A poesia é um grão de areia na minha meia
mínimo incómodo de praia esquecida
um quase nada que desarruma o passo
e obriga o corpo a lembrar-se da vida
Caminho
e ela insiste
Pequena, áspera, secreta
a raspar devagar a pele do pensamento
como quem afia silêncio numa navalha
Há dias em que a sacudo do sapato
e juro seguir leve, prática, inteira
mas ao primeiro cruzamento do vento
já sinto outra vez o seu peso minúsculo
essa migalha de mundo
presa entre o calcanhar e o destino
A poesia não salva
não paga contas nem abriga da chuva
Mas entra sem pedir licença
e transforma a marcha mais banal
numa lenta aprendizagem da ternura
Porque um grão de areia
é só um grão de areia
até ferir
Depois disso
já nenhuma caminhada é inocente
***
2026-06-10
- Entre o Calcanhar e o Destino
nn(in)metamorphosis
nn(in)metamorphosis
do blog EMATEJOCA.AZUL
Uso devidamente autorizado
É uma forma fantástica de ver as coisas. A poesia tem mesmo esse poder silencioso de transformar o banal em algo extraordinário e desconfortável. Ela recusa-se a ser ignorada.
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