Hoje acordei assim: interpelativa, objectiva, incapaz
de ver no feio o bonito que sempre há, ou deveria haver, ou é suposto haver.
Nua de doçura, saí para a rua. Manhã fria, céu nublado: uma combinação
catastrófica para mim.
Tomei coragem e segui direitinha para o café do Zé.
Precisava urgentemente de aquecer a alma num café servido em chávena escaldada,
porque o café, para mim, é como o amor: se morno, perde a graça.
Vivo, ou sobrevivo, num mundo hipócrita, burocrático e
de cegueira induzida; a pior de todas, a que não quer ver. Da crise de valores
em que mixordamos, prefiro nem lembrar.
Gosto de caminhar sozinha, especialmente quando acordo
azeda. Gosto de me sentar numa esplanada com um livro como companhia. Adoro
dizer “bom dia” com alegria e um sorriso. Gosto de ajudar quem precisa sem
pensar duas vezes, embora também exista muita gentinha mal-agradecida. Gosto de
pessoas bem-dispostas, generosas nos afectos, e de respeito quanto baste,
daquele que não coíbe uma conversa franca, sem receios de más interpretações,
acusações ou outras maçadas.
Abomino a gentinha que enfeita as suas vidas ocas
falando das vidas alheias, pelo que acham que sabem, pelo que viram, pelo que
têm ou deixam de ter; gente que não sabe o momento em que deve parar, que não
sabe onde a terra acaba e o mar começa, ou onde acaba a sua liberdade e começa
a minha.
O que dizem os meus olhos?
Dirão sempre o que cada um quiser ver neles. Muitos
vão enganar-se, poucos chegarão perto, porque eu sou, por dentro, uma
personalidade minha; por fora, um conceito de cada um.
PS: Prometo a mim mesma, aqui eagora, tentar não
voltar a acordar ao som do noticiário. É terrivelmente indigesto.
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2012-11-28 – O que dizem os
meus olhos
nn(in)metamorphosis