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2012.03.31
nn(in)metamorphosis
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Sob o negro do celeste tecto
há noites em que me perco de mim
A ausência torna-se abrigo
como se nela pudesse enfim descansar
Depois de
tantos anos de luta
restou um vazio quieto em mim
que me suspende num silêncio cansado
e nunca aprendo a nomear
Olho o vazio
das noites
e os passos já gastos no caminho
E há um embaraço fundo
em continuar a existir
quando já não sei como regressar a quem fui
***
Rabisca palavras
no aconchego da noite
que é sua amiga
Rabisca na intimidade
do mesmo modo
que sonha
do mesmo modo
que ama
Passa a noite
chega o dia
Dissolve o cansaço
deixando-o passar
Põe
no olhar
o olhar de esperar
Pinta
na boca um sorriso
no rosto um rubor
e aguarda a noite
com a insónia ao lado
para rabiscar palavras
***
Quando o dia finda
e a noite cai
eu também…
A casa
continua igual
mesmo quando não se olha
Fica o copo
onde ficou
a luz onde sempre esteve
Enrosco-me em
mim
e a lua aparece
sem pedir lugar
E essa lua que
eu vejo
tu também…
como quem já viu muitas vezes
e não estranha
E é de todos
e é nossa…
como o que ficou
sem ter sido decidido
Quando o dia
finda
e a noite cai
eu também…
É quando eu sei
que tu existes
tu estás
como sempre estiveste
e eu… fico aqui
há coisas que
não se vão
nem se resolvem
ficam
como palavras antigas
que já não precisam de voz
e o silêncio
não pesa
encaixa
Quando o dia
finda
e a noite cai
eu também…
e a noite passa
sem surpresa
e nós também
***
Lua Cheia
desperta
emoções
incendeia sem pedir licença
alegrias curtas
como faíscas no escuro
ilumina a
estrada
mas não promete destino
enche noites
vazias
de sonhos que não ficam
uivo de lobos
ao longe
amantes em órbita instável
prata fria no
céu
quase toque
quase ilusão
***
Quente
arisca
pavio de dinamite
Alimenta-se de
pimenta
em tempero vivo
sensível ao toque
Há um ponto de
ebulição
em rubra insinuação
sem pudor
Na ponta da
língua, o vestígio
na veste vermelha, a promessa
lasciva intenção em suspensão
Carne no ponto
de arder
***
***
Há um silêncio
entre duas margens
um silêncio
fundo, lento
capaz de engolir cada palavra
antes do eco, antes do sentido
Há um minuto suspenso
entre cada gesto
mesmo quando o mesmo compasso
bate dentro do peito
Há uma distância invisível
sobre a pele
mesmo quando o abrigo dos braços
convida ao sono tranquilo
Talvez haja um lugar sem distância
um segundo
inteiro, intacto
um olhar absoluto
onde nenhuma ausência sobreviva
Talvez haja um silêncio perfeito
desses que dizem
tudo
sem pedir voz nem linguagem
tão sereno como
o descanso do entardecer
sobre cabelo iluminado
chamando o calor das mãos
E talvez nem os dedos
alcancem
esse breve milagre de tocar