12/09/2017

É sempre tão bom ver-te

Mulher Mucubal



Vem, senta-te aqui ao meu lado, deixa-me ver nos teus olhos, enquanto me falas, a lonjura do oceano que nos separa, das terras vermelhas e mulembas frondosas,  peles cor de ébano e missangas coloridas, kandengues correndo pelas bissapas de risos alvos e fáceis, chapinhando  nas cacimbas. Conta-me de novo, aquela caçada, em que o teu irmão te ensinou a usar uma carabina de culatra rectilínea com mira telescópica, o que eu me rio sempre que contas esse episódio. Ah, e daquele baile no Arco Iris, onde dançaste um só vez, com todas as garinas presentes, e o marido de uma casada não gostou, hilariante. Fala-me da savana, do deserto do namibe, da praia morena, da Senhora do Monte, da serra da Leba, de impalas e gnus, de nunces, de hienas que riem, de homens e mulheres pequeninos que falam com estalidos de língua, bosquímanos, certo? - Em toda a minha vida, só vi um, perdido na cidade, de tanga, arco e flecha nada intimidado - E dos outros, altaneiros e orgulhosos da sua raça, Mucubais, não é? e lembra-me do sabor agri-doce da Mukua. Em troca, falar-te-ei de Luanda, da Ilha, do Morro da Lua, da Barra do Quanza, de plantações de algodão, de canas de açúcar, de gentes tão doces quanto elas, de kikuerra e de tantas outras coisas.

Sabes, sempre que me falas de lá, me levas lá. 
Não. Não é a mesma coisa. É diferente. Eu lembro com saudade silenciosa, tu dás voz às tuas raízes, e num ápice, as palavras voltam a ter aquele som incomparável de um - uê mámá - de um dona, hoje tém démdém, bánána, fruta pinha.

É sempre tão bom ver-te.
Livra-te de morrer antes de mim, juro que te mato, meu sekulu adorado.





Kandengues=Crianças
Bissapas=arbustos
Cacimba=poça de água
Garina= moça jovem
Mukua=Fruto do Imbondeiro/Embondeiro
Kikuerra=Mistura de farinha de mandioca e açucar, torrada
Sékulu=Homem velho


***** 
2017-09-11
nn(in)metamorphposis 


2 comentários:

  1. Desconhecia que tinhas vivido em Angola, e adorei este teu belíssimo texto.

    Levaste-me à Serra da Leba, à poesia e às maravilhosas telas ( duas das quais tenho o privilégio de chamar minhas) e à velha amizade do meu querido Guma Kimbanda.
    Quem ficou, agora, cheia de saudades fui eu...

    Parabéns, NN. Que beleza de texto. Que força nas palavras e no sentimento. Obrigada!

    Beijinhos e um grande kandandu (?)

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