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18/09/2026

E se o problema não for a inteligência artificial?

 
Não sou entendida em tecnologia. Não sei explicar como funcionam os algoritmos, não sei até onde poderá chegar a inteligência artificial e muito menos tenho conhecimentos que me permitam prever o que acontecerá daqui a dez ou vinte anos.
 
Mas tenho olhos. Tenho memória. E tenho uma coisa que, às vezes, me parece que estamos a perder: a capacidade de sentir quando alguma coisa não está certa.
 
Há dias li uma notícia sobre inteligência artificial que me deixou inquieta. Falava de pessoas ligadas a grandes empresas tecnológicas que começaram a alertar para os perigos do caminho que estamos a seguir. Pessoas que conhecem esta tecnologia por dentro e que parecem ter medo daquilo que estão a ajudar a criar.
 
Não sei quanto há de verdade, quanto há de exagero e quanto há de interesses pelo meio. Sei apenas que a ideia ficou comigo.
 
E comecei a pensar.
 
Talvez o que mais me assuste na IA não seja a possibilidade de um dia as máquinas se tornarem mais inteligentes do que nós.
 
Talvez seja aquilo que nós, seres humanos, faremos com elas.
 
Porque as máquinas não inventaram a ganância. Não inventaram a sede de poder. Não inventaram a obsessão pelo lucro.
 
Fomos nós.
 
E há seres humanos que olham para quase tudo através de uma folha de Excel.
 
- Quantas pessoas podem ser substituídas?
- Quanto se pode poupar?
- Quanto se pode produzir?
- Quanto vale este mercado?
- Quantos dados temos?
- Quantos utilizadores?
 
Quantos milhões?
 
E, no meio de tantos números, às vezes desaparece aquilo que o número representa.
 
Uma pessoa.
 
- Uma pessoa que tem medo de perder o emprego.
- Uma pessoa que trabalha quarenta anos e, de repente, passa a ser considerada "dispensável".
- Uma pessoa que não consegue acompanhar a velocidade da tecnologia.
- Uma pessoa que não percebe porque é que uma máquina decidiu que ela não serve para determinado trabalho, para determinado empréstimo, para determinada oportunidade.
 
Uma pessoa que, simplesmente, passa a ser mais um dado.
 
E aqui há uma ironia que não consigo deixar de pensar.
 
Dizem-nos que a inteligência artificial poderá um dia tornar os seres humanos desnecessários.
 
Mas será que não estamos nós próprios a preparar esse caminho?
 
Há muito tempo que, em tantos aspectos da nossa vida, deixámos de ser pessoas para passar a ser números.
 
- Somos o número do contribuinte
- O número de cliente
 - O número da conta
 -O número do processo
- O número da apólice
- O número das estatísticas
 
O número que aparece numa tabela e determina se somos rentáveis ou não.
 
Eu própria já hoje não passo, muitas vezes, de um número.
 
Por isso, quando ouço falar de uma inteligência artificial que poderá tomar decisões cada vez mais importantes, não consigo deixar de pensar: quem estará por detrás dela?
 
- Quem define aquilo que ela deve fazer?
 - Quem decide os limites?
 - Quem será responsável quando errar?
 
E, sobretudo, quem vai decidir o que vale mais: o lucro ou a pessoa?
 
Não quero parecer alarmista.
 
Também não quero entrar naquela conversa de que "as máquinas vão dominar o mundo", como se estivéssemos dentro de um filme.
 
Não sei se a IA vai acabar com a humanidade daqui a dez anos. Provavelmente ninguém sabe.
 
Mas sei que uma tecnologia capaz de fazer cada vez mais coisas nas mãos de seres humanos irresponsáveis pode ser perigosa.
 
E sei também que uma tecnologia extraordinariamente poderosa nas mãos de pessoas extraordinariamente responsáveis pode ser uma coisa maravilhosa.
 
A inteligência artificial pode ajudar a descobrir doenças, ensinar, investigar, facilitar a vida de pessoas com limitações e resolver problemas que hoje parecem impossíveis.
 
Não sou contra a tecnologia.
 
Sou contra a ideia de que, porque uma coisa pode ser feita, tem necessariamente de ser feita.
 
E talvez seja esta a pergunta que devêssemos fazer mais vezes.
 
Não "até onde conseguimos levar a inteligência artificial?"
 
Mas:
 
"Até onde devemos levá-la?"
 
Porque há uma diferença enorme entre poder fazer alguma coisa e dever fazê-la.
 
E talvez precisemos de discutir isto enquanto ainda estamos a tempo.
 
- Não apenas os especialistas.
- Não apenas os donos das grandes empresas tecnológicas.
- Não apenas os governos.
 
Nós.
 
- As pessoas comuns.
- As que vão trabalhar amanhã.
- As que têm filhos.
- As que têm pais idosos.
- As que têm medo de perder o emprego.
- As que já sentem que o mundo corre demasiado depressa.
 
As que, como eu, não sabem explicar tecnicamente o que é uma inteligência artificial, mas sabem reconhecer o valor de uma vida humana.
 
Talvez eu não tenha conhecimentos suficientes para dizer até onde a inteligência artificial pode chegar.
 
Mas tenho conhecimento suficiente para saber onde não gostaria que chegássemos nós.
 
- Um mundo onde uma pessoa valha apenas aquilo que produz.
- Um mundo onde uma pessoa seja apenas um número.
 
Porque, se chegarmos aí, talvez o problema não seja a inteligência das máquinas.
 
Talvez seja termos esquecido o que significa ser humano.

 

 ***

2026-09-18 - E se o problema não for a inteligência artificial?
noname-metamorphosis 

2 comentários:

  1. Concordo em absoluto com o texto.
    Digo NÃO à IA. Concebida pelo Ser Humano traz, consigo, toda a maldade gerada pela maldade humana.
    Também já li alguns artigos sobre a matéria. São mais os que discordam - da IA - do que os concordam.
    Prefiro, por enquanto, manter-me em alerta máximo.
    Bom dia, dona no.

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    Respostas
    1. Segundo o que tenho lido, a IA já por diversas vezes foi além do pedido, ultrapassando as barreiras e fazendo o que lhe importa não olhando a meios. O futuro, embora tenha sido sempre aquilo que não prevemos, não me parece risonho de todo.
      Bom dia, sô António

      Nota: a Lista de leitura já está a ser actualizada de novo, por agora.

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