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12/09/2010

Quisera ser Àgua



Quisera ser
Água
retida, tremente
nas tuas mãos em concha
e escorrer por
teu corpo quente
 
Quisera ser
Água
fluido morno
trocado em deleite
suspiros e gemidos
em cama de amantes
num entardecer
 
Quisera ser
Água
resto de sede saciada
de beijo e prazer
sobre a pele
adormecer



***

2010-09-12 - Quisera ser Água 
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11/09/2010

O Som do Silêncio




Na dor da vida
há um silêncio
onde a alma repousa em paz
 
Na angústia sem rumo
existem palavras
como mãos de luz na neblina
 
Alegram-se tristezas
conversa-se com sombras
e há um silêncio de amor
que reconhece o ser inteiro
 
O sonho acolhe
em calma funda
e desperta na aurora
quando o silêncio se abre
sobre o silêncio da dor
 
E nesse som sem som
a nota mais alta
 
a voz da alma


***
2010-09-11 - O Som do Silêncio
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06/09/2010

Cansadamente Viva


Sempre que as promessas não sejam mais do que palavras desconexas, ausentes de significância, poderiam ser apenas rabiscos, e nem assim conseguiriam ser menores.
E, mesmo que viessem bordadas a ouro, isso não lhes daria maior valor.

Por essas e muitas outras razões, prefiro o silêncio às falsas promessas. Mas nunca o silêncio das tuas palavras…
Porque essas, mesmo raras, fazem-me bem.

Enfastio-me diariamente com os idealistas astuciosos que “vivem” de acordo com a infinda sabedoria, querendo fazer-nos acreditar que esse é o único caminho para a felicidade. Vivem tumulados no saber, nas possibilidades e nas probabilidades das palavras cuidadosamente colocadas para não ferirem susceptibilidades… Inspiram e expiram todos os dias sem nunca perder a cabeça, sem nunca sair da linha planeada para o encontro das almas que os levarão, desta vida, para um outro estado onde habita a perfeição.

 (Que enjoo.)

Vidas consumidas em si mesmas, negras de tédio, extintas de vida…
Vidas que recusam a subtileza dos sentimentos inúteis.
(Inúteis… dizem eles.)

Citando Fernando Pessoa, digo-te, meu querido: julgam-nos inúteis porque não nos podem entender…

Como se ama infinitamente o finito,
Como se deseja, impossivelmente, o possível,
Porque queremos tudo, ou um pouco mais, se puder ser.
Ou até se não puder ser…

 Assim, meus amigos, não me perguntem se estou cansada. Porque, se estar cansada é viver, então responder-vos-ei que me sinto cansadamente VIVA.


***
2010-09-06 - Cansadamente Viva
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05/09/2010

Esta noite, a saudade não veio


Esta noite
 
celebro a tua ausência
e o teu silêncio
 
aclamo a tua solidão
e o perfume das amoras maduras
nos teus beijos que não vieram
 
Esta noite
 
és sonho sem chão
poema sem raiz
 
quando a luz se levanta
e a noite se despe
no delírio do silêncio
 
não és coisa nem saudade
 
és imagem inventada
insónia a arder por dentro
 
dardo cravado
na margem do que sou


***
2010-09-05 - Esta noite, a saudade não veio
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28/08/2010

São só saudades Pai



O sentir inunda-me os olhos e turva-me as retinas. A dor beija as pestanas e corta-me o rosto lentamente...são só saudades Pai.



***
2010-08-28 - Saudade 
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25/08/2010

O que é a Páscoa?

Pai, o que é Páscoa?

- Ora, Páscoa é ...... bem é uma festa religiosa!

- Igual ao Natal?

- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

- Ressurreição?

- É, ressurreição. Marta, vem cá!

- Sim?

- Explica a esta criança o que é ressurreição para eu poder ler o meu jornal descansado.



- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendido?

- Mais ou menos ........ Mamã, Jesus era um coelho?

- Que é isso? Não digas uma coisa dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Pai do Céu! Nem parece que este menino foi baptizado! Jorge, este menino não pode crescer assim, sem ir à missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele diz uma asneira destas na escola? Deus me perdoe! Amanhã vou matricular este fedelho na catequese!

- Mamã, mas o Pai do Céu não é Deus?

- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

- O Espírito Santo também é Deus?

- É sim.

- E Fátima?

- Sacrilégio!!!

- É por isso que na Trindade fica o Espírito Santo?

- Não é o Banco Espírito Santo que fica na Trindade, meu filho. É o Espírito Santo de Deus. É uma coisa muito complicada, nem a mamã entende muito bem, para falar a verdade nem ninguém, nem quem inventou esta asneira a compreende. Mas se perguntar à catecista ela explica muito bem!

- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?

- (gritando) Eu sei lá! É uma tradição. É igual ao Pai Natal, só que em vez de presentes, ele traz ovinhos.

- O coelho põe ovos?

- Chega! Deixa-me ir fazer o almoço que eu não aguento mais!



- Pai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?

- Era, era melhor, ou então peru.

- Pai, Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, não é? Que dia que ele morreu?

- Isso eu sei: na sexta-feira santa.

- Que dia e que mês?

- ??????? Sabes que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no sábado de aleluia.

- Um dia depois portanto!

- (gritando) Não, filho - três dias!

- Então morreu na quarta-feira.

- Não! Morreu na sexta-feira santa... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ah, miúdo, já me confundiste! Morreu na sexta-feira e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como!?!? Como!?!? Pergunte à sua professora de catecismo!

- Pai, então por que amarraram um monte de bonecos de pano na rua?

- É que hoje é sábado de aleluia, e a aldeia vai fingir que vai bater em Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

- O Judas traiu Jesus no sábado?

- Claro que não! Se ele morreu na sexta!!!



- Então por que eles não lhe batem no dia certo?

- É, boa pergunta.

- Pai, qual era o sobrenome de Jesus?

- Cristo. Jesus Cristo.

- Só?

- Que eu saiba sim, por quê?

- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele tinha no apelido Coelho. Só assim esta coisa do coelho da Páscoa faz sentido, não acha?

- Coitada!

- Coitada de quem?

- Da sua professora de catecismo!!!
 


Considerações para quê? para reafirmar o óbvio? ahahahah




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20/08/2010

Olhar


Olhei-te um dia
e ficou
como quem reconhece sem saber o nome
 
Olhaste-me depois
e ficou também
como se já lá estivesse antes de acontecer
 
Não foi súbito
foi ficando
 
Entre risos que explicam pouco
e silêncios que não precisam de explicação
 
Entre dias iguais
e noites em que o mundo parece maior do que nós
 
Fomos aprendendo o mesmo passo
mesmo quando o passo falhava
 
E um dia percebi
que já não era olhar
 
Era encontrar
 
Eu em ti
tu em mim



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2010-08-20 - Olhar
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13/08/2010

O Corvo

 
Agosto. Era agosto, 13, quarta-feira do ano de 2003. O dia tinha acordado lindo e quente. Na falta de ar condicionado, o trabalho decorria numa rotina dolente, interrompido pelo telefone que tocava na secretária da colega, de momento ausente. Levantou-se e, a caminho de o atender, olhou a janela aberta de par em par. Uma nuvem cinzenta, vinda não sabia de onde, escondia agora o sol que, filtrado, feria o olhar.
 
E ali, no gradeamento do muro, parecendo olhá-la, aquele pássaro negro de presença imponente. Na rua, a voz de uma senhora idosa informava os miúdos em alvoroço,“um corvo, é um corvo”, e, como se rezasse, benzeu-se enquanto dizia: “sinal de mau agouro; para o combater não chega todo o dinheiro, todo o ouro”.
 
Um arrepio, a mistura das vozes da senhora e de quem lhe falava do outro lado da linha, em tom aflitivo.
 
Tremeram-lhe as pernas
Rasaram-se-lhe os olhos
No peito, uma dor lancinante
 
O corvo piou
Levantou voo
 
E ela pensou:
“Ditou-lhe-me a sorte.”

  

***

2010-08-13 - O Corvo
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