antigas
Guardadas sem ter valor

A luz entra pela casa
Desenha formas no chão
Enquanto a sombra repousa
No canto da solidão

Tudo passa devagar
Como o Outono no jardim
Levando folhas e sonhos
Para longe do fim

E entre sombras e clarões
Vai ficando a lembrança
De tudo o que se perdeu
E de tudo
o que ainda se alcança

 
***
2012-10-29 – Mosaicos de Luz e Sombra - Desafios
nn(in)metamorphosis


26/10/2012

Tu - Parte IV



Tu-Parte IV

Tens o aroma do Jasmim
Quando pingando sais do banho
E te enxugo a pele macia
Tens um cheiro selvagem
Sempre que, despenteada,
Me atacas e dominas
Com um brilho nos olhos
Que transcende o desejo
Tens um cheiro quente de madeira exótica
Quando na cama te enrolas em mim
Suavemente respirando sobre as minhas costas
Afagando-me o peito
Tudo em ti é sensual
Tudo em ti me prende
Assim me tolhes os sentidos

Assim me fazes refém de ti

 

2012.10.24 vc
Cópia integral e autorizada

 ***

TU

Tens o cheiro da terra
Depois da chuva cair
E a calma das árvores
Quando o vento vai dormir

Tens a luz das janelas
Ao cair da tarde fria
E um silêncio tão manso
Que aquece a casa vazia

Tens qualquer coisa de rio
Que corre sem se perder
Levando sonhos antigos
Para longe do sofrer

Tudo em ti é distante
Tudo em ti fica perto
Como o céu sobre os campos
Num caminho descoberto

E há sempre um nome oculto
No som do tempo a passar
Porque tudo o que é simples
Acaba por nos ficar

 

***
2012.10.24 – Tu parte IV 
nn(in)metamorphosis


24/10/2012

Princípio da Loucura ou o efeito colateral da febre




Princípio da Loucura ou o efeito colateral da febre

Por vezes respiro um mar chão
Doutras negras tempestades
De calmas e fúrias me mantenho
Sem sossego progrido
Ah, o cheiro do risco
A tontura da queda iminente
A náusea de fazer bem o que é errado
Entre o clamor e a desgraça
Entre a glória e o esquecimento
Escolho desgraçadamente o esquecimento
E que minha alma mendigue
Por becos imundos
De pensamentos perdidos

 

23.10.2012  vc
Cópia integral e autorizada

 

***
Resposta

 

Princípio da Loucura ou o efeito colateral da febre


Há dias em que o pensamento
fica sem forma nem lugar
e anda dentro da cabeça
como coisa a falhar

O corpo perde alinhamento
sem aviso nem razão
e o real fica distante
como se não tivesse chão

Não é dor, nem é sonho
é queda sem direcção
uma falha no caminho
entre regra e confusão

Chamam-lhe febre ou loucura
não há forma de explicar
a cabeça perde o rumo
e a razão começa a falhar

E tudo fica suspenso
entre o certo e o talvez
como um mundo interrompido
sem princípio nem vez

 

***

2012-10-24 - Princípio da Loucura ou o efeito colateral da febre 
nn(in)metanorphosis


18/10/2012

Corvo


Corvo
 
 Sou das sombras e da luz
De todo o bem e do mal
Do que iniciou o final
Do que diz morrer na cruz
Do perdão, dos pregões
Dos que tentam os sermões
Sou-lhes surdo, estou além
Tudo o que sinto é desdém
De quem me tentou seduzir
Sem jamais o conseguir
Do que faço, do que digo
Do que oiço ao ouvido
Da fúria que me move
Do desprezo que me comove
Assim me visto como sou
Assim me fico, não me dou
E da metade do todo
Sou o excesso, sou o corvo
 
15.10.2012 vc
(Cópia integral e devidamente autorizada)
 
***
Resposta
 
Corvo
 
Sou das sombras e da luz
Do que fica sem nome
Do que não pede razão
Nem se prende ao que consome
 
Sou do silêncio antigo
Do que observa sem pressa
Do que não busca resposta
Nem em nada se confessa
 
Não sigo voz nem caminho
Nem me dou ao que me chama
Sou o que fica sozinho
Quando o mundo se derrama
 
E na sombra permaneço
Sem querer outro lugar
Porque há seres que nascem
Só para ver e calar
 
Sou corvo. E assim fico.

 

 ***

2012-10-18– Corvo - Desafios
nn(in)metamorphosis


15/10/2012

Silêncio




De tão calada até parecerá, que não sinto nada, que não penso nada. Grande o engano. Apenas não encontro palavras à medida do que trago cá dentro. Só o silêncio. Brados e murmúrios são agora inaudíveis. Soam em tempestuoso alvoroço. Intensos, densos… Mas só por dentro.
 

 

***

2012-09-15 – Silêncio
nn(in)metamorphosis