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Anda à tona de si, num quase não viver, num quase não
sentir, num quase não ser.
Nada já a faz rir ao hilário, nada já a faz chorar ao
desespero, nada já a faz sentir ao limite, nada já a faz acreditar.
Adormece acordada, acorda adormecida e sem viço, como se
em tudo faltasse, um quase nada, um quase tudo, para que se complete cada
cavidade oca que pulsa num quase cheio, num quase vazio.
Quando se perdeu?
Não se terá perdido.
Terá tomado consciência, que tudo sofre de relatividade.
Que a vida é:
- Um jogo de xadrez
onde o rei vive na ilusão que reina, onde o peão se
esforça por vencer, mas no final, o cheque mate, nenhum deles decide.
- Uma peça de teatro
onde se mudam os actores, mas as cenas, essas,
repetem-se e repetem-se, e de tanto se repetirem, tornam os espectadores
amorfos de olhar perdido no horizonte que é já ali, na cortina descolorida do
palco.
- Uma partitura de autor desconhecido
que ora nos leva a dançar em notas suaves, quase
perfeitas quase idílicas, ora nos atira para tempestuosas notas agudas e
descompassadas.
- Uma pintura
em tons calmantes de azuis celeste, e amarelos
tenebrosos que abafam o grito.
Espera, sem esperança nem fé, o novo, o puro, que traga o
riso espontâneo pela alegria partilhada, o choro compulsivo pelo sofrimento
alheio, o rubor na face pelo esforço do trabalho, as mãos suadas e pernas
trementes pelo amor, o coração na boca pela verdade, as mãos estendidas
voltadas para cima pelo acreditar.
Sabe, que pouco sabe, mas nesse pouco saber, sabe que
quase tudo é irrelevante, sabe que quase nada é o que parece, sabe que
quase nada presta, e sabe que mesmo que tivesse mais tempo, não lhe chegaria
para saber da beleza de todas as coisas.
Anseia, e receia, abeirar-se do desconhecido que ignora,
mas sabendo que sempre verá o outro lado a partir do seu lado, aquieta-se, e
segue adormecida à tona de si.
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2017-05-05
nn(in)metamorphosis

















