Hoje acordei assim: interpelativa, objectiva, incapaz de ver no feio o bonito que sempre há, ou deveria haver, ou é suposto haver. Nua de doçura, saí para a rua. Manhã fria, céu nublado: uma combinação catastrófica para mim.
Tomei coragem e segui direitinha para o café do Zé. Precisava urgentemente de aquecer a alma num café servido em chávena escaldada, porque o café, para mim, é como o amor: se morno, perde a graça.
Vivo, ou sobrevivo, num mundo hipócrita, burocrático e de cegueira induzida; a pior de todas, a que não quer ver. Da crise de valores em que mixordamos, prefiro nem lembrar.
Gosto de caminhar sozinha, especialmente quando acordo azeda. Gosto de me sentar numa esplanada com um livro como companhia. Adoro dizer “bom dia” com alegria e um sorriso. Gosto de ajudar quem precisa sem pensar duas vezes, embora também exista muita gentinha mal-agradecida. Gosto de pessoas bem-dispostas, generosas nos afectos, e de respeito quanto baste, daquele que não coíbe uma conversa franca, sem receios de más interpretações, acusações ou outras maçadas.
Abomino a gentinha que enfeita as suas vidas ocas falando das vidas alheias, pelo que acham que sabem, pelo que viram, pelo que têm ou deixam de ter; gente que não sabe o momento em que deve parar, que não sabe onde a terra acaba e o mar começa, ou onde acaba a sua liberdade e começa a minha.
O que dizem os meus olhos?
Dirão sempre o que cada um quiser ver neles. Muitos vão enganar-se, poucos chegarão perto, porque eu sou, por dentro, uma personalidade minha; por fora, um conceito de cada um.
PS: Prometo a mim mesma, aqui eagora, tentar não voltar a acordar ao som do noticiário. É terrivelmente indigesto.
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nn(in)metamorphosis
