O Outono impôs-se, imponente em toda a sua força. Nas
árvores de folha caduca já não restam folhas, mostram-se, agora, nuas, esqueléticas,
de braços erguidos ao céu como suplicando vestimenta.
Os dias acordam cinzentos e enegrecem cedo. Dias curtos
macilentos, não são os da minha adoração, mas também não me descabelo em choro,
nem deixo de sair, ainda que, as botas a gabardina, o chapéu de chuva, sejam
adereços menos apreciados. Se para mim este tempo tem alguma coisa de bom, além
de que é necessário para o equilíbrio do planeta, é que me torna contemplativa, introspectiva. É em cada início de Outono que prevejo os meus cinzentos, as
minhas frases curtas, os sorrisos rápidos, mas é no seu final, na antecâmara do
Inverno, que começo a fazer balanços, delinear projectos, renovar votos. Por
certo, preciso ficar nua, de braços erguidos ao céu, para que possa ganhar nova
vestimenta, para a caminhada.
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2019-11-27
nn(in)metamorphosis