27/05/2012

Cantigas ao desafio VI



Ella Fitzgerald - Cry me a river

É apenas mais uma ponte
Apenas mais um salto no vazio
É apenas mais um passo
Um desvio no espaço
É uma sensação de frio
Com o sol aqui defronte

É uma escada sem degraus
Uma balada sem escala
Um diz que disse sem fala
Coisa de bons e de maus

É a vida aos soluços
Entre percalços e impulsos
É um bater do coração
Um desejo, uma desilusão

É o pacto com o diabo
É a estrofe de um fado
É o princípio do fim
É o que escolho pra mim.

Acho que uma vez, há muito tempo, chorei um rio. Não me recordo, apenas sei que sim.
Sequei-me a fonte nesse braço de mar e nem um regato voltei a chorar.
Hoje esse rio está seco, é uma cicatriz onde retorno sempre que a fonte ameaça brotar.
Remédio santo…

                2012.05.25 (vc)
(Cópia integral e devidamente autorizada)

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Inventa-se um rio, um sargaço, uma foz, mas depois fica-se petrificado, incapazes de mergulhar, porque não sabemos deter as águas nem o tempo.
Seria bom, se nos soubéssemos encantar com aquilo que se vai perdendo pelo caminho, mas a boca não se faz ao asfalto e as palavras não ditas, irão um dia cair de maduras, sem serem comidas.
Sem serem sonhadas
Sem serem respiração, boca a boca.
Haverá um dia em que iremos adormecer sem mais nada no corpo, que não nós mesmos.
E nesse dia não inventaremos mais rios…

      2012.05.26
nn(in)metamorphosis


1 comentário:

  1. Ouço a clareza do escorregar das águas por entre vagas e vagas de silêncios... Destes, apossam-se as aves, por gostarem de escutar-se a si mesmas...
    Por cima, imutável, jaz sempre o infinito.
    Este não se escuta...Estranha-se e entranha-se na alma que pesa a dor de existir.

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