30/10/2015

Quem era?



Era e não era, no meio da ponte
Era nim, nem não nem sim
Era uma vez, e outra e mais outra
Era pau, para toda a obra
Era procura, em ser melhor
Era míope, e via longe
Era caminho, despido de destino
Era lunática, e vivia na terra
Era trabalhadora, mas não tinha patrão
Era musical, e não sabia uma nota
Era só olhos, quando se maravilhava
Era tristeza, nas imagens de fome
Era revolta, na página politica
Era insegura, nas multidões
Era firmeza, quando decidia
Era amiga, de tirar a camisa
Era irmã, sem religião nem cor
Era criança, na areia da praia
Era saudade, na linha do horizonte
Era ausente, de significado e órfã de razão
Era algo perdido, no meio do nada
Era mais uma, na multidão de iguais
 nada mais


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2015-30-10
nn(in)metamorphosis



12/10/2015

Trapos, Tralhas e Afins




Acabei de ler um post da Gaja Maria. http://pensamentosdeumagaja.blogspot.pt/

A GM é uma Senhora Gaja com bué d’estilo. Daquelas que não conhecemos senão do blog, mas que, pelo que escreve, e do modo como o faz, nos faz gostar dela.
O post fala de arrumação, ou melhor, do acumular de roupas e objectos, que já não se usando, há anos, mantemos ali, como história viva, da nossa história.

De notar que, essa história só ganha vida aí de 5 em 5 anos, uma manhã, uma tarde, muitas vezes apenas uma hora, quando nos dá uma pancada e decidimos fazer uma barrela, que se fica pelo pensamento, pois acaba tudo no mesmo sítio, ou na prateleira ao lado.

O certo é que acabei a reflectir sobre o assunto, e dei-me conta do quanto eu mudei, em relação a isso. É que eu mudei 160º num único dia, aquele dia. E é essa experiência que aqui deixo, tal como deixo a minha reflexão em forma de conselho.
Deixo, porque ninguém mo compra, tá?!!!

Depois daquele dia, que foram uns quatro dias, a desmantelar uma casa inteira, ou o que havia dentro dela, decidi sem que me apercebesse, que a seguir, era a minha casa que eu iria, não desmantelar, mas destralhar definitivamente.

A ideia de destralhar a minha casa cresceu e tornou-se urgente. A opção encontrada, para destralhar sem esvaziar a minha história seria: filmar, fotografar, qualquer forma valia, se depois conseguisse arquivar e desarquivar, quando a melancolia chegasse.

E assim foi: Vestindo aquela peça, que um dia, por obra e graça da ilusão de óptica, me fez parecer mais magra, e que agora triunfalmente ficava a nadar em mim;  ou numa tentativa frustrada de me enfiar numa outra, a coisa não descambou, mas os anitos trouxeram também uns kilitos, não devia ter vestido esta, quer dizer, vestir é uma força de expressão, o raio da calça não passou além da anca ahahahahah , estou a rir conseguem ouvir? É que depois de tudo isto, as imagens são, ainda hoje, a fórmula exacta para risos, quando visionadas. Aqueles monos emparedados num armário, ganharam vida e contam a minha história, que nem sempre é de risos, nem sempre é de choro, mas é nessa mistura, que se fazem as vidas e as histórias e a minha não é excepção.

Hoje, eu fico com uma ou outra peça mais marcante, e quase sempre nem é minha, mas de alguém que já partiu, ou simplesmente passou pela minha vida. Coloco numa daquelas caixas plásticas de arrumação e segue para a prateleira da garagem, aquela reservada, ao ontem...

Todo o resto, se ficou duas épocas por usar, é porque não vou usar mais, e  vai de imediato aconchegar alguém, fazer sorrir alguém, antes de se tornar peça de museu

Não fui sempre assim, passei a sê-lo após ter que esvaziar a casa do meu último tio vivo. Quanta coisa se acumula, e se torna inútil, quando poderia ter ajudado uma família, uma pessoa que fosse.

A partir daí, e na mesma proporção, o desapego por coisas e o apego a pessoas e a momentos, cresceu desmesuradamente.

Os benefícios:
Não darei muito trabalho a quem tiver que desmantelar a minha casa.

A quem decidir ficar comigo um pouco mais de tempo, na forma matérial, esteja certo que ocuparei pouquíssimo espaço físico. A minha história caberá numa caixinha de DVD, ou numa pen drive.

A quem ficar comigo, na forma emocional, é porque terei feito bem o meu trabalho, estando presente e ausente nos momentos certos. Cumprindo aquela frase do Bob Marley - "Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua ausência seja sentida" Neste caso, terei a sorte de viver, para além de mim, e ocuparei o espaço e o tempo, que quem me escolheu quiser. 

Em ambas as situações, é preciso que alguém tenha escolhido ficar comigo, há sempre o risco de ir parar, para além da sepultura, ao contentor mais próximo. 

Há que ser pragmático :)) 


Posfácio: O que realmente vale a pena guardar, eu guardo na memória e no coração, quando algum destes falhar, então, eu, já nada mais serei, que uma lembrança na memória e no coração, dos que me guardarem. Esse será o único testemunho da minha passagem.

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2015-10-12
nn(in)metamorphosis