Vem, senta-te aqui ao meu lado, deixa-me ver
nos teus olhos, enquanto me falas, a lonjura do oceano que nos separa, das
terras vermelhas e mulembas frondosas, peles cor de ébano e missangas coloridas,
kandengues correndo pelas bissapas de risos alvos e fáceis, chapinhando
nas cacimbas. Conta-me de novo, aquela caçada, em que o teu irmão te ensinou a
usar uma carabina de culatra rectilínea com mira telescópica, o que eu me rio
sempre que contas esse episódio. Ah, e daquele baile no Arco Iris, onde
dançaste uma só vez, com todas as garinas presentes, e o marido de uma casada não
gostou, hilariante. Fala-me da savana, do deserto do namibe, da praia morena,
da Senhora do Monte, da serra da Leba, de impalas e gnus, de nunces, de hienas
que riem, de homens e mulheres pequeninos que falam com estalidos de língua, bosquímanos,
certo? - Em toda a minha vida, só vi um, perdido na cidade, de tanga,
arco e flecha nada intimidado - E dos outros, altaneiros e orgulhosos da sua raça, Mucubais, não é? e lembra-me do sabor agri-doce da Mukua. Em troca, falar-te-ei de Luanda, da
Ilha, do Morro da Lua, da Barra do Quanza, de plantações de algodão, de canas
de açúcar, de gentes tão doces quanto elas, de kikuerra e de tantas outras
coisas. Sabes, sempre que me falas de lá, me levas lá. Não. Não é a mesma coisa. É diferente. Eu lembro com saudade silenciosa, tu
dás voz às tuas raízes, e num ápice, as palavras voltam a ter aquele som
incomparável de um - uê mámá - de um dona, hoje tém démdém, bánána, fruta
pinha.
É sempre tão bom ver-te. Livra-te de morrer antes de mim, juro que te mato, meu sekulu adorado.
Kandengues=Crianças Bissapas=arbustos Cacimba=poça de água Garina= moça jovem Mukua=Fruto do Imbondeiro/Embondeiro Kikuerra=Mistura de farinha de mandioca e
açucar, torrada Sékulu=Homem velho