15/05/2016

Que poema Mia Couto escreveu para ti?






1 – Árvore

cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo

No livro Raiz de Orvalho e outros poemas


2 – O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

No livro “Idades Cidades Divindades”


3 – Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”


4 – Companheiros

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros



5 – Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”


6 – Saudade

Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

No livro “Tradutor de Chuvas”


Recebi da Berta e gostei


4 comentários:

  1. Sabes o que eu gostaria, Noname?

    Que 'alguém' tivesse pedido a Mia Couto, que escrevesse o poema da imagem nº 3 , esse belo caminho atapetado de pétalas, "Para Ti"...para me oferecer 'a mim'..."

    Beijinhos e Bom Domingo! :)

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  2. Mia Couto, poesia em cada palavra, mesmo quando escreve prosa. É criatura que respira poesia, exala poesia e, faz-nos entrar em seu barco e seguir viagem, encontrando-se em muitos de seus poemas, em tantos de seus versos, com rima, sem rima, pouco importa.
    No poema "Companheiros", me encontro muito: "quando ficar sem mim/ não terei escrito/ senão por vós". Mas, em cada um deles, há um pouco de escrita especialmente para mim, e para cada um dos eus que me habita ;)

    abç amg

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  3. Eu escolhi todos os poemas.
    O Mia é algo sensacional...que escreve para todos.
    Mas, se a Noname quiser eu escolho uma: A última....

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