Carta deixada na caixa do correio do Miguel, pelo seu senhorio que, além de o ser, é um grande SENHOR!
São coisas destas que , ainda, me fazem acreditar no ser humano.
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2017-11-27
nn(in)metamorphosis
Domingo, descanso, descompromisso com
maquilhagem,
com saltos, com roupas que não sejam confortáveis. Um fato de treino, umas sapatilhas,
um livro, uma cavaqueira leve e divertida, se possível.
Toca o telefone. Atendo.
- Estou
- Ai que bom, estás em casa, vem comigo, preciso de ir aquela loja,
quero a tua opinião.
- Ó pá, a sério? Vais para as lojas ao domingo?
- É uma urgência, tenho um evento amanhã. Vá lá, não sejas cortes, vai
comigo.
- Está bem, mas não é para demorar. Vou ter contigo, ou passas por aqui?
-Eu já estou a caminho de tua casa, desce.
- Agarrei, na malita de alça à tiracolo, a de ir ás compras, a que me deixa as
mãos livres e liga bem com o fato de treino e sapatilhas. Desço. O toque de uma
buzina, uma mão no ar que se agita, um estou aqui (sou míope :-))
Só tu me tirarias do meu descanso, disparo, enquanto entro no carro. Como
resposta, um sorriso largo, daqueles que só quem nos quer bem, sabe dar.
- Desculpa miga, mas é mesmo uma urgência, o Paulo só agora me disse, e por
via disso, já me irritei com ele.
Depois de estacionar o carro, lá seguimos para a loja, e a minha amiga, começa,
de imediato, a procurar o que tem na ideia. Enquanto isso, eu, vou pondo um
olho aqui e ali, um toque num tecido, um olhar mais atento a um pormenor,
quando uma voz, atrás de mim, vinda do nada, me diz:
- A senhora não quer acompanhar-me ao outro lado da loja? por lá,
encontrará, com certeza, algo que lhe agrade a um preço que lhe será mais
adequado.
- Desculpe?! Não percebi o que disse - e a menina, na casa dos 18 - 20 anos,
quando tanto, dentro da sua farda negra, composta por calça, uma camisa alva e
pullover sem manga com monograma da loja, bordado, repete, palavra por palavra,
o que eu tinha ouvido, mas não tinha acreditado poder ouvir.
Recompus-me o mais rápido possível, e perguntei-lhe: O que a faz pensar que
estou no lugar errado, da loja? Olhou-me de cima para baixo, enquanto um
sorriso de desdém lhe bailava na boca.
- Ora, minha senhora, basta olhar, para o modo como se veste.
- A sério? Pelo modo como me visto, consegue ver a minha disponibilidade
financeira? Nem põe a hipótese de eu ter, simplesmente, mau gosto?
- Ah, não, são muitos anos disto.
- Muitos anos disto! Bom, sendo assim, vou render-me à sua
apreciação mas, não sem antes, lhe pedir que me acompanhe, até ao gerente de
loja. Um rubor imediato, lhe pintou o rosto, a voz, agora nervosa, balbucia...
- gerente? para quê a gerente?
Ora, minha querida, os meus muitos anos disto, dizem-me que, assuntos sérios,
se tratam com quem os pode resolver. Vamos?
Pois... Serei.
Serei, mau feitio. Mas nunca, de modo gratuito, só porque sim.
O meu mau feitio, tem a exacta medida, da falta de respeito, de educação e
civilidade que tiverem para comigo. E venha de quem vier, ouvirá o que não
gosta, se disser o que quiser.