12/10/2015

Trapos, Tralhas e Afins




Acabei de ler um post da Gaja Maria. http://pensamentosdeumagaja.blogspot.pt/

A GM é uma Senhora Gaja com bué d’estilo. Daquelas que não conhecemos senão do blog, mas que, pelo que escreve, e do modo como o faz, nos faz gostar dela.
O post fala de arrumação, ou melhor, do acumular de roupas e objectos, que já não se usando, há anos, mantemos ali, como história viva, da nossa história.

De notar que, essa história só ganha vida aí de 5 em 5 anos, uma manhã, uma tarde, muitas vezes apenas uma hora, quando nos dá uma pancada e decidimos fazer uma barrela, que se fica pelo pensamento, pois acaba tudo no mesmo sítio, ou na prateleira ao lado.

O certo é que acabei a reflectir sobre o assunto, e dei-me conta do quanto eu mudei, em relação a isso. É que eu mudei 160º num único dia, aquele dia. E é essa experiência que aqui deixo, tal como deixo a minha reflexão em forma de conselho.
Deixo, porque ninguém mo compra, tá?!!!

Depois daquele dia, que foram uns quatro dias, a desmantelar uma casa inteira, ou o que havia dentro dela, decidi sem que me apercebesse, que a seguir, era a minha casa que eu iria, não desmantelar, mas destralhar definitivamente.

A ideia de destralhar a minha casa cresceu e tornou-se urgente. A opção encontrada, para destralhar sem esvaziar a minha história seria: filmar, fotografar, qualquer forma valia, se depois conseguisse arquivar e desarquivar, quando a melancolia chegasse.

E assim foi: Vestindo aquela peça, que um dia, por obra e graça da ilusão de óptica, me fez parecer mais magra, e que agora triunfalmente ficava a nadar em mim;  ou numa tentativa frustrada de me enfiar numa outra, a coisa não descambou, mas os anitos trouxeram também uns kilitos, não devia ter vestido esta, quer dizer, vestir é uma força de expressão, o raio da calça não passou além da anca ahahahahah , estou a rir conseguem ouvir? É que depois de tudo isto, as imagens são, ainda hoje, a fórmula exacta para risos, quando visionadas. Aqueles monos emparedados num armário, ganharam vida e contam a minha história, que nem sempre é de risos, nem sempre é de choro, mas é nessa mistura, que se fazem as vidas e as histórias e a minha não é excepção.

Hoje, eu fico com uma ou outra peça mais marcante, e quase sempre nem é minha, mas de alguém que já partiu, ou simplesmente passou pela minha vida. Coloco numa daquelas caixas plásticas de arrumação e segue para a prateleira da garagem, aquela reservada, ao ontem...

Todo o resto, se ficou duas épocas por usar, é porque não vou usar mais, e  vai de imediato aconchegar alguém, fazer sorrir alguém, antes de se tornar peça de museu

Não fui sempre assim, passei a sê-lo após ter que esvaziar a casa do meu último tio vivo. Quanta coisa se acumula, e se torna inútil, quando poderia ter ajudado uma família, uma pessoa que fosse.

A partir daí, e na mesma proporção, o desapego por coisas e o apego a pessoas e a momentos, cresceu desmesuradamente.

Os benefícios:
Não darei muito trabalho a quem tiver que desmantelar a minha casa.

A quem decidir ficar comigo um pouco mais de tempo, na forma matérial, esteja certo que ocuparei pouquíssimo espaço físico. A minha história caberá numa caixinha de DVD, ou numa pen drive.

A quem ficar comigo, na forma emocional, é porque terei feito bem o meu trabalho, estando presente e ausente nos momentos certos. Cumprindo aquela frase do Bob Marley - "Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua ausência seja sentida" Neste caso, terei a sorte de viver, para além de mim, e ocuparei o espaço e o tempo, que quem me escolheu quiser. 

Em ambas as situações, é preciso que alguém tenha escolhido ficar comigo, há sempre o risco de ir parar, para além da sepultura, ao contentor mais próximo. 

Há que ser pragmático :)) 


Posfácio: O que realmente vale a pena guardar, eu guardo na memória e no coração, quando algum destes falhar, então, eu, já nada mais serei, que uma lembrança na memória e no coração, dos que me guardarem. Esse será o único testemunho da minha passagem.

*****
2015-10-12
nn(in)metamorphosis


9 comentários:

  1. Claro que não! Tu, afilhado meu, mailindo quinté, tás a uso (salvo seja) e espero que por muito tempo mas, tens que te portar bem, que pelas histórias que contas, corro o risco de ao abrir a porta do armário ficar bêbada ahahahahahahh

    Abreijo Manel

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  2. : ) eu cá fico por aqui contigo e gosto, só espero que não haja um contentor perto :)) Beijinho

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    1. Ó GM, a escolha só terá lugar quando eu bater a bota, por enquanto estou de boa saúde e recomendo-me :=))

      Mas fico feliz, por queres acompanhar-me em vida
      Também te gosto, vá-se lá saber porquê, mas o porquê é exactamente o que menos me importa, abreijo em TU

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  3. Há muito que escolhi ficar contigo para o meu sempre!
    Apenas eu e tu sabemos o quanto significa este "sempre"
    Agora que te li e me deste uma ideia fabulosa, vou fazer o mesmo cá por casa.
    Se me mandares reciclar, quero ser um pires... para sempre.:)
    Beijinho

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    1. E eu, que pensava guardar-te nuvem, daquelas que habitam céus azuis. Mas ok, serás pires, como é teu desejo

      Abreijo Semblante das dez, das 11, das 16, de todas as horas

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  4. Fizeste me sorrir e confesso que umas lágrimas teimosas apareceram nos meus olhos mas deve ter sido por causa da cebola :p
    As tuas palavras fazem tanto sentido que até dói. :)
    Obrigada pela partilha noname :)

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    1. Obrigada a TU, pela visita e pelo que me deixas ler, no teu cantinho.
      Mas tens razão, há cebolas levadas do caraças :=))

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  5. Gostei muito de ler isto, noname. A analogia, mesmo que efectiva, da roupa usada é perfeita.
    A verdade é que o velho pouco ou nada mesmo tem a ver com a passagem do tempo. Tem tudo, sim, a ver com a perda de flexibilidade. É ver a quantidade de gente jovem já na velhice com a cabeça feita e a mente fechada. E ao invés, pessoas de muitos anos absolutamente abertas ao crescimento à ampliação de horizontes.

    Um abraço. :)

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  6. Passei para conhecer e gostei muito...vou voltar com calma e para não me perder já guardei lugar lá no cantinho dos seguidores!
    Bjs
    Maria

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